
Ela tinha o pé esquerdo apoiado na altura do joelho direito e o quadril recostado na pia. Lágrimas ardentes e incontidas escorriam-lhe pelo rosto, causando-lhe um enorme esforço para tentar permanecer com os olhos abertos ao menos por um tempo mais prolongado. Droga, como era mesmo o truque que havia aprendido no programa de culinária, sobre como descascar cebolas sem afetar os olhos?
De onde estava podia ouvir o barulho da TV ligada na espaçosa e iluminada sala, onde Nicholas assistia às aventuras do Pica-Pau sem desviar os olhos do monitor. Ieda sorriu. O filho certamente herdara dela o gosto pelo desenho animado, tão antigo que fizera parte de sua própria infância. Conferiu as horas. O jantar ficaria pronto mais cedo do que imaginara.
O som do interfone interrompeu sua árdua tarefa, então secou os olhos rapidamente com um guardanapo de papel e se dirigiu à porta, após notar que o garoto já havia atendido o aparelho que ficava na copa.
__ Senhora Ieda Santana de Brito?
Um homem de terno escuro estava parado a poucos metros, com uma maleta na mão direita. Fazia tanto tempo que ouvira seu nome mencionado por inteiro que sentiu um leve tremor percorrer-lhe a espinha.
__ Em que posso ajudar? – respondeu com a voz levemente trêmula.
O homem avançou dois passos e estendeu-lhe a mão:
__ Sou advogado do seu marido e gostaria de conversar com a senhora por um instante.
Ieda sentiu as pernas bambearem e as vistas se escurecerem por uma fração de segundos, apoiando-se no batente para não cair. Olhou instintivamente para a sala onde Nicholas continuava em frente à TV, alheio à sua conversa.
__ O senhor não se incomodaria em conversarmos aqui fora? – ela pediu quase num fio de voz.
Estranhamente o homem pareceu compreender seu temor, anuindo com um gesto educado.
__ Eu sinto informá-la, senhora, mas faz seis meses que seu marido sofreu um acidente e veio a falecer, uma semana após a tragédia. Sou o responsável pelos negócios da família e estou aqui a pedido da senhorita Georgina de Pádua.
Ieda avançou mais alguns passos trôpegos, já quase sem forças. As mãos inescrupulosas de Edmundo a soergueram violentamente, jogando-a contra a parede. Por que ninguém aparecia? Por que o estacionamento estava vazio, mesmo sendo pouco mais de sete da noite? E onde diabos estaria o porteiro? Lágrimas grossas escorriam pelo seu rosto, lembrando que a maioria das famílias daquele condomínio, a esta hora, estavam reunidas no aconchego de suas salas, rodeadas de calor humano.
Lembrou-se da mãe. Ela certamente não sabia o inferno em que sua vida havia se transformado, desde que Edmundo demonstrara sua verdadeira identidade: um monstro.
__ Aprendeu como deve se comportar de agora pra frente? – a voz gélida e acusadora penetrava nos seus tímpanos causando arrepios na alma.
__ Eddie, eu não...
__ Não se faça de santa, Ieda, eu vi a forma como você olhou pro Gustavo mais cedo, quando estávamos conversando no portão da casa de mamãe! – o marido berrou.
Quando foi mesmo que Edmundo se mostrava violento pela primeira vez? Ieda não se lembrava mais, porém devia fazer um século. Olhou para os dedos trêmulos das mãos, dos quais um deles, o indicador esquerdo, estava fraturado desde a semana passada e ela não tivera coragem de procurar o hospital. Do nariz começava a jorrar um esguicho fino de sangue, mas nem assim Eddie se compadeceu. Ele nunca se compadecia.
Num lapso de selvagerismo, Ieda avançou sobre ele e o derrubou, correndo em direção ao portão em busca de liberdade. Mas sua atitude só servira para deixar a fera ainda mais zangada, pois mal havia atravessado a avenida quando ele a alcançou. Os gritos desesperados de sua luta pela sobrevivência atraíram a atenção de um transeunte, que veio ao seu socorro. Mas ele também não possuía forças suficientes para enfrentar o corpo musculoso e brutal de Eddie, que o jogou ao chão em questão de segundos.
Novamente sob o jugo do marido, Ieda retornava ao condomínio de luxo, sabendo que certamente aqueles seriam seus últimos minutos de vida. Aquele comportamento doentio havia se transformado numa ferida cancerígena, consumindo o pouco de sentimento que ainda lhe restava por ele. Parou de lutar, talvez a morte seria o melhor remédio. Momentaneamente conformado com sua passividade, Edmundo a guiou através do estacionamento ainda deserto, segurando-a violentamente pelos pulsos cruzados sobre as costas, demonstrando sua condição de prisioneira.
Ieda parou de chorar, assim como havia cessado de lutar. Abandonou o desejo de entender por que Eddie agia daquela maneira. Lembrou-se das diversas visitas ao psicólogo e em quanto aquilo prejudicara ainda mais o comportamento doentio do marido.
__ Não sou homem de viver sob conselhos de um doutorzinho metido a sabichão – ele dissera após a primeira e única ida ao Doutor Eduard.
O elevador alcançara o último andar do luxuoso prédio e Ieda se viu diante do momento decisivo de sua vida.
__ Agora você vai entrar e me preparar o jantar, pois hoje eu tive um dia infernal no trabalho e você conseguiu transformá-lo num verdadeiro caos – Eddie bradou, aliviando-lhe a pressão sobre os pulsos enquanto abria a porta. – E se me fizer perder a paciência de novo, não vou responder por meus atos, Ieda. Estou a um passo de acabar com sua vida, sabia?
