
Glória mal acreditou quando o motor do carro parou de funcionar. Seu primeiro impulso foi gritar, mas a garganta não conseguiu emitir mais que um gemido, mais fraco que o coaxar dos sapos e a cantoria dos grilos no meio da noite escura. Droga, pensou. Não bastassem os problemas que estavam acumulados sobre a sua vida há tempos, agora mais essa!
Que outra solução teria a não ser buscar socorro? Retirou o celular da bolsa e, num ato de fúria, atirou-o no chão... estava simplesmente sem sinal. Afinal, aquilo era um buraco negro? Ou estava próxima ao Triângulo das Bermudas? Certamente o destino resolvera brincar com ela, concluiu.
Saiu do veículo, temerosa de mais uma surpresa desagradável. Nenhum sinal de vida humana, somente a escuridão a rondava. Que burra havia sido em acreditar que conseguiria chegar à chácara da amiga sem auxílio. Havia confiado demais nas explicações rápidas que Ofélia lhe fornecera por telefone, ou pior, certamente estava tão ansiosa para um fim de semana de descanso que sequer prestara atenção no que a moça havia dito. No fim das contas, estava perdida no meio do nada... ou melhor, no meio do mato, cercada de sons animalescos e sem nenhum resquício dessas tecnologias com as quais a humanidade estava tão habituada.
Totalmente sem experiência, abriu o capô do Gol, já com a certeza de que de nada iria adiantar. Melhor não perder a calma, disse a si mesma entre dentes. Olhou para o céu, as estrelas pareciam querer lhe transmitir uma serenidade. Ficou assim por alguns instantes, até que a luz natural da noite dilatou suas pupilas, fazendo com que, por milagre, enxergasse um caminho estreito à direita da estrada de terra. Mesmo sem uma placa para indicar qualquer sinal de propriedade particular, imaginou que talvez fosse o acesso à longínqua casinha que a amiga lhe indicara.
Enquanto seguia pelo carreiro, pensava nos infortúnios, alheia até aos galhos ressequidos a lhe ferir as pernas expostas pelo casual vestido de algodão. As palavras do editor responsável pelas suas publicações ressoavam na sua mente, como acusação: “Se você não me aparecer com uma história que realmente venda, pode dizer adeus à sua carreira de escritora!” Era uma tremenda injustiça, ela disse a si mesma pela milésima vez. Há mais de dez anos escrevia histórias que agradavam a todo tipo de público, desde o mais moço ao mais velho, e agora que passava por uma fase ruim em sua carreira, as portas queriam se fechar. Está certo que seus dois últimos livros pareciam servir de refeição para as traças nas livrarias, mas precisava de apoio e não de pressão. Por conselho da amiga Ofélia resolvera se refugiar em algum lugar tranqüilo, que lhe resgatasse a inspiração que a cidade grande parecia ter tragado.
__ Desse jeito vou acabar escrevendo um romance sobre um casal de porco espinho – disse em voz alta, assustando a si mesma.
O cansaço ia aumentado a casa passo, e vez por outra parava um pouco para aliviar a crescente dor nas pernas. Passava poucos minutos das oito da noite, mas a falta de iluminação artificial e o som pouco familiar da mata davam amostras de que era alta noite.
Após se levantar da última parada, quando já sentia vontade de chorar, avistou um ponto ao longe, iluminado por uma luz muito fraca. Enfim, a bendita cabana!
Um cachorro vira-lata veio recebê-la no terreiro e Glória estranhou. Ofélia dissera que a casa estava desabitada e que servia somente como lugar de descanso em feriados prolongados. E também ela não imaginava que fosse tão refugiada no meio do mato...
As fracas luzes dentro da propriedade só serviam para comprovar que errara de endereço, para o seu desespero. Justo agora que estava ansiosa por um banho e um belo prato de qualquer coisa que lhe forrasse o estômago vazio. Mas o medo do desconhecido a alertou de que era mais prudente dar meia volta e se esconder na maldita lata velha que havia lhe deixado na mão justamente quando mais precisava.
Entre um pensamento e outro, ouviu uma voz vinda de dentro da casinha:
__ Quem está aí?
Era voz de mulher.
Bem, quem sabe poderia pedir uma informação, uma ajuda, um telefone... Glória atravessou a varandinha cercada de plantas e bateu à porta.
