
A paisagem se descortinava à minha frente. Seis anos. Seis longos anos haviam se passado desde que estive aqui pela última vez. Mas nada havia mudado afinal.
A Vila Paraíso é um recanto agradável, o lugar ideal para quem gosta de vida pacata, sossego, paz... como Brenda.
Um sorriso brotou no meu rosto cansado ante a imagem doce e terna da minha amiga, que há tempos não encontrava. Haveria ela mudado? Ou continuava com aquele mesmo semblante de menina e o humor descontraído de outrora?
__ Não tem medo de perder esses belos dentes? – ela costumava ameaçar quando eu, só pelo prazer de provocá-la, inventava algum motivo para conseguir ao menos fazê-la irritar-se comigo.
Minhas tentativas eram sempre frustradas. Nunca consegui fazer com que Brenda brigasse comigo, ou ficasse magoada. Talvez agora...
O sorriso, aos poucos, foi morrendo no meu rosto. Ainda me lembro do último encontro, do último telefonema, do último cartão postal, do último e-mail. Todos continham a promessa de um futuro.
__ Seremos assim sempre ligados um ao outro, não é, Tom? – Brenda questionava vez ou outra, em especial quando vivíamos momentos de grande intensidade.
__ Só vamos nos separar se você ficar brava comigo, com raiva, e nunca mais querer me ver – eu rebatia, provocando-lhe risos.
Aos olhos de Brenda, seria impossível tal acontecimento, por isso ela tinha tanta segurança em relação à nossa amizade. Mas eu falhei.
Falhei com Brenda, falhei com Katie, falhei com minha família e falhei comigo mesmo.
Tentei me concentrar na estrada sinuosa margeada de palmeiras que levava à Vila. Talvez dessa maneira conseguisse fugir, ao menos por um tempo, das lembranças dolorosas. O livro grosso, de capa preta e com a estampa de uma tulipa, estava sobre o banco do passageiro.
__ Prometa que, mesmo estando tão longe, vai ler meu livro – Brenda pediu-me com uma voz infantil, como se a resposta positiva da minha parte fosse de vital importância para sua carreira, que naquela época iniciava os primeiros passos.
Fiz mais que isso. Guardo até hoje os seis Best Sellers de Brenda Polosh, a célebre autora de histórias de ficção que viraram febre não somente no país, mas em grande parte do mundo. Mas guardo ainda com mais zelo na minha mente as tramas inteligentes e de uma sensibilidade incrível, contidas em cada uma de suas histórias.
Brenda e eu nos conhecemos ainda muito jovens, quando eu tentava abraçar a faculdade de medicina com todas as minhas forças e ela, morando sozinha e distante da família, dividia o tempo entre o trabalho de recepcionista em uma clínica pediátrica e os estudos. Ela também almejava a faculdade.
Minha amiga de colégio se infiltrou em meu mundo, conquistou meus pais e, em pouco tempo, formamos praticamente uma família: Brenda e eu, mamãe e papai.
Ela era minha conselheira, minha irmã, minha melhor amiga. Brenda só não conseguiu ser minha parceira de aventuras. Dizia que não tinha tempo, mas no fundo eu e ela sempre soubemos que era por medo mesmo.
__ Não pretendo morrer jovem – ela se defendia quando eu insistia para que me acompanhasse nos saltos de bungee jump ou nas regatas que os outros amigos promoviam ali nas redondezas da bela Vila Paraíso.
Meus namoros eram um caso à parte. Digo meus namoros porque, até onde me lembro, nunca tive conhecimento acerca de quaisquer espécies de relacionamentos mantidos por ela. Todos os casos a que fazia menção eram parte do passado. Muitas vezes me questionei se Brenda houvera sido profundamente magoada por alguém, levando-a a se fechar para um novo amor. Mas todas as minhas suspeitas caíam por terra quando a via assim tão de bem com a vida, com a autoestima tão contagiante.
Pois bem, Brenda sempre foi minha conselheira no campo amoroso. Eu a achava a mulher mais sensata e experiente que já havia conhecido. E mesmo quando sabia que eu estava me embrenhando num “caso perdido”, não tentava me impedir, apesar de toda a sinceridade contida em seus conselhos. E quando eventualmente eu fracassava, não ousava dizer: “Eu avisei”, pois se compadecia dos meus infortúnios e sempre, sempre me oferecia seu ombro amigo e perfumado.