Aterrorizada, Ieda olhou para dentro do apartamento. Edmundo entrara, esperando que ela fizesse o mesmo, mas algo lhe dizia que, se entrasse por aquela porta, não conseguiria mais sair. Lembrou-se instantaneamente do irmão.
__ Eu não posso arrastá-la de lá à força, mas me coloco ao seu dispor para quando tomar uma decisão. – Victor havia dito no último encontro.
Como em câmera lenta, ela viu o marido entrar em casa, começando a despir-se já na sala, enquanto ela continuava paralisada do lado de fora, diante da porta aberta. Eddie olhou para trás, enquanto se livrava da calça, indagando com desdém:
__ Vai ficar aí parada admirando o porte atlético do seu marido, benzinho? – E, diante do seu silêncio, determinou: – Entre e tranque essa maldita porta!
Monstro!
Confiante de que ela entraria em seguida, sem revidar, submissa feito um cordeiro (e essa foi a sua salvação), ele se dirigiu ao quarto decidido a tomar um banho enquanto Ieda, como sempre, lhe prepararia o jantar. E depois aprontaria a roupa que deveria usar no dia seguinte, no trabalho. E depois do jantar, quando fossem pra cama, Eddie viria cheio de mimos, com uma bolsa de gelo para aplacar-lhe os hematomas que se levantavam vergonhosamente sobre o rosto outrora tão lindo e jovial. E pediria perdão, e choraria até. E prometeria que jamais a machucaria novamente, e diria que a amava mais do que tudo na vida. Mas também a lembraria de que se tornara um homem violento por amá-la demais e por ter medo de perdê-la, e por se ver ameaçado diante de qualquer risco de perder ao menos o seu olhar e sua atenção. E então se irritaria novamente, e a acusaria de infidelidade. E a culparia, e o círculo se recomeçaria...
Sem pensar mais que uma vez, munindo-se de uma coragem que jamais imaginara ter, Ieda puxou a porta com força e trancou por fora, para depois jogar a chave por baixo, fazendo o objeto escorregar ruidosamente sobre o piso de granito. Saiu em disparada, pois com sorte encontraria o elevador ainda vazio.
Mas a porta do elevador mal acabara de se fechar quando ouviu os gritos ensurdecedores do marido, proferindo uma série de palavrões no corredor quando viu que ela o havia contrariado. Seu coração saltava descompassado dentro do peito, mas o medo servia como impulso para prosseguir. Mesmo que Eddie a seguisse, ainda teria tempo de alcançar socorro na rua. Atravessou a avenida ainda movimentada, sem coragem de olhar pra trás pra ver se ele a seguia. Em minutos alcançou um telefone público, onde topou com um homem que lhe ofereceu ajuda.
__ Eu preciso dar um telefonema urgente – ela explicava, tropeçando nas palavras.
Como se entendesse a situação de perigo, o homem postou-se um pouco à frente, camuflando seu pequeno corpo e, dessa forma, protegendo-a de um possível ataque. Talvez fosse um anjo, Ieda pensou.
__ Eu vou buscá-la, desde que aceite minhas condições – Victor dizia ao telefone. – Ieda, você precisa me prometer que, a partir do momento em que eu a colocar no meu carro e você virar as costas pro seu marido, vai fazer o que eu ordenar. E mesmo que sinta o desejo de retornar, eu não vou permitir. Está me entendendo?
Ieda concordava com tudo. Demorara tempo demais para aceitar o auxílio do irmão.
Em menos de vinte minutos Victor chegou, com suas duas crianças um tanto assustadas no banco traseiro do furgão. Viera diretamente da pequena fábrica que possuía.
Após se jogar nos braços protetores do irmão, Ieda explicou-lhe os últimos acontecimentos, enquanto ele se dirigia ao apartamento ao menos para buscar umas peças de roupas e seus documentos.
__ Vocês possuem arma em casa? – Victor quis saber.
__ Não.
__ Então você me espera aqui enquanto subo e busco as coisas mais necessárias – ele determinou.
__ Victor, cuidado – Ieda ainda pediu, num fio de voz.
O irmão olhou para trás, com o semblante cansado e disse:
__ Ele não é homem suficiente pra tentar fazer comigo o que vem fazendo com você há tempos.
Ieda agradeceu aos céus por ter um irmão tão comedido e calmo, incapaz de querer fazer justiça com as próprias mãos.
Enquanto esperava pelo retorno de Victor e ouvia as conversas animadas das duas crianças, alheias ao seu sofrimento, Ieda observou o prédio. Viu quando Eddie saiu na sacada, apoiando-se na amurada e observando a rua. Todos os sentimentos que um dia nutrira por ele faziam parte do passado. Parecia um estranho.
Victor estava de volta e ela não ousou perguntar o que houve lá dentro. Mas após se afastarem do local, acompanhando o trânsito fluente, ele explicou:
__ Eu simplesmente entrei e peguei suas coisas, e aquele canalha não foi homem de me dizer uma só palavra. Ele é um doente, Ieda!
O amparo que encontrou na casa de seu irmão era o que mais necessitava naquele instante. E quando o ouviu conversar com a irmã mais velha pelo telefone, explicando, entre lágrimas, que já conseguira resgatá-la com vida, Ieda chorou, emocionada por perceber que sua família estivera a postos o tempo todo, esperando somente uma iniciativa de sua parte para salvá-la do inferno em que se metera.