__ Quem está aí? – a voz repetiu lá de dentro, parecendo mais assustada que ela. – Se não responder eu atiro!
Deus tenha misericórdia! Glória apavorou-se. Queria sair correndo, mas os pés pareciam ter sido atraídos pela força de um ímã.
__ Eu preciso de ajuda – conseguiu dizer claramente.
Segundos depois a porta se abriu, revelando uma figura dócil e frágil que nada oferecia de perigo.
__ Oh, minha querida, desculpe a minha falta de tato, mas é que uma velha sozinha precisa se defender – a mulher disse sorridente, fazendo sinal para que entrasse.
O ambiente era acolhedor e bem arrumado. Glória sentiu ali um cheiro de aconchego, mas também de solidão.
__ A senhora tem um telefone que possa me emprestar?
A mulher a olhou demoradamente, para depois sorrir e responder:
__ Sinto muito, minha menina, mas essas coisas não possuem mais nenhuma serventia pro tipo de vida que levo aqui.
__ Eu estava a caminho da chácara de uma amiga, de repente meu carro pifou e eu não tenho mais certeza nenhuma se estou no caminho certo – disse debilmente, mais desanimada do que quando chegara. O que uma frágil senhora à beira dos oitenta anos poderia fazer por ela?
__ Primeiro você se senta, depois podemos pensar no que fazer para resolver seu problema.
A maciez do rústico sofá pareceu abraçar seu corpo... estava tão cansada.
__ Eu sinto muito por incomodar, mas...
__ Faz mais de dois anos que não aparece ninguém nesse lugar, até o carteiro não tem mais motivos pra vir até aqui nesse fim de mundo... – a mulher queixou-se e Glória sentiu pena. Parecia uma alma tão bondosa.
A história de João e Maria veio à sua mente e, atordoada por um medo infantil desesperou-se diante da possibilidade de estar correndo perigo. Mas que pensamento mais tolo, recriminou-se. Arnaldo tinha razão quando a acusara de andar com a imaginação pobre para conseguir produzir uma história que realmente atraísse algum tipo de leitor.
__ Mas certamente você não está interessada nos queixumes de uma pobre velha que vive sozinha no meio do mato – a mulher completou com simpatia, sorrindo novamente.
__ Eu realmente sinto por incomodá-la, mas a senhora não saberia me informar se tem alguma outra chácara nessas redondezas? Talvez se eu andasse um pouco mais conseguiria chegar a tempo de tomar um banho...
__ Pobre criatura – a outra a olhou com pena. – Você certamente tomou o rumo contrário, não existe outra propriedade a quilômetros daqui. Até pra ir à cidade é difícil, eu só faço isso umas duas vezes por mês, quando realmente preciso de mantimentos pra casa.
__ Oh... – a voz morreu-lhe na garganta.
__ Mas se as instalações não lhe incomodarem, poderá passar a noite aqui. Isso se a mocinha não anda lendo muitas histórias de contos de fadas e possui a mente fértil a ponto de achar que sou uma bruxa disfarçada e vou prendê-la numa gaiola.
Glória permitiu-se sorrir. Gostara da mulher.
__ A senhora não imagina o bem que me fará se me permitir passar essa noite aqui... prometo que vou pagar pela hospedagem e...
__ Ah, esse povo da cidade grande – a outra brincou, fazendo um gesto de descaso.
__ Desculpe-me mesmo pelo transtorno, pois eu fico realmente preocupada em dar trabalho, sabe?
__ Venha comigo, vou lhe preparar um banho e depois uma sopa de galinha que vai lhe fazer recobrar as forças – a velha senhora ofereceu-se com carinho.
Como uma criatura tão dócil e acolhedora poderia viver assim, esquecida no meio do mato? Glória questionou-se, algum tempo depois, diante de um prato de sopa que exalava um cheio tão agradável que precisou se controlar para manter as boas maneiras.
__ Ainda não me disse seu nome – a mulher observou, notando o quanto ela estava calada.
Não foi necessário muito tempo para que as duas se entendessem e Glória sentia crescer dentro do peito um amor imenso por aquela criaturinha aparentemente frágil.
__ Faz quanto tempo que a senhora vive aqui sozinha? – perguntou a certa altura da conversa, quando já saboreavam um café fumegante na pequena sala iluminada pela rústica lareira.
__ Ah, minha menina... minha história é longa – a velha, que agora ela sabia se chamar Ana, desabafou em tom melancólico.