Talvez tivesse sido tudo diferente com meu casamento com Katie...
Meneei a cabeça, recusando-me a reviver os momentos ruins pelos quais passei.
__ Sabe o que me faz falta quando me lembro do meu namoro com Carla? – eu disse-lhe uma tarde, quando passei no seu trabalho para vê-la.
__ A implicância da mãe dela com você? – Brenda debochou, jocosa.
__ Das massagens que ela costumava fazer em meus ombros. Nossa! Como aquilo me fazia relaxar depois de um dia tenso e cansativo!
Brenda riu.
__ Acho que você devia abrir um harém, Tom – continuou. – Você tinha me dito que Lana lhe fazia um cafuné mais gostoso que o da sua mãe. Uma faz cafuné, outra faz massagem... no harém você terá tratamento completo.
__ Eu abro um harém e levo você pra cozinhar gostoso pra mim, o que acha?
Por um instante eu achei que finalmente havia conseguido irritá-la. Mas a forma graciosa com que me sorriu só serviu para confirmar que não percebera no comentário nada mais que uma brincadeira.
Uma placa de madeira anunciava que, 20 km após a próxima curva à direita era o que faltava para chegar à Vila Paraíso. 20 km era o percurso que restava entre Brenda e eu. À medida que a distância se encurtava, eu ia ficando tenso. Obtive informações suficientes sobre ela, sabia que não se casou e que continuava morando sozinha. A única mudança aparente na sua vidinha pacata fora a nova casa. Casa essa que, segundo as páginas da revista à qual dera entrevista há cerca de um mês, era um palacete. Brenda sempre gostara de conforto e, mesmo quando morava em um minúsculo apartamento, conseguira transformá-lo em um dos lugares mais agradáveis do mundo. Oh! E como eu adorava seus jantares! E suas sobremesas, seus petiscos, e tudo que ela levava ao forno, ao fogão ou à geladeira.
__ Quando decidir abrir um restaurante, quero ser seu sócio. Tenho certeza de que se tornará uma chef reconhecida mundialmente – eu lhe disse uma vez, após devorar quase toda a sua travessa de musse de chocolate.
Esta minha fala eu tive a doce surpresa de reconhecê-la em uma de suas histórias, quando o protagonista incentivava a mocinha a comercializar as receitas obtidas através de um livro muito antigo, deixado de herança por uma ancestral. E a trama se desenrolava com suas personagens surreais e uma generosa dose de suspense.
Um medo estranho me assolou quando passei pela ponte sobre o rio tortuoso onde costumávamos passar nossos momentos de lazer. E se Brenda não quisesse mais me ver? Nada mais justo do que virar-me as costas quando eu aparecesse inesperadamente em sua porta. Afinal, durante seis anos eu me ausentei da vida de Brenda, sem nenhuma explicação.
__ Casei-me semana passada – eu havia dito por telefone, na nossa última conversa.
Após segundos de silêncio, ela se manifestou, com a voz inalterada:
__ Posso saber por que isso ocorreu assim de repente? Eu nem sabia que estava envolvido com alguém. Achei que o trabalho no hospital e os cursos de aperfeiçoamento lhe tomassem todo o tempo.
__ Katie está grávida.
Novo silêncio, um pouco mais prolongado.
Despedimo-nos minutos depois, sem muitos esclarecimentos da minha parte.
Num e-mail Brenda dizia:
Questionei-me por longas horas sobre o possível motivo por que se casou tão de repente. No final, cheguei à conclusão de que Katie é a mulher mais sortuda do mundo, pois conseguiu conquistar seu coração e, consequentemente, fazê-lo se tornar pai. Espero que sejam muito felizes.
O último cartão postal eu enviei uma semana depois, como lembrança da minha viagem a Veneza, em uma conferência. O meu último e-mail foi bastante sucinto:
Talvez, por consequência da minha nova rotina, eu acabe me tornando um pouco ausente. Mas jamais me esquecerei de você.
Os meses e os anos foram-se passando e a vergonha do fracasso me impediu de voltar a procurá-la. E Brenda, em respeito ao meu silêncio, permaneceu esperando uma manifestação da minha parte. Agora me pergunto se foi por respeito ou por mágoa que minha amiga não mais falou comigo.