Mais tarde da noite Eddie ligou, como era de se esperar. Mas como havia determinado, Victor não permitiu que ele falasse com a esposa. Ieda pôde ouvi-lo, do quarto das crianças onde estava vendo TV:
__ Ainda que ela quisesse falar com você novamente, seu cafajeste, eu não permitiria. Saiba que de hoje em diante minha irmã está proibida de lhe dirigir a palavra, assim como não vou permitir que você se aproxime dela. Tente alguma coisa que você vai se arrepender amargamente por ter nascido, seu covarde desgraçado!
No dia seguinte, após uma longa noite de conversa com seu irmão e a esposa, e ciente de que estava diante de um recomeço, Ieda acompanhou Amanda, sua cunhada, até a casa dos pais dela. Era sábado e Victor trabalharia até por volta do meio dia, mas prometera retornar ao apartamento para pegar o restante de suas coisas.
__ Não vá se meter em briga – Amanda pedira, preocupada.
__ Eu quero somente a vida da Ieda de volta, e vou deixar bem claro a Edmundo que não vou permitir nenhuma tentativa de reaproximação.
Era início de noite quando decidiram retornar. Victor havia chegado à casa dos sogros já no meio da tarde. Ele e Ieda sentaram-se no portão enquanto conversavam demoradamente sobre os acontecimentos.
__ Você fica comigo por um tempo, depois a gente se ajeita – o irmão falou-lhe, cheio de zelo e proteção.
Explicara-lhe que o encontro com Edmundo, no início daquela tarde, havia sido muito estranho.
__ Ieda, se eu não tivesse visto as marcas da violência no seu corpo, diria que está mentindo – Victor estava totalmente intrigado. – Edmundo é um doente, agiu comigo como se fôssemos velhos amigos e em nenhum momento mencionou o que tem feito a você desde a primeira briga. Tratou-me com uma educação extrema e ainda teve a ousadia de me dizer que pretende vir vê-la amanhã.
Ieda tremeu ante tal possibilidade. Mas, para seu acalento, Victor continuou:
__ Eu propus um acordo a ele. Pedi que não mais se aproximasse de você que eu deixaria de lado o que lhe fez e não abriria um processo contra ele.
Mas toda a sua segurança minara quando voltavam para casa. Em meio à rua movimentada de fim de sábado, Edmundo ultrapassou-os no trânsito, de motocicleta, feito um louco, gritando seu nome e forçando Victor a encostar o carro. As crianças ficaram aterrorizadas, mas, para o alívio de Ieda, Victor se manteve firme, lutando de todas as formas para não perder o controle da direção. Como em uma cena de filme de suspense, ela o observava através do vidro. Até a escolha da camisa, uma azul que ela dizia que lhe ficava ótima todas as vezes que ele usava, era uma estratégia louca de atrair sua atenção. Só então ela se deu conta de como caía, todas as vezes, feito um patinho nas artimanhas diabólicas de Edmundo. E agora que ele sentia que estava perdendo o controle, apelava para seu sentimentalismo. Não funcionaria mais, prometeu-se, nunca mais.
A noite teve desfecho na delegacia, onde Victor a levara para fazer o BO e prestar queixa contra o cunhado. Foi humilhante para Ieda ouvir a policial atendente dizer ao seu irmão:
__ Se quer um conselho, deixe este caso de lado. Em 99% dos casos de queixa de agressão à mulher, os familiares sempre saem perdendo, pois elas voltam atrás e se reconciliam com seus companheiros.
__ Eu não vou deixar que isso aconteça – Victor fora categórico.
No retorno para casa, outro pesadelo. Bilhetes com ameaças foram jogados por debaixo da porta e Victor se viu na obrigação de tirar a irmã da cidade o mais rápido possível.
__ Amanhã bem cedo você irá pra São Paulo, tenho um amigo em quem confio e que pode lhe proporcionar a oportunidade de recomeçar sua vida. E de qualquer forma estarei aqui, pronto pra te socorrer.
Onze anos se passaram e Victor mantivera a promessa. Edmundo jamais tivera acesso ao seu paradeiro e, não sem dificuldades, Ieda se viu restaurando sua vida com o auxílio da família e das pessoas com quem fizera amizade.
Ieda estacionou o Outlander preto sob a sombra do pé de acácia. Abaixou o vidro, conferiu o endereço rabiscado num papel com a letra mal feita do advogado. Era ali.
Alisou o vestido de seda com esmero, respirou fundo e se dirigiu à imponente casa. Uma mocinha uniformizada atendeu-a, acompanhando-a até uma espaçosa e bem decorada sala de estar, de onde se podia admirar a paisagem maravilhosa que se descortinava em volta da propriedade.
Alguns minutos se passaram até que ela aparecera. Era jovem, bonita, mas com um semblante melancólico. Ieda se levantou, as dúvidas fervilhando em sua mente.
__ Georgina de Pádua? – indagou, estendendo-lhe a mão.
A pele suave e frágil era fria e Ieda estremeceu só de pensar no que Edmundo poderia ter feito à moça.
__ Você é tão bonita como nas fotografias – ela comentou com a voz firme contrastando com a aparência frágil, analisando-a da cabeça aos pés e fazendo sinal para que se sentasse.