Uma história... era tudo que ela precisava!
__ Se a senhora não se incomodar de me contar, eu não estou com sono e já estou me sentindo muito bem após o delicioso banho que a senhora teve o cuidado de me oferecer – Glória ainda sentia os efeitos relaxantes da água aquecida no fogão à lenha, despejada cuidadosamente na velha banheira de louça.
__ Mas quem se interessaria pela vida de uma velha abandonada que tem como destino findar seus dias cercada de bichos?
__ Eu teria o maior prazer em ouvi-la, minha querida – a moça tomou-lhe as mãos alvas e desgastadas pela força do tempo.
Os olhinhos miúdos pareceram adquirir um brilho intenso e ela ajeitou o corpo miúdo e roliço no sofá xadrez.
__ Um dia eu fui assim jovem também, cheia de vida e de esperança... – começou. – Meu pai era um homem muito austero, criou a mim e às minhas irmãs com a força da palmatória. E cada uma de nós, acredite ou não, seguimos o destino que ele escolheu.
Aos poucos, as palavras relatavam um passado distante, e na mente de Glória as imagens adquiriam a complexidade de um romance que se desenrolara em meados do século passado.
__ Quando Ernesto apareceu na nossa casa pela primeira vez, a convite de papai, meu primeiro desejo foi de sair correndo. Eu tinha apenas dezesseis anos e não sabia explicar por que minhas pernas tremiam tanto quando eu o via. Numa noite, após jantar conosco, papai anunciou nosso noivado.
__ Noivado? Assim de repente? – Glória interrompeu, não conseguindo se conter.
A mulher sorriu, mas o olhar parecia perdido no espaço, como se enxergasse claramente o momento dos fatos que relatava.
__ Ele era um moço trabalhador e honesto, havia acabado de chegar à cidade e papai o recebera por indicação de um amigo. Só mais tarde é que fui entender que nosso casamento já havia sido programado quando ainda éramos crianças. Mas você deve estar perguntando: “E o amor, onde fica?”E eu hoje entendo que minhas pernas tremiam porque eu já amava Ernesto desde o primeiro instante...
Glória nada disse, esperando ansiosamente pela continuação da história.
__ Mas maior que os meus sentimentos era o medo, o medo do desconhecido... Ernesto me trouxe para este sítio alguns dias depois, quando o casamento se realizou. Em vão ele tentou fazer com que eu me adaptasse, mas eu só sabia chorar... meu marido, porém, era paciente e depois de alguns meses eu finalmente enxerguei a realidade e descobri que minha nova vida poderia ser boa ou ruim, dependia somente da forma como eu aceitasse os fatos. Veio nosso primeiro filho e, mesmo vivendo quase isolados aqui, éramos muito felizes. Depois de um tempo, ele começou a ficar estranho, calado. Nossos sentimentos pareciam ter esmorecido, eu me sentia doente, desanimada, sem vontade até de viver.
O que uma crise conjugal seguida de um quando de depressão sem acompanhamento poderia causar a uma vida, Glória conjeturava. Ana continuou:
__ Em poucos anos eu percebi que meu casamento não era mais nem a sombra do que um dia havia sido e me lembrei do que minha mãe dizia: “Casamento é como um jogo, você arrisca e não tem certeza se vai dar certo”. Outros filhos vieram e, quando alcançavam a maioridade, criavam asas e iam embora. No fim restamos nós e nossos conflitos.
__ Mas a senhora nunca procurou conversar, tentar entender o motivo da mudança de comportamento do seu marido? – a jovem escritora mais uma vez interrompeu, interessada nos detalhes.
__ Sim, claro... mas me arrependi amargamente. Se eu não tivesse insistido, talvez hoje eu ainda o teria comigo.
Glória a olhou interrogativamente e, só depois de alguns minutos, ela continuou:
__ Ernesto simplesmente disse que nosso casamento havia sido um erro e que não tinha mais necessidade de continuarmos vivendo juntos. Só hoje entendo que ele por vezes deve ter se queixado com terceiros e recebido conselhos errados, chegando a conclusões equivocadas. Até que finalmente deixou o sítio no meio da noite, montado em seu cavalo, e nunca mais voltou. Certamente não sentiu a necessidade de explicações, já não necessitávamos mais de dar justificativas às pessoas, meus pais já haviam partido e minhas irmãs seguiram o curso de suas vidas. Meus filhos tomaram também seus rumos, hoje as visitas são ainda mais escassas.
