quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Surpresas do Destino



Era a quinta vez naquela semana que Maurício repetia a camisa. Ou seja, sendo sexta-feira, isso indicava que ele havia usado a mesma roupa a semana inteira. Desta vez, porém, sua secretária, uma respeitável senhora de 40 anos, não deixara passar em branco:
__ Ficou sem empregada de novo, Doutor Maurício?
Ele olhou-a com um certo constrangimento antes de afirmar:
__ A última se demitiu semana passada e desde então não tive tempo para pedir que a agência me enviasse outra.
__ Eu sugiro que troque de agência, pois certamente o senhor já esgotou todas as moças disponíveis que esta oferece.
Penélope tinha razão, admitiu. Pois a verdade é que não possuía mais coragem de telefonar à agência e solicitar que lhe enviassem outra candidata. No último mês foram oito, uma média de duas por semana.
__ Já disse e vou repetir: você precisa arrumar uma agência de relacionamentos que lhe forneça uma esposa, e não uma serviçal – André, seu sócio, acabava de entrar na sala e já se infiltrava na conversa com seu jeito expansivo.
__ Já inventaram a internet – Penélope disse com ironia, entrando na brincadeira.
__ Vocês dois parem de dar opinião sobre minha vida como se eu fosse um pobre coitado – Maurício ralhou, já enfadado de tanto deboche.
Desde que ficara viúvo, há pouco mais de um ano, não pararam de surgir propostas para que encontrasse uma substituta para a mãe dos seus quatro filhos. Ele bem sabia que, nesse mundo globalizado e dominando pela tecnologia, não seria difícil realizar tal façanha. Desde que encarasse essa escolha como um negócio. Na verdade ele já estava até considerando tal hipótese. Não agüentava mais dividir a vida entre o trabalho na transportadora, a tarefa de cuidar dos filhos e de si mesmo. Aliás, já fazia bastante tempo que não cuidava de si mesmo. Prova disso era o fato de não possuir outra camisa decente para ir trabalhar que não fosse aquela, que ele estava tendo o cuidado de lavar todas as noites e colocar pra secar atrás a geladeira para que estivesse pronta na manhã seguinte.
__ Penélope, você pode, por favor, ir ao shopping no horário do almoço e me comprar algumas camisas? Dou-lhe uma gorjeta bastante generosa pela delicadeza – pediu, assim que o sócio se afastou para atender a um telefonema.
__ Eu conheço uma moça que serviria perfeitamente para o que o senhor procura – a secretária o olhava de um jeito estranho, sem se dar ao trabalho de responder ao que propusera.
__ Uma nova empregada? – ele se animou.
__ Não, uma esposa.
Maurício ia mandá-la plantar batatas, mas diante do caos em que sua vida se transformara, talvez essa hipótese ridícula poderia ser seu único socorro.
__ E como ela é? Foi abandonada pelo noivo, está desiludida da vida e procura desesperadamente por um casamento por conveniência que impeça as cobranças que a família ou a sociedade lhe impõem?
A secretária continuava a olhá-lo com ares de sabedoria, e só depois de alguns instantes respondeu:
__ É a assistente de um conhecido de meu marido. É jovem, discreta, experiente tanto nos negócios quanto nos cuidados de casa e nos tratos com crianças de variadas idades.
__ Essa criatura não existe, você está simplesmente zombando de mim – Maurício irritou-se, inconformado por desperdiçar preciosos minutos do seu tempo para ouvir os devaneios da mulher. – E pode deixar que eu me viro com a compra das camisas!
Naquele instante ele realmente se preocupou com a possibilidade de Penélope estar sofrendo de doença mental, apesar da pouca idade para isso.

Gisele olhava, concentrada, as vitrines da loja de roupas masculinas. Tinha menos de meia hora para escolher o terno do irmão, que necessitava urgentemente do traje para o evento de logo mais à noite. Após a escolha minuciosa tanto do traje como dos acessórios, dirigiu-se ao caixa para efetuar o pagamento. Já estava na porta da loja, equilibrando as pesadas sacolas em ambas as mãos, quando sentiu que esbarrava em alguém. Mal teve tempo de ver quem era, pois todas as suas compras se espalharam escandalosamente pelo chão, interrompendo a passagem dos outros clientes.
__ Perdoe-me, moça, estava distraído e não consegui vê-la a tempo de evitar o desastre – o homem a olhava com visível constrangimento.