__ Eu sinto muito pelo que aconteceu ao Eddie – respondeu com sinceridade.
Georgina emitiu uma gargalhada irônica, para depois dizer:
__ Realmente estou surpresa por ter se deslocado até aqui pra me transmitir seus pesares.
__ E eu realmente não me desloquei até aqui para lhe transmitir meus pesares – Ieda revidou com firmeza.
__ Posso ver em seus olhos que está se corroendo em piedade pela minha pessoa, Ieda Brito – a outra demonstrava uma maturidade muito além da idade que aparentava ter.
__ Ieda Santana – ela corrigiu, pois há onze anos se negava a usar o sobrenome de Edmundo, mesmo sem ter se divorciado.
Georgina se levantou com elegância e se dirigiu até a ampla vidraça que expunha toda a beleza dos arredores da casa.
__ Muito nobre da sua parte se preocupar comigo, Ieda, vejo isso em seus olhos. Mas se isso te consola, Eddie nunca me causou nenhum dano... físico – disse enquanto permanecia de costas para ela, com o olhar perdido lá fora.
Ieda respirou aliviada, apesar da tristeza de concluir que os “tratos” de Edmundo haviam sido exclusividade sua.
__ Georgina, eu realmente sinto muito pela morre de Eddie, mas fico muito tranquila em constatar que ele conseguiu se restabelecer – Ieda se levantou, determinada a fazer o que realmente tinha planejado, quando decidiu conhecer a mulher com quem Eddie havia passado seus últimos anos de vida.
Georgina permaneceu de costas, o olhar ainda perdido na paisagem.
__ Eu decidi procurar você porque não quero aceitar o dinheiro – disse, por fim.
Georgina então e virou lentamente.
__ Era o que ele queria – respondeu.
__ Nada do que pertenceu ao Eddie me diz respeito. No momento em que o abandonei, abri mão de tudo e não quero na minha vida sequer as sombras do passado.
__ Então por que não abriu mão do Nicholas? – a outra desferiu com firmeza, sem qualquer tom de acusação, porém.
Ieda sentiu as pernas fraquejarem e um aperto do coração. Sentou-se novamente no assento de couro, levando inconscientemente a mão ao peito como que para aplacar as batidas descompassadas do coração.
__ Como soube...?
__ Eu conheci o Eddie seis meses depois da sua partida – ela começou, serena. – Estava um trapo. Apaixonei-me incondicionalmente, e com o tempo ainda mais, mesmo sabendo que ele jamais poderia me oferecer o amor que sentia por você. Nossa casa era um verdadeiro santuário à sua memória, onde quer que eu fosse, sua imagem estava estampada a me observar. E quando Eddie me tocava, era o seu nome que ele murmurava.
__ Eddie era doente, Georgina – Ieda conseguiu dizer, triste por constatar como o marido havia sugado a vida daquela jovem.
__ Não sinta pena, Ieda – a mulher desafiou-a com o olhar, como se lesse seus pensamentos. – Aceitar que Edmundo transferisse todo o amor que sentia pela sua alma para o meu corpo foi escolha minha e eu fui feliz.
Georgina era uma louca, Ieda concluiu. Precisava ir embora dali. Levantou-se, recuperando-se do susto, e entregou o cheque que o advogado havia lhe dado no dia anterior:
__ Eu agradeço o fato de você ter se ocupado esses últimos meses em me encontrar e mais ainda por manter discrição diante da descoberta do meu filho, mas não faz parte dos meus planos aceitar nada que pertenceu ao Eddie.
__ Aceite como forma de agradecimento da minha parte, como um pagamento pelo bem que me proporcionou ao permitir que Eddie a amasse através de mim – ela suplicou, mudando imediatamente o semblante firme por uma expressão quase infantil.
Ieda recolheu o cheque lentamente, incapaz de lidar com o alheamento de Georgina. Em resposta, recebeu um abraço fraternal e um sorriso.
Já na rua, lutou para se livrar dos sentimentos e das lembranças, assim como desistiu de fazer conjeturas sobre o que havia lhe acontecido. Entrou no carro e ficou dando votas pelas redondezas, como que à procura de uma solução. Uma placa de madeira, porém, logo no final de uma ruazinha sem saída, acendeu-lhe uma idéia. Estacionou, desceu do carro e se dirigiu rapidamente à recepção.
Mais tarde, após acompanhar Nicholas até a cama e conversarem sobre o seu dia na escola, como sempre faziam, Ieda se dirigiu à varanda. Observava o céu e uma paz invadiu-lhe o coração. Pela primeira vez sentiu que podia finalmente descansar.
Odete olhou para o cheque em suas mãos trêmulas pela milésima vez, quase sem acreditar. Ainda mantinha na lembrança a imagem elegante e forte da mulher que o entregara, sem nenhuma explicação, naquela tarde. Subiu a escadaria de madeira que rangia sob seus pés. Em breve poderia fazer a reforma, pensou, graças à doação daquela estranha.
Visitou todos os quartos do velho casarão, conversando carinhosamente com todas as suas hóspedes, uma rotina de todo fim de noite. Por último entreabriu lentamente a porta do quarto de Sofia, encontrando-a recostada na cabeceira da velha cama, enquanto amamentava a pequena Charlote. A tala no braço direito certamente ainda lhe era um grande incômodo, assim como as marcas de queimadura nos ombros e nas costas. Uma lágrima rolou pela face desgastada pelo tempo. Podia dormir em paz, pois estava garantido às meninas refugiadas um longo período de amparo, graças à boa alma que lhe visitara naquela tarde.