O coração de Glória se enterneceu. Pobre criatura!
Mais tarde, após se recolher num dos pequenos quartos da casa, acabou vencida pelo cansaço e teve um sonho muito estranho.
Passava das oito da manhã seguinte quando ouviu sons típicos do campo. O vira-lata latia embaixo da sua janela, as vacas mugiam num local próximo, o galo cantarolava com toda força e um agradável cheiro de café chegou até o quarto.
À luz do dia a força de Ana parecia mais vivaz, principalmente diante do velho fogão à lenha no preparo de algo que cheirava a milho verde e erva-doce.
__ Já tomei a liberdade de ir ao vizinho mais próximo e pedir que olhasse seu carro, que já está funcionando direitinho – ela anunciou alegre.
__ Céus, acabei dando um trabalhão à senhora, não é mesmo?
__ Foi muito bom ter você como hóspede, espero que acerte o caminho e volte mais vezes, se esta velha solitária ainda merece ser guardada na sua lembrança.
Meses depois, após sair do escritório de Arnaldo, Glória sorriu. A história de Ana lhe trouxera um novo rumo, um novo estímulo. As páginas do livro de capa branca com letras douradas estavam recheadas de emoção, de uma magia que somente ela fora capaz de enxergar nos olhos daquela bondosa mulher.
Guiada pelo coração, percorreu o mesmo caminho que havia feito às cegas naquela noite de inverno. À luz do dia notou que realmente fora o destino que a levara até ali, pois o local ficava em uma localização totalmente contrária à que a amiga havia lhe instruído. Estacionou o carro novo à beira do caminho estreito que lhe levaria à casa da mulher a quem desejava tanto rever e seguiu em frente, o coração acelerando a cada passo. Apertava o livro na mão suada, rememorando as poucas palavras da carinhosa dedicatória que fizera à amiga. Queria muito revê-la.
Para sua tristeza, porém, nada encontrara ao chegar na humilde cabana. As samambaias pareciam clamar por água e nada mais se ouvia além dos sons do vento nas árvores e o cantarolar dos pássaros. Nem mesmo o vira-lata estava por perto. Lágrimas rolaram-lhe pelas faces...
__ Por que demorei tanto? – perguntava-se. – Por que me deixei envolver assim tão profundamente com o trabalho e não a levei para perto de mim?
Cegada pelas lágrimas mornas e com o coração dolorido, Glória voltou ao seu luxuoso apartamento. Muita coisa de agora pra frente não possuía mais sentido. Na ânsia de terminar a história de Ana, deixara a realidade de lado. De que valera todo o seu empenho?
Ao entrar pelo saguão do prédio, porém, o porteiro se dirigiu a ela:
__ Dona Glória, tenho uma encomenda que chegou hoje de manhã. O mensageiro exigiu que lhe fosse entregue em mãos.
Já dentro do apartamento ela abriu o minúsculo pacote sem remetente e, a cada palavra que lia, as lágrimas rolavam com mais insistência que antes:
Querida Glória:
Naquela noite, quando bateu em minha porta a pedir ajuda, não imaginei que a ajudada seria eu mesma. Não soube explicar por que, mas assim que a vi algo me disse que você era um ser especial. A esta hora certamente você já deve ter ido à minha procura, e confesso que esperei pela sua volta por dias seguidos. Até senti tristeza, imaginando que certamente a existência de uma velha solitária não persistiria por muito tempo na sua lembrança. Decepcionada, voltei à minha rotina, esperando somente pelo fim.
Numa tarde, porém, minha vida já entregue à conformidade e ao sofrimento tomou um novo rumo. No mesmo cavalo em que partira, meu Ernesto voltou. Quase não acreditei nas minhas vistas cansadas. De bagagem ele só trazia um livro de capa branca escrito em letras douradas e graúdas: “A história de Ana”. Naquele momento eu soube que um anjo havia passado em minha vida.
Somente seus olhos foram capazes de enxergar o fundo da minha alma, dizendo ao meu marido através de uma linda história, o que eu não consegui dizer todos os anos em que vivemos juntos: que eu sempre o amei. Eu sempre o amei, mas nunca havia dito em palavras.
Hoje estamos juntos, em breve voltaremos pro nosso rancho, onde sei que ainda poderemos ter um novo começo, e nossos filhos finalmente sentirão o desejo de também retornarem para visitas mais constantes. Ou seja, seremos novamente uma família, graças a você, minha menina.