__ Não se culpe, acidentes acontecem – disse educadamente, já se abaixando para recolher os pertences. Por sorte os souvenires da sua extravagante cunhada continuavam bem escondidos no fundo da sacola de papel.
Com a ajuda do desastrado o trabalho de recolhimento das sacolas foi facilitado e ela agradeceu elegantemente, como convinha a uma profissional capacitada para quase todas as situações que a vida impunha. Era sob esse ponto de vista que costumava analisar as mais diversas ocorrências em que se via envolvida: não passava de uma profissional altamente capacitada para lidar com, se não todas, quase todas as situações que a vida lhe preparava. No fundo, desde que começara a trabalhar para o seu único irmão e parente próximo que possuía, perdera a identidade e deixara de representar um CPF para se tornar um CNPJ.
__ Posso lhe ofereceu um café como um pedido formal de desculpas? – o clima frio do meio da tarde e os impecáveis modos da moça diante de si fizeram com que Maurício sofresse um breve lapso de razão.
Como se não estivesse surpreendida pela sua ousadia, que nunca lhe fora habitual, a moça respondeu:
__ Sinto-me honrada pelo seu convite, senhor, mas o tempo não me permite. Agradeço profundamente tanto pelo cavalheirismo de não ter-me deixado recolher os pertences sozinha quanto pela gentileza do convite.
Ainda olhava-a afastar-se de forma serena, com andar elegante, como eram os seus gestos e as suas palavras. De onde saíra aquela figura tão bela e rara? De uma página de revista de marketing? Sentindo-se desolado, Maurício dirigiu-se ao balcão da enorme loja. Melhor seria se entreter na difícil tarefa de comprar algumas peças de roupa, caso contrário em menos de uma semana sua filha caçula já teria queimado todas as outras poucas restantes no ferro de passar.

Passava um pouco das cinco da tarde, final do expediente, quando seu chefe e irmão saiu pela porta da sala principal da mega empresa, distribuidora de automóveis importados. Suas feições não eram das mais animadoras. Gisele não se alterou, seus instintos diziam que não lhe restavam opções de escolha para quaisquer que fossem as circunstâncias a seguir.
__ Samantha se atrasou na sua reunião com as amigas e não vai poder buscar as crianças na escola. Eu tenho um encontro de negócios para assim que sair daqui, Gisele.
Não era preciso dizer mais nada, Gisele entendera o recado. Não adiantaria explicar que havia marcado horário no cabeleireiro justamente por causa do evento daquela noite. Apenas terminou de fechar os arquivos do computador e saiu, já planejando o que faria em casa mesmo com seu indisciplinado cabelo ruivo rebelde para mantê-lo decente ao menos por algumas horas. Na volta pra casa compraria um pode de três quilos de gel, pensou.
Já havia estacionado o luxuoso carro na rua do colégio e dirigia-se ao portão principal para apanhar os sobrinhos Sabrina, de nove anos, e Pedro, de doze. Em uma questão de segundos, porém, viu-se atravessando velozmente a rua onde o movimento dos carros era crescente àquele horário, equilibrando-se nos saltos firmes do sapato de grife para evitar que uma pequena menina de cabelos loiros fosse atingida por uma motocicleta. Na tarefa executada com sucesso, ambos os corpos só se desequilibraram quando alcançaram o outro lado da rua, caindo no extenso gramado onde dezenas de crianças e adultos assistiam tensos à cena.
__ Oh, céus! Seu joelho está sangrando – ela amparou carinhosamente a menina, culpando-se pelo machucado.
Mas os olhinhos verdes, ternos e doces a olharam em completo êxtase, com uma alegria inocente que lhe tocou o coração:
__ Se não fosse a senhora eu teria quebrado era as pernas e os braços.
De um momento para outro só se viam curiosos se aproximando para observarem os resultados, cada um falando ao mesmo tempo. Só depois da chegada dos dois sobrinhos ao local é que Gisele conseguiu se desvencilhar um pouco da confusão.
Aos poucos as pessoas se afastavam, cada uma indo para seus destinos, mas juntamente com a menina salva do acidente estavam mais três crianças: dois meninos e uma adolescente, todos com pouca diferença de idade entre si.
__ Seus pais ainda não vieram buscá-los? – Gisele interrogou, talvez precisasse explicar aos pais da criança o que havia acontecido na porta do colégio.