Este conto é dedicado a todas as mulheres que de uma forma ou de outra, por amor ou por ódio, foram submetidas à crueldade e à covardia de seus companheiros.
De onde estava podia ouvir o barulho da TV ligada na espaçosa e iluminada sala, onde Nicholas assistia às aventuras do Pica-Pau sem desviar os olhos do monitor. Ieda sorriu. O filho certamente herdara dela o gosto pelo desenho animado, tão antigo que fizera parte de sua própria infância. Conferiu as horas. O jantar ficaria pronto mais cedo do que imaginara.
O som do interfone interrompeu sua árdua tarefa, então secou os olhos rapidamente com um guardanapo de papel e se dirigiu à porta, após notar que o garoto já havia atendido o aparelho que ficava na copa.
__ Senhora Ieda Santana de Brito?
Um homem de terno escuro estava parado a poucos metros, com uma maleta na mão direita. Fazia tanto tempo que ouvira seu nome mencionado por inteiro que sentiu um leve tremor percorrer-lhe a espinha.
__ Em que posso ajudar? – respondeu com a voz levemente trêmula.
O homem avançou dois passos e estendeu-lhe a mão:
__ Sou advogado do seu marido e gostaria de conversar com a senhora por um instante.
Ieda sentiu as pernas bambearem e as vistas se escurecerem por uma fração de segundos, apoiando-se no batente para não cair. Olhou instintivamente para a sala onde Nicholas continuava em frente à TV, alheio à sua conversa.
__ O senhor não se incomodaria em conversarmos aqui fora? – ela pediu quase num fio de voz.
Estranhamente o homem pareceu compreender seu temor, anuindo com um gesto educado.
__ Eu sinto informá-la, senhora, mas faz seis meses que seu marido sofreu um acidente e veio a falecer, uma semana após a tragédia. Sou o responsável pelos negócios da família e estou aqui a pedido da senhorita Georgina de Pádua.
Ieda avançou mais alguns passos trôpegos, já quase sem forças. As mãos inescrupulosas de Edmundo a soergueram violentamente, jogando-a contra a parede. Por que ninguém aparecia? Por que o estacionamento estava vazio, mesmo sendo pouco mais de sete da noite? E onde diabos estaria o porteiro? Lágrimas grossas escorriam pelo seu rosto, lembrando que a maioria das famílias daquele condomínio, a esta hora, estavam reunidas no aconchego de suas salas, rodeadas de calor humano.
Lembrou-se da mãe. Ela certamente não sabia o inferno em que sua vida havia se transformado, desde que Edmundo demonstrara sua verdadeira identidade: um monstro.
__ Aprendeu como deve se comportar de agora pra frente? – a voz gélida e acusadora penetrava nos seus tímpanos causando arrepios na alma.
__ Eddie, eu não...
__ Não se faça de santa, Ieda, eu vi a forma como você olhou pro Gustavo mais cedo, quando estávamos conversando no portão da casa de mamãe! – o marido berrou.
Quando foi mesmo que Edmundo se mostrava violento pela primeira vez? Ieda não se lembrava mais, porém devia fazer um século. Olhou para os dedos trêmulos das mãos, dos quais um deles, o indicador esquerdo, estava fraturado desde a semana passada e ela não tivera coragem de procurar o hospital. Do nariz começava a jorrar um esguicho fino de sangue, mas nem assim Eddie se compadeceu. Ele nunca se compadecia.
Num lapso de selvagerismo, Ieda avançou sobre ele e o derrubou, correndo em direção ao portão em busca de liberdade. Mas sua atitude só servira para deixar a fera ainda mais zangada, pois mal havia atravessado a avenida quando ele a alcançou. Os gritos desesperados de sua luta pela sobrevivência atraíram a atenção de um transeunte, que veio ao seu socorro. Mas ele também não possuía forças suficientes para enfrentar o corpo musculoso e brutal de Eddie, que o jogou ao chão em questão de segundos.
Novamente sob o jugo do marido, Ieda retornava ao condomínio de luxo, sabendo que certamente aqueles seriam seus últimos minutos de vida. Aquele comportamento doentio havia se transformado numa ferida cancerígena, consumindo o pouco de sentimento que ainda lhe restava por ele. Parou de lutar, talvez a morte seria o melhor remédio. Momentaneamente conformado com sua passividade, Edmundo a guiou através do estacionamento ainda deserto, segurando-a violentamente pelos pulsos cruzados sobre as costas, demonstrando sua condição de prisioneira.
Ieda parou de chorar, assim como havia cessado de lutar. Abandonou o desejo de entender por que Eddie agia daquela maneira. Lembrou-se das diversas visitas ao psicólogo e em quanto aquilo prejudicara ainda mais o comportamento doentio do marido.
__ Não sou homem de viver sob conselhos de um doutorzinho metido a sabichão – ele dissera após a primeira e única ida ao Doutor Eduard.
O elevador alcançara o último andar do luxuoso prédio e Ieda se viu diante do momento decisivo de sua vida.
__ Agora você vai entrar e me preparar o jantar, pois hoje eu tive um dia infernal no trabalho e você conseguiu transformá-lo num verdadeiro caos – Eddie bradou, aliviando-lhe a pressão sobre os pulsos enquanto abria a porta. – E se me fizer perder a paciência de novo, não vou responder por meus atos, Ieda. Estou a um passo de acabar com sua vida, sabia?