PS: Ernesto está ansioso para conhecê-la.
Abraços de sua amiga
Ana.
Que outra solução teria a não ser buscar socorro? Retirou o celular da bolsa e, num ato de fúria, atirou-o no chão... estava simplesmente sem sinal. Afinal, aquilo era um buraco negro? Ou estava próxima ao Triângulo das Bermudas? Certamente o destino resolvera brincar com ela, concluiu.
Saiu do veículo, temerosa de mais uma surpresa desagradável. Nenhum sinal de vida humana, somente a escuridão a rondava. Que burra havia sido em acreditar que conseguiria chegar à chácara da amiga sem auxílio. Havia confiado demais nas explicações rápidas que Ofélia lhe fornecera por telefone, ou pior, certamente estava tão ansiosa para um fim de semana de descanso que sequer prestara atenção no que a moça havia dito. No fim das contas, estava perdida no meio do nada... ou melhor, no meio do mato, cercada de sons animalescos e sem nenhum resquício dessas tecnologias com as quais a humanidade estava tão habituada.
Totalmente sem experiência, abriu o capô do Gol, já com a certeza de que de nada iria adiantar. Melhor não perder a calma, disse a si mesma entre dentes. Olhou para o céu, as estrelas pareciam querer lhe transmitir uma serenidade. Ficou assim por alguns instantes, até que a luz natural da noite dilatou suas pupilas, fazendo com que, por milagre, enxergasse um caminho estreito à direita da estrada de terra. Mesmo sem uma placa para indicar qualquer sinal de propriedade particular, imaginou que talvez fosse o acesso à longínqua casinha que a amiga lhe indicara.
Enquanto seguia pelo carreiro, pensava nos infortúnios, alheia até aos galhos ressequidos a lhe ferir as pernas expostas pelo casual vestido de algodão. As palavras do editor responsável pelas suas publicações ressoavam na sua mente, como acusação: “Se você não me aparecer com uma história que realmente venda, pode dizer adeus à sua carreira de escritora!” Era uma tremenda injustiça, ela disse a si mesma pela milésima vez. Há mais de dez anos escrevia histórias que agradavam a todo tipo de público, desde o mais moço ao mais velho, e agora que passava por uma fase ruim em sua carreira, as portas queriam se fechar. Está certo que seus dois últimos livros pareciam servir de refeição para as traças nas livrarias, mas precisava de apoio e não de pressão. Por conselho da amiga Ofélia resolvera se refugiar em algum lugar tranqüilo, que lhe resgatasse a inspiração que a cidade grande parecia ter tragado.
__ Desse jeito vou acabar escrevendo um romance sobre um casal de porco espinho – disse em voz alta, assustando a si mesma.
O cansaço ia aumentado a casa passo, e vez por outra parava um pouco para aliviar a crescente dor nas pernas. Passava poucos minutos das oito da noite, mas a falta de iluminação artificial e o som pouco familiar da mata davam amostras de que era alta noite.
Após se levantar da última parada, quando já sentia vontade de chorar, avistou um ponto ao longe, iluminado por uma luz muito fraca. Enfim, a bendita cabana!
Um cachorro vira-lata veio recebê-la no terreiro e Glória estranhou. Ofélia dissera que a casa estava desabitada e que servia somente como lugar de descanso em feriados prolongados. E também ela não imaginava que fosse tão refugiada no meio do mato...
As fracas luzes dentro da propriedade só serviam para comprovar que errara de endereço, para o seu desespero. Justo agora que estava ansiosa por um banho e um belo prato de qualquer coisa que lhe forrasse o estômago vazio. Mas o medo do desconhecido a alertou de que era mais prudente dar meia volta e se esconder na maldita lata velha que havia lhe deixado na mão justamente quando mais precisava.
Entre um pensamento e outro, ouviu uma voz vinda de dentro da casinha:
__ Quem está aí?
Era voz de mulher.
Bem, quem sabe poderia pedir uma informação, uma ajuda, um telefone... Glória atravessou a varandinha cercada de plantas e bateu à porta.
__ Quem está aí? – a voz repetiu lá de dentro, parecendo mais assustada que ela. – Se não responder eu atiro!
Deus tenha misericórdia! Glória apavorou-se. Queria sair correndo, mas os pés pareciam ter sido atraídos pela força de um ímã.