A mais velha, outra loirinha de aproximadamente catorze anos, respondeu:
__ Papai certamente ainda vem...
__ É que às vezes ele nos esquece – explicou um dos meninos com a típica inocência de uma criança com cerca de dez anos.
Seus sobrinhos já esperavam impacientes dentro do veículo, mas Gisele não podia simplesmente sair e deixá-los ali, à mercê de outra catástrofe, dessa vez talvez com sérias conseqüências.
__ Tem algum telefone que eu possa falar com o pai ou a mãe de vocês e perguntar se posso chamar um táxi? – perguntou, mesmo sabendo que poderia ser uma idéia absurda enviar quatro crianças de volta pra casa de táxi.
__ Nós não temos mais mãe – dessa vez foi o menino maiorizinho que o primeiro quem falou, com o olhar carente.
__ E papai trabalha o tempo todo, já estamos acostumados a esperar por ele até mais tarde – a menina maior do grupo explicou, com ares de adulta precoce.
__ E se eu levasse vocês em casa? – Gisele ainda sugeriu, com o coração compadecido em ver quatro crianças sozinhas, sujeitas aos perigos que as ruas das grandes cidades sempre ofereciam.
O grupo entreolhou-se, como que analisando a proposta. Foi o menino maiorzinho que respondeu:
__ Papai disse pra gente nunca aceitar nada de estranhos.
__ Mas ela salvou minha vida – argumentou a garotinha menor do grupo.
__ E ela não tem cara de malvada – foi o garotinho de cabelos castanhos claros e olhos graúdos quem sentenciou.
__ Eu posso telefonar ao pai de vocês e explicar o que houve – Gisele ainda propôs, já ouvindo os gritos dos próprios sobrinhos a chamá-la do carro estacionado do outro lado da rua.
Novamente o grupo se entreolhou e foi a menina maior quem se manifestou, pegando de dentro da mochila um moderno aparelho de celular, discando logo em seguida.
Já no caminho de volta pra casa onde morava com o irmão e a família, após deixar o ruidoso grupo numa graciosa casa em uma rua arborizada, Gisele pôs-se a analisar os acontecimentos. Carregava a leve impressão de já ter ouvido a voz do pai das crianças, com quem conversou ao telefone por alguns minutos, tomando o cuidado de não preocupá-lo com o acidente que quase acontecera com uma das suas filhas. Não parecia ser um pai negligente, como pensara ao ouvir das crianças que era costume esperarem até mais tarde para serem buscadas na porta do colégio. Pôde comprovar isso pela voz carregada de cansaço e preocupação. Por outro lado, mesmo que fosse o contrário, não cabia a si sentenciá-lo, afinal, essa havia sido a primeira vez, e certamente também seria a última, em que encontraria aquela família. Ao que estava muito enganada.

__ E então, Doutor Maurício – Penélope aproveitava o momento de descontração após a breve reunião que tivera com seu sócio para voltar a fazer brincadeira a respeito daquele fatídico assunto, que infelizmente já havia virado rotina nas vezes em que conversavam informalmente. – Tem certeza de que não está mesmo interessado em conhecer a moça da qual lhe falei?
__ Às vezes chego à conclusão de que ele não está precisando tanto assim – André interferiu, jocoso. – Faz quase um mês que ele está usando roupas novas e bem passadas.
__ Obrigado pela discrição com que vocês tratam a minha vida particular – Maurício fingiu-se ofendido. – Mas para o seu governo, André, passei a entregar as roupas numa lavanderia. Dá menos preocupação.
__ E evita que a pequena Joana queime suas camisas ao tentar ajudá-lo a passar – Penélope debochou.
Maurício simplesmente sorriu, lembrando-se ternamente da sua caçulina tão doce e amável.
__ Meus filhos tentam de todas as formas ajudar como podem – explicou.
__ Eles só não conseguem é deixar de assustar as empregadas, caso contrário elas durariam por lá ao menos uma semana – André ainda continuou a debochar.
__ Eu já dei o meu conselho – Penélope deu seqüência ao assunto, com seu costumeiro ar de sabedoria. – conheço a pessoa certa que pode tirá-lo do sufoco. O único problema que terá de enfrentar é conseguir tirá-la de debaixo da asa do irmão, com quem ela mora e de quem é o braço direito.
Cansado do assunto, Maurício arrumou um pretexto e saiu, dando continuidade ao amontoado de tarefas que ainda teria antes de buscar as crianças na escola.