Aterrorizada, Ieda olhou para dentro do apartamento. Edmundo entrara, esperando que ela fizesse o mesmo, mas algo lhe dizia que, se entrasse por aquela porta, não conseguiria mais sair. Lembrou-se instantaneamente do irmão.
__ Eu não posso arrastá-la de lá à força, mas me coloco ao seu dispor para quando tomar uma decisão. – Victor havia dito no último encontro.
Como em câmera lenta, ela viu o marido entrar em casa, começando a despir-se já na sala, enquanto ela continuava paralisada do lado de fora, diante da porta aberta. Eddie olhou para trás, enquanto se livrava da calça, indagando com desdém:
__ Vai ficar aí parada admirando o porte atlético do seu marido, benzinho? – E, diante do seu silêncio, determinou: – Entre e tranque essa maldita porta!
Monstro!
Confiante de que ela entraria em seguida, sem revidar, submissa feito um cordeiro (e essa foi a sua salvação), ele se dirigiu ao quarto decidido a tomar um banho enquanto Ieda, como sempre, lhe prepararia o jantar. E depois aprontaria a roupa que deveria usar no dia seguinte, no trabalho. E depois do jantar, quando fossem pra cama, Eddie viria cheio de mimos, com uma bolsa de gelo para aplacar-lhe os hematomas que se levantavam vergonhosamente sobre o rosto outrora tão lindo e jovial. E pediria perdão, e choraria até. E prometeria que jamais a machucaria novamente, e diria que a amava mais do que tudo na vida. Mas também a lembraria de que se tornara um homem violento por amá-la demais e por ter medo de perdê-la, e por se ver ameaçado diante de qualquer risco de perder ao menos o seu olhar e sua atenção. E então se irritaria novamente, e a acusaria de infidelidade. E a culparia, e o círculo se recomeçaria...
Sem pensar mais que uma vez, munindo-se de uma coragem que jamais imaginara ter, Ieda puxou a porta com força e trancou por fora, para depois jogar a chave por baixo, fazendo o objeto escorregar ruidosamente sobre o piso de granito. Saiu em disparada, pois com sorte encontraria o elevador ainda vazio.
Mas a porta do elevador mal acabara de se fechar quando ouviu os gritos ensurdecedores do marido, proferindo uma série de palavrões no corredor quando viu que ela o havia contrariado. Seu coração saltava descompassado dentro do peito, mas o medo servia como impulso para prosseguir. Mesmo que Eddie a seguisse, ainda teria tempo de alcançar socorro na rua. Atravessou a avenida ainda movimentada, sem coragem de olhar pra trás pra ver se ele a seguia. Em minutos alcançou um telefone público, onde topou com um homem que lhe ofereceu ajuda.
__ Eu preciso dar um telefonema urgente – ela explicava, tropeçando nas palavras.
Como se entendesse a situação de perigo, o homem postou-se um pouco à frente, camuflando seu pequeno corpo e, dessa forma, protegendo-a de um possível ataque. Talvez fosse um anjo, Ieda pensou.
__ Eu vou buscá-la, desde que aceite minhas condições – Victor dizia ao telefone. – Ieda, você precisa me prometer que, a partir do momento em que eu a colocar no meu carro e você virar as costas pro seu marido, vai fazer o que eu ordenar. E mesmo que sinta o desejo de retornar, eu não vou permitir. Está me entendendo?
Ieda concordava com tudo. Demorara tempo demais para aceitar o auxílio do irmão.
Em menos de vinte minutos Victor chegou, com suas duas crianças um tanto assustadas no banco traseiro do furgão. Viera diretamente da pequena fábrica que possuía.
Após se jogar nos braços protetores do irmão, Ieda explicou-lhe os últimos acontecimentos, enquanto ele se dirigia ao apartamento ao menos para buscar umas peças de roupas e seus documentos.
__ Vocês possuem arma em casa? – Victor quis saber.
__ Não.
__ Então você me espera aqui enquanto subo e busco as coisas mais necessárias – ele determinou.
__ Victor, cuidado – Ieda ainda pediu, num fio de voz.
O irmão olhou para trás, com o semblante cansado e disse:
__ Ele não é homem suficiente pra tentar fazer comigo o que vem fazendo com você há tempos.
Ieda agradeceu aos céus por ter um irmão tão comedido e calmo, incapaz de querer fazer justiça com as próprias mãos.
Enquanto esperava pelo retorno de Victor e ouvia as conversas animadas das duas crianças, alheias ao seu sofrimento, Ieda observou o prédio. Viu quando Eddie saiu na sacada, apoiando-se na amurada e observando a rua. Todos os sentimentos que um dia nutrira por ele faziam parte do passado. Parecia um estranho.
Victor estava de volta e ela não ousou perguntar o que houve lá dentro. Mas após se afastarem do local, acompanhando o trânsito fluente, ele explicou:
__ Eu simplesmente entrei e peguei suas coisas, e aquele canalha não foi homem de me dizer uma só palavra. Ele é um doente, Ieda!
O amparo que encontrou na casa de seu irmão era o que mais necessitava naquele instante. E quando o ouviu conversar com a irmã mais velha pelo telefone, explicando, entre lágrimas, que já conseguira resgatá-la com vida, Ieda chorou, emocionada por perceber que sua família estivera a postos o tempo todo, esperando somente uma iniciativa de sua parte para salvá-la do inferno em que se metera.