__ Eu preciso de ajuda – conseguiu dizer claramente.
Segundos depois a porta se abriu, revelando uma figura dócil e frágil que nada oferecia de perigo.
__ Oh, minha querida, desculpe a minha falta de tato, mas é que uma velha sozinha precisa se defender – a mulher disse sorridente, fazendo sinal para que entrasse.
O ambiente era acolhedor e bem arrumado. Glória sentiu ali um cheiro de aconchego, mas também de solidão.
__ A senhora tem um telefone que possa me emprestar?
A mulher a olhou demoradamente, para depois sorrir e responder:
__ Sinto muito, minha menina, mas essas coisas não possuem mais nenhuma serventia pro tipo de vida que levo aqui.
__ Eu estava a caminho da chácara de uma amiga, de repente meu carro pifou e eu não tenho mais certeza nenhuma se estou no caminho certo – disse debilmente, mais desanimada do que quando chegara. O que uma frágil senhora à beira dos oitenta anos poderia fazer por ela?
__ Primeiro você se senta, depois podemos pensar no que fazer para resolver seu problema.
A maciez do rústico sofá pareceu abraçar seu corpo... estava tão cansada.
__ Eu sinto muito por incomodar, mas...
__ Faz mais de dois anos que não aparece ninguém nesse lugar, até o carteiro não tem mais motivos pra vir até aqui nesse fim de mundo... – a mulher queixou-se e Glória sentiu pena. Parecia uma alma tão bondosa.
A história de João e Maria veio à sua mente e, atordoada por um medo infantil desesperou-se diante da possibilidade de estar correndo perigo. Mas que pensamento mais tolo, recriminou-se. Arnaldo tinha razão quando a acusara de andar com a imaginação pobre para conseguir produzir uma história que realmente atraísse algum tipo de leitor.
__ Mas certamente você não está interessada nos queixumes de uma pobre velha que vive sozinha no meio do mato – a mulher completou com simpatia, sorrindo novamente.
__ Eu realmente sinto por incomodá-la, mas a senhora não saberia me informar se tem alguma outra chácara nessas redondezas? Talvez se eu andasse um pouco mais conseguiria chegar a tempo de tomar um banho...
__ Pobre criatura – a outra a olhou com pena. – Você certamente tomou o rumo contrário, não existe outra propriedade a quilômetros daqui. Até pra ir à cidade é difícil, eu só faço isso umas duas vezes por mês, quando realmente preciso de mantimentos pra casa.
__ Oh... – a voz morreu-lhe na garganta.
__ Mas se as instalações não lhe incomodarem, poderá passar a noite aqui. Isso se a mocinha não anda lendo muitas histórias de contos de fadas e possui a mente fértil a ponto de achar que sou uma bruxa disfarçada e vou prendê-la numa gaiola.
Glória permitiu-se sorrir. Gostara da mulher.
__ A senhora não imagina o bem que me fará se me permitir passar essa noite aqui... prometo que vou pagar pela hospedagem e...
__ Ah, esse povo da cidade grande – a outra brincou, fazendo um gesto de descaso.
__ Desculpe-me mesmo pelo transtorno, pois eu fico realmente preocupada em dar trabalho, sabe?
__ Venha comigo, vou lhe preparar um banho e depois uma sopa de galinha que vai lhe fazer recobrar as forças – a velha senhora ofereceu-se com carinho.
Como uma criatura tão dócil e acolhedora poderia viver assim, esquecida no meio do mato? Glória questionou-se, algum tempo depois, diante de um prato de sopa que exalava um cheio tão agradável que precisou se controlar para manter as boas maneiras.
__ Ainda não me disse seu nome – a mulher observou, notando o quanto ela estava calada.
Não foi necessário muito tempo para que as duas se entendessem e Glória sentia crescer dentro do peito um amor imenso por aquela criaturinha aparentemente frágil.
__ Faz quanto tempo que a senhora vive aqui sozinha? – perguntou a certa altura da conversa, quando já saboreavam um café fumegante na pequena sala iluminada pela rústica lareira.
__ Ah, minha menina... minha história é longa – a velha, que agora ela sabia se chamar Ana, desabafou em tom melancólico.
Uma história... era tudo que ela precisava!
__ Se a senhora não se incomodar de me contar, eu não estou com sono e já estou me sentindo muito bem após o delicioso banho que a senhora teve o cuidado de me oferecer – Glória ainda sentia os efeitos relaxantes da água aquecida no fogão à lenha, despejada cuidadosamente na velha banheira de louça.