Na verdade eu tive vergonha de contar a ela que o filho que Katie esperava não era meu e que, na minha incapacidade de protegê-la, ela acabou sofrendo um grave acidente quando cedeu ao impulso de reencontrar o antigo namorado. Morreram juntos, deixando-me cheio de fantasmas e remorsos.
Brequei o automóvel subitamente. Seria impressão minha ou um animal atravessou a estrada? Na verdade eu só vi um vulto, mas não pude decifrar se era uma gazela enfurecida ou simplesmente a sombra do meu passado.
Respirei fundo e enchi-me de coragem. Não havia atravessado o Pacífico para simplesmente me acovardar às portas da Vila Paraíso.
A lembrança dos bons momentos com Brenda me reanimou a continuar. Ela ainda haveria de gostar de mim. E caso me tratasse como um estranho, eu simplesmente diria:
__ Sou um assíduo leitor de suas obras, desde a primeira publicação de sete anos atrás. Atravessei o Pacífico para pedir que as autografe.
Ri de mim mesmo. Não poderia dizer coisa mais tola!
De repente me lembrei de uma vez (não sei realmente por que motivo tive que me lembrar desse episódio) quando mostrava a Brenda as fotos de minha última viagem de férias. Em uma delas eu estava de sunga e minha amiga, descontraidamente, comentou:
__ Nossa, que fartura de corpo!
Fiquei vermelho e ela nem notou. A partir daquele dia comecei a olhá-la com olhos de homem. Talvez não fôssemos totalmente imunes a uma atração física.
Com o coração saltando no peito estacionei o carro em frente à enorme casa com vista para o rio. Um instinto inexplicável me guiou à entrada e não aguardei mais para tocar a campainha.
A mesma menina de seis anos antes abrira a porta e, no instante em que nossos olhares se cruzaram, todos os meus temores caíram por terra. Era a mesma Brenda de sempre.
Como se tivéssemos nos afastado por apenas alguns dias, ela pulou sobre o meu pescoço e me abraçou. Senti-me em casa.
Horas mais tarde, após matarmos um pouco a saudade e após nos atualizarmos sobre tudo o que ocorrera nas nossas vidas enquanto estivemos separados, Brenda me perguntou, enroscando os dedos delicados nos botões de minha camisa:
__ Lembra de quando me perguntava por que nunca me envolvia com ninguém?
__ Lembro. E você sempre inventava uma desculpa, jamais conseguiu me oferecer um motivo justo.
__ Hoje eu tenho a resposta.
Endireitei-me no sofá.
__ Continue – pedi.
__ Tom, eu nunca quis me envolver com nenhum homem, porque esperei por você. Esperei por você desde que nos encontramos pela primeira vez.
Comovido, beijei-a. Acabava de descobrir que, assim como ela havia me esperado, eu estive me preparando o tempo todo para pertencer a ela.
A Vila Paraíso é um recanto agradável, o lugar ideal para quem gosta de vida pacata, sossego, paz... como Brenda.
Um sorriso brotou no meu rosto cansado ante a imagem doce e terna da minha amiga, que há tempos não encontrava. Haveria ela mudado? Ou continuava com aquele mesmo semblante de menina e o humor descontraído de outrora?
__ Não tem medo de perder esses belos dentes? – ela costumava ameaçar quando eu, só pelo prazer de provocá-la, inventava algum motivo para conseguir ao menos fazê-la irritar-se comigo.
Minhas tentativas eram sempre frustradas. Nunca consegui fazer com que Brenda brigasse comigo, ou ficasse magoada. Talvez agora...
O sorriso, aos poucos, foi morrendo no meu rosto. Ainda me lembro do último encontro, do último telefonema, do último cartão postal, do último e-mail. Todos continham a promessa de um futuro.
__ Seremos assim sempre ligados um ao outro, não é, Tom? – Brenda questionava vez ou outra, em especial quando vivíamos momentos de grande intensidade.
__ Só vamos nos separar se você ficar brava comigo, com raiva, e nunca mais querer me ver – eu rebatia, provocando-lhe risos.
Aos olhos de Brenda, seria impossível tal acontecimento, por isso ela tinha tanta segurança em relação à nossa amizade. Mas eu falhei.
Falhei com Brenda, falhei com Katie, falhei com minha família e falhei comigo mesmo.