Mais tarde da noite Eddie ligou, como era de se esperar. Mas como havia determinado, Victor não permitiu que ele falasse com a esposa. Ieda pôde ouvi-lo, do quarto das crianças onde estava vendo TV:
__ Ainda que ela quisesse falar com você novamente, seu cafajeste, eu não permitiria. Saiba que de hoje em diante minha irmã está proibida de lhe dirigir a palavra, assim como não vou permitir que você se aproxime dela. Tente alguma coisa que você vai se arrepender amargamente por ter nascido, seu covarde desgraçado!
No dia seguinte, após uma longa noite de conversa com seu irmão e a esposa, e ciente de que estava diante de um recomeço, Ieda acompanhou Amanda, sua cunhada, até a casa dos pais dela. Era sábado e Victor trabalharia até por volta do meio dia, mas prometera retornar ao apartamento para pegar o restante de suas coisas.
__ Não vá se meter em briga – Amanda pedira, preocupada.
__ Eu quero somente a vida da Ieda de volta, e vou deixar bem claro a Edmundo que não vou permitir nenhuma tentativa de reaproximação.
Era início de noite quando decidiram retornar. Victor havia chegado à casa dos sogros já no meio da tarde. Ele e Ieda sentaram-se no portão enquanto conversavam demoradamente sobre os acontecimentos.
__ Você fica comigo por um tempo, depois a gente se ajeita – o irmão falou-lhe, cheio de zelo e proteção.
Explicara-lhe que o encontro com Edmundo, no início daquela tarde, havia sido muito estranho.
__ Ieda, se eu não tivesse visto as marcas da violência no seu corpo, diria que está mentindo – Victor estava totalmente intrigado. – Edmundo é um doente, agiu comigo como se fôssemos velhos amigos e em nenhum momento mencionou o que tem feito a você desde a primeira briga. Tratou-me com uma educação extrema e ainda teve a ousadia de me dizer que pretende vir vê-la amanhã.
Ieda tremeu ante tal possibilidade. Mas, para seu acalento, Victor continuou:
__ Eu propus um acordo a ele. Pedi que não mais se aproximasse de você que eu deixaria de lado o que lhe fez e não abriria um processo contra ele.
Mas toda a sua segurança minara quando voltavam para casa. Em meio à rua movimentada de fim de sábado, Edmundo ultrapassou-os no trânsito, de motocicleta, feito um louco, gritando seu nome e forçando Victor a encostar o carro. As crianças ficaram aterrorizadas, mas, para o alívio de Ieda, Victor se manteve firme, lutando de todas as formas para não perder o controle da direção. Como em uma cena de filme de suspense, ela o observava através do vidro. Até a escolha da camisa, uma azul que ela dizia que lhe ficava ótima todas as vezes que ele usava, era uma estratégia louca de atrair sua atenção. Só então ela se deu conta de como caía, todas as vezes, feito um patinho nas artimanhas diabólicas de Edmundo. E agora que ele sentia que estava perdendo o controle, apelava para seu sentimentalismo. Não funcionaria mais, prometeu-se, nunca mais.
A noite teve desfecho na delegacia, onde Victor a levara para fazer o BO e prestar queixa contra o cunhado. Foi humilhante para Ieda ouvir a policial atendente dizer ao seu irmão:
__ Se quer um conselho, deixe este caso de lado. Em 99% dos casos de queixa de agressão à mulher, os familiares sempre saem perdendo, pois elas voltam atrás e se reconciliam com seus companheiros.
__ Eu não vou deixar que isso aconteça – Victor fora categórico.
No retorno para casa, outro pesadelo. Bilhetes com ameaças foram jogados por debaixo da porta e Victor se viu na obrigação de tirar a irmã da cidade o mais rápido possível.
__ Amanhã bem cedo você irá pra São Paulo, tenho um amigo em quem confio e que pode lhe proporcionar a oportunidade de recomeçar sua vida. E de qualquer forma estarei aqui, pronto pra te socorrer.
Onze anos se passaram e Victor mantivera a promessa. Edmundo jamais tivera acesso ao seu paradeiro e, não sem dificuldades, Ieda se viu restaurando sua vida com o auxílio da família e das pessoas com quem fizera amizade.
Ieda estacionou o Outlander preto sob a sombra do pé de acácia. Abaixou o vidro, conferiu o endereço rabiscado num papel com a letra mal feita do advogado. Era ali.
Alisou o vestido de seda com esmero, respirou fundo e se dirigiu à imponente casa. Uma mocinha uniformizada atendeu-a, acompanhando-a até uma espaçosa e bem decorada sala de estar, de onde se podia admirar a paisagem maravilhosa que se descortinava em volta da propriedade.
Alguns minutos se passaram até que ela aparecera. Era jovem, bonita, mas com um semblante melancólico. Ieda se levantou, as dúvidas fervilhando em sua mente.
__ Georgina de Pádua? – indagou, estendendo-lhe a mão.
A pele suave e frágil era fria e Ieda estremeceu só de pensar no que Edmundo poderia ter feito à moça.
__ Você é tão bonita como nas fotografias – ela comentou com a voz firme contrastando com a aparência frágil, analisando-a da cabeça aos pés e fazendo sinal para que se sentasse.
__ Eu sinto muito pelo que aconteceu ao Eddie – respondeu com sinceridade.
Georgina emitiu uma gargalhada irônica, para depois dizer:
__ Realmente estou surpresa por ter se deslocado até aqui pra me transmitir seus pesares.
__ E eu realmente não me desloquei até aqui para lhe transmitir meus pesares – Ieda revidou com firmeza.
__ Posso ver em seus olhos que está se corroendo em piedade pela minha pessoa, Ieda Brito – a outra demonstrava uma maturidade muito além da idade que aparentava ter.