__ Mas quem se interessaria pela vida de uma velha abandonada que tem como destino findar seus dias cercada de bichos?
__ Eu teria o maior prazer em ouvi-la, minha querida – a moça tomou-lhe as mãos alvas e desgastadas pela força do tempo.
Os olhinhos miúdos pareceram adquirir um brilho intenso e ela ajeitou o corpo miúdo e roliço no sofá xadrez.
__ Um dia eu fui assim jovem também, cheia de vida e de esperança... – começou. – Meu pai era um homem muito austero, criou a mim e às minhas irmãs com a força da palmatória. E cada uma de nós, acredite ou não, seguimos o destino que ele escolheu.
Aos poucos, as palavras relatavam um passado distante, e na mente de Glória as imagens adquiriam a complexidade de um romance que se desenrolara em meados do século passado.
__ Quando Ernesto apareceu na nossa casa pela primeira vez, a convite de papai, meu primeiro desejo foi de sair correndo. Eu tinha apenas dezesseis anos e não sabia explicar por que minhas pernas tremiam tanto quando eu o via. Numa noite, após jantar conosco, papai anunciou nosso noivado.
__ Noivado? Assim de repente? – Glória interrompeu, não conseguindo se conter.
A mulher sorriu, mas o olhar parecia perdido no espaço, como se enxergasse claramente o momento dos fatos que relatava.
__ Ele era um moço trabalhador e honesto, havia acabado de chegar à cidade e papai o recebera por indicação de um amigo. Só mais tarde é que fui entender que nosso casamento já havia sido programado quando ainda éramos crianças. Mas você deve estar perguntando: “E o amor, onde fica?”E eu hoje entendo que minhas pernas tremiam porque eu já amava Ernesto desde o primeiro instante...
Glória nada disse, esperando ansiosamente pela continuação da história.
__ Mas maior que os meus sentimentos era o medo, o medo do desconhecido... Ernesto me trouxe para este sítio alguns dias depois, quando o casamento se realizou. Em vão ele tentou fazer com que eu me adaptasse, mas eu só sabia chorar... meu marido, porém, era paciente e depois de alguns meses eu finalmente enxerguei a realidade e descobri que minha nova vida poderia ser boa ou ruim, dependia somente da forma como eu aceitasse os fatos. Veio nosso primeiro filho e, mesmo vivendo quase isolados aqui, éramos muito felizes. Depois de um tempo, ele começou a ficar estranho, calado. Nossos sentimentos pareciam ter esmorecido, eu me sentia doente, desanimada, sem vontade até de viver.
O que uma crise conjugal seguida de um quando de depressão sem acompanhamento poderia causar a uma vida, Glória conjeturava. Ana continuou:
__ Em poucos anos eu percebi que meu casamento não era mais nem a sombra do que um dia havia sido e me lembrei do que minha mãe dizia: “Casamento é como um jogo, você arrisca e não tem certeza se vai dar certo”. Outros filhos vieram e, quando alcançavam a maioridade, criavam asas e iam embora. No fim restamos nós e nossos conflitos.
__ Mas a senhora nunca procurou conversar, tentar entender o motivo da mudança de comportamento do seu marido? – a jovem escritora mais uma vez interrompeu, interessada nos detalhes.
__ Sim, claro... mas me arrependi amargamente. Se eu não tivesse insistido, talvez hoje eu ainda o teria comigo.
Glória a olhou interrogativamente e, só depois de alguns minutos, ela continuou:
__ Ernesto simplesmente disse que nosso casamento havia sido um erro e que não tinha mais necessidade de continuarmos vivendo juntos. Só hoje entendo que ele por vezes deve ter se queixado com terceiros e recebido conselhos errados, chegando a conclusões equivocadas. Até que finalmente deixou o sítio no meio da noite, montado em seu cavalo, e nunca mais voltou. Certamente não sentiu a necessidade de explicações, já não necessitávamos mais de dar justificativas às pessoas, meus pais já haviam partido e minhas irmãs seguiram o curso de suas vidas. Meus filhos tomaram também seus rumos, hoje as visitas são ainda mais escassas.
O coração de Glória se enterneceu. Pobre criatura!
Mais tarde, após se recolher num dos pequenos quartos da casa, acabou vencida pelo cansaço e teve um sonho muito estranho.