Tentei me concentrar na estrada sinuosa margeada de palmeiras que levava à Vila. Talvez dessa maneira conseguisse fugir, ao menos por um tempo, das lembranças dolorosas. O livro grosso, de capa preta e com a estampa de uma tulipa, estava sobre o banco do passageiro.
__ Prometa que, mesmo estando tão longe, vai ler meu livro – Brenda pediu-me com uma voz infantil, como se a resposta positiva da minha parte fosse de vital importância para sua carreira, que naquela época iniciava os primeiros passos.
Fiz mais que isso. Guardo até hoje os seis Best Sellers de Brenda Polosh, a célebre autora de histórias de ficção que viraram febre não somente no país, mas em grande parte do mundo. Mas guardo ainda com mais zelo na minha mente as tramas inteligentes e de uma sensibilidade incrível, contidas em cada uma de suas histórias.
Brenda e eu nos conhecemos ainda muito jovens, quando eu tentava abraçar a faculdade de medicina com todas as minhas forças e ela, morando sozinha e distante da família, dividia o tempo entre o trabalho de recepcionista em uma clínica pediátrica e os estudos. Ela também almejava a faculdade.
Minha amiga de colégio se infiltrou em meu mundo, conquistou meus pais e, em pouco tempo, formamos praticamente uma família: Brenda e eu, mamãe e papai.
Ela era minha conselheira, minha irmã, minha melhor amiga. Brenda só não conseguiu ser minha parceira de aventuras. Dizia que não tinha tempo, mas no fundo eu e ela sempre soubemos que era por medo mesmo.
__ Não pretendo morrer jovem – ela se defendia quando eu insistia para que me acompanhasse nos saltos de bungee jump ou nas regatas que os outros amigos promoviam ali nas redondezas da bela Vila Paraíso.
Meus namoros eram um caso à parte. Digo meus namoros porque, até onde me lembro, nunca tive conhecimento acerca de quaisquer espécies de relacionamentos mantidos por ela. Todos os casos a que fazia menção eram parte do passado. Muitas vezes me questionei se Brenda houvera sido profundamente magoada por alguém, levando-a a se fechar para um novo amor. Mas todas as minhas suspeitas caíam por terra quando a via assim tão de bem com a vida, com a autoestima tão contagiante.
Pois bem, Brenda sempre foi minha conselheira no campo amoroso. Eu a achava a mulher mais sensata e experiente que já havia conhecido. E mesmo quando sabia que eu estava me embrenhando num “caso perdido”, não tentava me impedir, apesar de toda a sinceridade contida em seus conselhos. E quando eventualmente eu fracassava, não ousava dizer: “Eu avisei”, pois se compadecia dos meus infortúnios e sempre, sempre me oferecia seu ombro amigo e perfumado.
Talvez tivesse sido tudo diferente com meu casamento com Katie...
Meneei a cabeça, recusando-me a reviver os momentos ruins pelos quais passei.
__ Sabe o que me faz falta quando me lembro do meu namoro com Carla? – eu disse-lhe uma tarde, quando passei no seu trabalho para vê-la.
__ A implicância da mãe dela com você? – Brenda debochou, jocosa.
__ Das massagens que ela costumava fazer em meus ombros. Nossa! Como aquilo me fazia relaxar depois de um dia tenso e cansativo!
Brenda riu.
__ Acho que você devia abrir um harém, Tom – continuou. – Você tinha me dito que Lana lhe fazia um cafuné mais gostoso que o da sua mãe. Uma faz cafuné, outra faz massagem... no harém você terá tratamento completo.
__ Eu abro um harém e levo você pra cozinhar gostoso pra mim, o que acha?
Por um instante eu achei que finalmente havia conseguido irritá-la. Mas a forma graciosa com que me sorriu só serviu para confirmar que não percebera no comentário nada mais que uma brincadeira.
Uma placa de madeira anunciava que, 20 km após a próxima curva à direita era o que faltava para chegar à Vila Paraíso. 20 km era o percurso que restava entre Brenda e eu. À medida que a distância se encurtava, eu ia ficando tenso. Obtive informações suficientes sobre ela, sabia que não se casou e que continuava morando sozinha. A única mudança aparente na sua vidinha pacata fora a nova casa. Casa essa que, segundo as páginas da revista à qual dera entrevista há cerca de um mês, era um palacete. Brenda sempre gostara de conforto e, mesmo quando morava em um minúsculo apartamento, conseguira transformá-lo em um dos lugares mais agradáveis do mundo. Oh! E como eu adorava seus jantares! E suas sobremesas, seus petiscos, e tudo que ela levava ao forno, ao fogão ou à geladeira.