Céus! As crianças na escola! Era a quarta vez desde a semana anterior que se esquecia completamente do horário de ir buscá-las. Olhou apressadamente no relógio e desejou que elas estivessem seguras e aguardando em frente ao colégio, mas assim que alcançou a rua, o telefone começou a chamar insistentemente.
__ Papai – era Maria da Glória, sua filha mais velha – não se preocupe conosco que já estamos em casa. A Gisele, a moça com quem o senhor conversou semana passada, já nos trouxe.
Entre aliviado e constrangido, Maurício conversou mais alguns minutos com a filha e tratou de ir logo para casa. Era também a quarta vez que a moça misteriosa com quem conversara ao telefone, e de cuja voz tinha a sensação de conhecer, fazia o favor de levar seus filhos com segurança. Precisava arranjar uma forma urgente de agradecê-la, e também de conhecê-la para retirar dela qualquer má impressão que porventura tivesse a seu respeito. Afinal, um pai que abandonava quatro filhos pequenos constantemente na porta da escola não poderia ser um bom sujeito.

Dois meses se passaram desde que Gisele oferecera carona às adoráveis crianças na escola. E muita coisa mudou na sua vida desde então. Com o advento da viagem de sua cunhada para um congresso acerca dos assuntos de uma ONG que dirigia, sobrou-lhe a tarefa de ir buscar os sobrinhos todos os dias no colégio. Além de outras tarefas extras, como instruir os vários empregados da enorme casa onde morava com o irmão e a família, cuidar dos assuntos pessoais do irmão e outras situações de emergência. Em resumo, não sobrava mais tempo para si mesma. A única coisa boa de tudo isso era a amizade que nascia entre ela e as quatro crianças.
Foi, porém, com grande surpresa, que recebeu o telefonema misterioso do pai dos meninos naquela tarde.
__ Eu sei o quanto deve estar guardando uma má impressão da minha pessoa – ele dissera. – Mas insisto em que me dê a oportunidade de conversarmos para que eu possa lhe provar que não sou simplesmente um pai negligente que deixa seus filhos aos cuidados de desconhecidos.
Em outra circunstância teria rejeitado educadamente, não lhe interessava manter contato com pessoas que não fossem no âmbito dos negócios e do trabalho. Já há muito tempo que abrira mão de relacionamentos pessoais, seja lá qual fosse a natureza. Mas a voz do homem era estranhamente familiar e resolveu aceitar o convite.

Do primeiro encontro entre Maurício e Gisele para a completa mudança de rotina na vida ambos, não demorou muito tempo. O impacto de se verem pela primeira, aliás, pela segunda vez (descobriram que já haviam se topado acidentalmente no shopping meses antes, por ocasião da compra das roupas), foi surpreendente para ambos. E, com o passar do tempo, eles perceberam que existia algo que os interligava. Um sentimento agradável do qual não conseguiam fugir. A mudança para ela foi tão perceptível que o irmão não deixou passar em branco, com seu jeito autoritário com o qual já estava acostumada desde os seus dezesseis anos.
__ Faz dias que você anda estranha – ele começou casualmente, mas sua voz indicava que estava profundamente afetado. – Não pára mais em casa, demora mais do que o normal no horário do almoço e por diversas vezes no meio da tarde fico perdido, demorando horas para conseguir localizá-la. Sem mencionar que já me deixou na mão em dois eventos da empresa. Samantha também já notou, e andou até reclamando das vezes em que teve que cancelar alguns compromissos sociais pelo fato de você não poder ficar tomando conta das crianças.
Ela olhou-o demoradamente. Desde que os pais morreram, há quatorze anos, acostumara-se a morar naquela casa e viver sob os cuidados do irmão. Mas ultimamente vinha analisando em quantas coisas havia sido compassiva, e no quanto abrira mão de si mesma para viver para ele e para a cunhada socialite.
__ Conheci uma pessoa – respondeu simplesmente.
__ Tudo bem, eu conheço pessoas freqüentemente, mas nem por isso mudo de forma tão radical o meu comportamento.
Armando-se da segurança e da coragem com que sempre enfrentou a batalha no campo dos negócios, e para o qual fora arduamente treinada, Gisele ergueu o queixo e anunciou:
__ Foi bom você introduzir o assunto, pois tem algo que preciso lhe comunicar. Eu estive amadurecendo a idéia nos últimos dias, acho que vou arrumar um apartamento e morar sozinha.