Passava das oito da manhã seguinte quando ouviu sons típicos do campo. O vira-lata latia embaixo da sua janela, as vacas mugiam num local próximo, o galo cantarolava com toda força e um agradável cheiro de café chegou até o quarto.
À luz do dia a força de Ana parecia mais vivaz, principalmente diante do velho fogão à lenha no preparo de algo que cheirava a milho verde e erva-doce.
__ Já tomei a liberdade de ir ao vizinho mais próximo e pedir que olhasse seu carro, que já está funcionando direitinho – ela anunciou alegre.
__ Céus, acabei dando um trabalhão à senhora, não é mesmo?
__ Foi muito bom ter você como hóspede, espero que acerte o caminho e volte mais vezes, se esta velha solitária ainda merece ser guardada na sua lembrança.
Meses depois, após sair do escritório de Arnaldo, Glória sorriu. A história de Ana lhe trouxera um novo rumo, um novo estímulo. As páginas do livro de capa branca com letras douradas estavam recheadas de emoção, de uma magia que somente ela fora capaz de enxergar nos olhos daquela bondosa mulher.
Guiada pelo coração, percorreu o mesmo caminho que havia feito às cegas naquela noite de inverno. À luz do dia notou que realmente fora o destino que a levara até ali, pois o local ficava em uma localização totalmente contrária à que a amiga havia lhe instruído. Estacionou o carro novo à beira do caminho estreito que lhe levaria à casa da mulher a quem desejava tanto rever e seguiu em frente, o coração acelerando a cada passo. Apertava o livro na mão suada, rememorando as poucas palavras da carinhosa dedicatória que fizera à amiga. Queria muito revê-la.
Para sua tristeza, porém, nada encontrara ao chegar na humilde cabana. As samambaias pareciam clamar por água e nada mais se ouvia além dos sons do vento nas árvores e o cantarolar dos pássaros. Nem mesmo o vira-lata estava por perto. Lágrimas rolaram-lhe pelas faces...
__ Por que demorei tanto? – perguntava-se. – Por que me deixei envolver assim tão profundamente com o trabalho e não a levei para perto de mim?
Cegada pelas lágrimas mornas e com o coração dolorido, Glória voltou ao seu luxuoso apartamento. Muita coisa de agora pra frente não possuía mais sentido. Na ânsia de terminar a história de Ana, deixara a realidade de lado. De que valera todo o seu empenho?
Ao entrar pelo saguão do prédio, porém, o porteiro se dirigiu a ela:
__ Dona Glória, tenho uma encomenda que chegou hoje de manhã. O mensageiro exigiu que lhe fosse entregue em mãos.
Já dentro do apartamento ela abriu o minúsculo pacote sem remetente e, a cada palavra que lia, as lágrimas rolavam com mais insistência que antes:
Querida Glória:
Naquela noite, quando bateu em minha porta a pedir ajuda, não imaginei que a ajudada seria eu mesma. Não soube explicar por que, mas assim que a vi algo me disse que você era um ser especial. A esta hora certamente você já deve ter ido à minha procura, e confesso que esperei pela sua volta por dias seguidos. Até senti tristeza, imaginando que certamente a existência de uma velha solitária não persistiria por muito tempo na sua lembrança. Decepcionada, voltei à minha rotina, esperando somente pelo fim.
Numa tarde, porém, minha vida já entregue à conformidade e ao sofrimento tomou um novo rumo. No mesmo cavalo em que partira, meu Ernesto voltou. Quase não acreditei nas minhas vistas cansadas. De bagagem ele só trazia um livro de capa branca escrito em letras douradas e graúdas: “A história de Ana”. Naquele momento eu soube que um anjo havia passado em minha vida.
Somente seus olhos foram capazes de enxergar o fundo da minha alma, dizendo ao meu marido através de uma linda história, o que eu não consegui dizer todos os anos em que vivemos juntos: que eu sempre o amei. Eu sempre o amei, mas nunca havia dito em palavras.
Hoje estamos juntos, em breve voltaremos pro nosso rancho, onde sei que ainda poderemos ter um novo começo, e nossos filhos finalmente sentirão o desejo de também retornarem para visitas mais constantes. Ou seja, seremos novamente uma família, graças a você, minha menina.
PS: Ernesto está ansioso para conhecê-la.
Abraços de sua amiga
Ana.