__ Ieda Santana – ela corrigiu, pois há onze anos se negava a usar o sobrenome de Edmundo, mesmo sem ter se divorciado.
Georgina se levantou com elegância e se dirigiu até a ampla vidraça que expunha toda a beleza dos arredores da casa.
__ Muito nobre da sua parte se preocupar comigo, Ieda, vejo isso em seus olhos. Mas se isso te consola, Eddie nunca me causou nenhum dano... físico – disse enquanto permanecia de costas para ela, com o olhar perdido lá fora.
Ieda respirou aliviada, apesar da tristeza de concluir que os “tratos” de Edmundo haviam sido exclusividade sua.
__ Georgina, eu realmente sinto muito pela morre de Eddie, mas fico muito tranquila em constatar que ele conseguiu se restabelecer – Ieda se levantou, determinada a fazer o que realmente tinha planejado, quando decidiu conhecer a mulher com quem Eddie havia passado seus últimos anos de vida.
Georgina permaneceu de costas, o olhar ainda perdido na paisagem.
__ Eu decidi procurar você porque não quero aceitar o dinheiro – disse, por fim.
Georgina então e virou lentamente.
__ Era o que ele queria – respondeu.
__ Nada do que pertenceu ao Eddie me diz respeito. No momento em que o abandonei, abri mão de tudo e não quero na minha vida sequer as sombras do passado.
__ Então por que não abriu mão do Nicholas? – a outra desferiu com firmeza, sem qualquer tom de acusação, porém.
Ieda sentiu as pernas fraquejarem e um aperto do coração. Sentou-se novamente no assento de couro, levando inconscientemente a mão ao peito como que para aplacar as batidas descompassadas do coração.
__ Como soube...?
__ Eu conheci o Eddie seis meses depois da sua partida – ela começou, serena. – Estava um trapo. Apaixonei-me incondicionalmente, e com o tempo ainda mais, mesmo sabendo que ele jamais poderia me oferecer o amor que sentia por você. Nossa casa era um verdadeiro santuário à sua memória, onde quer que eu fosse, sua imagem estava estampada a me observar. E quando Eddie me tocava, era o seu nome que ele murmurava.
__ Eddie era doente, Georgina – Ieda conseguiu dizer, triste por constatar como o marido havia sugado a vida daquela jovem.
__ Não sinta pena, Ieda – a mulher desafiou-a com o olhar, como se lesse seus pensamentos. – Aceitar que Edmundo transferisse todo o amor que sentia pela sua alma para o meu corpo foi escolha minha e eu fui feliz.
Georgina era uma louca, Ieda concluiu. Precisava ir embora dali. Levantou-se, recuperando-se do susto, e entregou o cheque que o advogado havia lhe dado no dia anterior:
__ Eu agradeço o fato de você ter se ocupado esses últimos meses em me encontrar e mais ainda por manter discrição diante da descoberta do meu filho, mas não faz parte dos meus planos aceitar nada que pertenceu ao Eddie.
__ Aceite como forma de agradecimento da minha parte, como um pagamento pelo bem que me proporcionou ao permitir que Eddie a amasse através de mim – ela suplicou, mudando imediatamente o semblante firme por uma expressão quase infantil.
Ieda recolheu o cheque lentamente, incapaz de lidar com o alheamento de Georgina. Em resposta, recebeu um abraço fraternal e um sorriso.
Já na rua, lutou para se livrar dos sentimentos e das lembranças, assim como desistiu de fazer conjeturas sobre o que havia lhe acontecido. Entrou no carro e ficou dando votas pelas redondezas, como que à procura de uma solução. Uma placa de madeira, porém, logo no final de uma ruazinha sem saída, acendeu-lhe uma idéia. Estacionou, desceu do carro e se dirigiu rapidamente à recepção.
Mais tarde, após acompanhar Nicholas até a cama e conversarem sobre o seu dia na escola, como sempre faziam, Ieda se dirigiu à varanda. Observava o céu e uma paz invadiu-lhe o coração. Pela primeira vez sentiu que podia finalmente descansar.
Odete olhou para o cheque em suas mãos trêmulas pela milésima vez, quase sem acreditar. Ainda mantinha na lembrança a imagem elegante e forte da mulher que o entregara, sem nenhuma explicação, naquela tarde. Subiu a escadaria de madeira que rangia sob seus pés. Em breve poderia fazer a reforma, pensou, graças à doação daquela estranha.
Visitou todos os quartos do velho casarão, conversando carinhosamente com todas as suas hóspedes, uma rotina de todo fim de noite. Por último entreabriu lentamente a porta do quarto de Sofia, encontrando-a recostada na cabeceira da velha cama, enquanto amamentava a pequena Charlote. A tala no braço direito certamente ainda lhe era um grande incômodo, assim como as marcas de queimadura nos ombros e nas costas. Uma lágrima rolou pela face desgastada pelo tempo. Podia dormir em paz, pois estava garantido às meninas refugiadas um longo período de amparo, graças à boa alma que lhe visitara naquela tarde.
Este conto é dedicado a todas as mulheres que de uma forma ou de outra, por amor ou por ódio, foram submetidas à crueldade e à covardia de seus companheiros.