Entre surpreso e irritado, Gerson bradou:
__ E você me avisa isso assim, a sangue frio?
__ Não, aviso de uma forma adulta e segura. E não entendo tamanha surpresa da sua parte, afinal, um dia isso iria acontecer, não é mesmo?
__ Tudo bem, um dia. Mas as coisas não podem acontecer assim de uma hora pra outra! Achei que você havia pensado na possibilidade de analisar a proposta de casamento do Marcos. Se as coisas andassem por esse caminho, lucraríamos mais.
__ Sinto informá-lo, mas não sou um dos carros de luxo que você expõe na vitrine esperando por um comprador que esteja disposto a pagar uma quantia exorbitante.
Não era daquela forma que pretendia romper os laços com o irmão e a família, que afinal era a sua única.
__ Achei que você seria mais grata a mim – Gerson continuou, ofendido. – Desde que você ainda era uma criança eu a trouxe para dentro da minha casa. Dei a você a mesma qualidade de vida que dou aos meus filhos: a melhor educação, viagens, oportunidade de crescer na vida...
__ E lhe sou eternamente grata por isso, meu querido – Gisele olhou-o com carinho. Há tempos não tinham mais espaço na vida para agirem como irmãos. Eram sempre patrão e funcionária. – Mas quando você parar um pouco e analisar os fatos friamente, vai perceber que já estou crescidinha o suficiente para levar minha vida pra frente, sem me esconder atrás de você. Eu cresci.

No começo foi difícil desvincular-se dos laços que a seguravam há quatorze anos. Mas cada dia que conviva com Maurício e os filhos descobria que havia dado o passo certo. Uma noite, quando festejariam a mudança para o seu novo apartamento, ele apareceu com os quatro filhos para o jantar que ela havia preparado.
Maria da Glória levara bombons; Murilo, o segundo filho, levara flores; Marcelo, o garotinho de cabelos castanhos, levara um vaso de cristal para sua sala de jantar; e Joana, a caçulinha que havia salvado do acidente, entregara-lhe uma boneca de pano.
__ Pra você não sentir medo de dormir sozinha – explicou com seu jeito angelical.
Era impossível não se emocionar com tamanha manifestação de carinho, por parte de todos. Mas a melhor surpresa ficara para o final da noite, quando Maurício, com que estava acostumada a dividir a maior parte do seu tempo nos últimos meses, apresentou seu agrado no final do jantar.
__ Quero aproveitar a presença dos meus filhos e a oportunidade pra lhe fazer um pedido – ele anunciou, meio inseguro.
__ Papai conversou muito com a gente antes de lhe dizer isso – Maria da Glória encorajou-o com o olhar.
__ E todos nós concordamos com ele – Murilo continuou.
__ Na verdade fomos nós quem pedimos a ele para fazer isso – Marcelo disse com os olhos graúdos brilhando de contentamento.
__ É, nós todos queremos muito... – Joana ia adiantar a surpresa, quando foi delicadamente impedida pelo pai, que tapou-lhe a boquinha rapidamente.
__ ... que você aceite meu pedido de casamento – ele finalmente conseguiu dizer, retirando de dentro do bolso da calça uma caixinha de veludo verde.

A igreja estava lotada para aquele importante evento. No altar, ao lado direito do noivo, estavam André e a esposa, que seriam os seus padrinhos. Penélope e o marido estavam juntos ao casal, esperando a chegada triunfante da noiva, de quem seriam os padrinhos. E quando a banda fez a marcha nupcial estremecer o edifício, uma Gisele mais parecida com uma princesa de contos de fada começava a dar os primeiros passos em direção ao seu amado, acompanhando a doce menininha de cabelos loiros e olhos verdes que segurava uma cestinha, guiada de forma protetora e afetiva pelo irmão.
Não se contendo, Penélope aproximou a cabeça do ombro de André, para cochichar-lhe ao ouvido:
__ Eu disse desde o começo que sabia quem era mulher ideal para o Doutor Maurício, não disse? Se tivesse me dado ouvidos, não teria perdido tanto tempo.
André simplesmente sorriu. Talvez a experiente secretária não tivesse sido tão eficaz na sua tarefa quanto o havia sido uma criança meiga de olhos verdes e cabelinhos loiros. Afinal, quem poderia explicar as surpresas do destino?