__ Quando decidir abrir um restaurante, quero ser seu sócio. Tenho certeza de que se tornará uma chef reconhecida mundialmente – eu lhe disse uma vez, após devorar quase toda a sua travessa de musse de chocolate.
Esta minha fala eu tive a doce surpresa de reconhecê-la em uma de suas histórias, quando o protagonista incentivava a mocinha a comercializar as receitas obtidas através de um livro muito antigo, deixado de herança por uma ancestral. E a trama se desenrolava com suas personagens surreais e uma generosa dose de suspense.
Um medo estranho me assolou quando passei pela ponte sobre o rio tortuoso onde costumávamos passar nossos momentos de lazer. E se Brenda não quisesse mais me ver? Nada mais justo do que virar-me as costas quando eu aparecesse inesperadamente em sua porta. Afinal, durante seis anos eu me ausentei da vida de Brenda, sem nenhuma explicação.
__ Casei-me semana passada – eu havia dito por telefone, na nossa última conversa.
Após segundos de silêncio, ela se manifestou, com a voz inalterada:
__ Posso saber por que isso ocorreu assim de repente? Eu nem sabia que estava envolvido com alguém. Achei que o trabalho no hospital e os cursos de aperfeiçoamento lhe tomassem todo o tempo.
__ Katie está grávida.
Novo silêncio, um pouco mais prolongado.
Despedimo-nos minutos depois, sem muitos esclarecimentos da minha parte.
Num e-mail Brenda dizia:
Questionei-me por longas horas sobre o possível motivo por que se casou tão de repente. No final, cheguei à conclusão de que Katie é a mulher mais sortuda do mundo, pois conseguiu conquistar seu coração e, consequentemente, fazê-lo se tornar pai. Espero que sejam muito felizes.
O último cartão postal eu enviei uma semana depois, como lembrança da minha viagem a Veneza, em uma conferência. O meu último e-mail foi bastante sucinto:
Talvez, por consequência da minha nova rotina, eu acabe me tornando um pouco ausente. Mas jamais me esquecerei de você.
Os meses e os anos foram-se passando e a vergonha do fracasso me impediu de voltar a procurá-la. E Brenda, em respeito ao meu silêncio, permaneceu esperando uma manifestação da minha parte. Agora me pergunto se foi por respeito ou por mágoa que minha amiga não mais falou comigo.
Na verdade eu tive vergonha de contar a ela que o filho que Katie esperava não era meu e que, na minha incapacidade de protegê-la, ela acabou sofrendo um grave acidente quando cedeu ao impulso de reencontrar o antigo namorado. Morreram juntos, deixando-me cheio de fantasmas e remorsos.
Brequei o automóvel subitamente. Seria impressão minha ou um animal atravessou a estrada? Na verdade eu só vi um vulto, mas não pude decifrar se era uma gazela enfurecida ou simplesmente a sombra do meu passado.
Respirei fundo e enchi-me de coragem. Não havia atravessado o Pacífico para simplesmente me acovardar às portas da Vila Paraíso.
A lembrança dos bons momentos com Brenda me reanimou a continuar. Ela ainda haveria de gostar de mim. E caso me tratasse como um estranho, eu simplesmente diria:
__ Sou um assíduo leitor de suas obras, desde a primeira publicação de sete anos atrás. Atravessei o Pacífico para pedir que as autografe.
Ri de mim mesmo. Não poderia dizer coisa mais tola!
De repente me lembrei de uma vez (não sei realmente por que motivo tive que me lembrar desse episódio) quando mostrava a Brenda as fotos de minha última viagem de férias. Em uma delas eu estava de sunga e minha amiga, descontraidamente, comentou:
__ Nossa, que fartura de corpo!
Fiquei vermelho e ela nem notou. A partir daquele dia comecei a olhá-la com olhos de homem. Talvez não fôssemos totalmente imunes a uma atração física.
Com o coração saltando no peito estacionei o carro em frente à enorme casa com vista para o rio. Um instinto inexplicável me guiou à entrada e não aguardei mais para tocar a campainha.
A mesma menina de seis anos antes abrira a porta e, no instante em que nossos olhares se cruzaram, todos os meus temores caíram por terra. Era a mesma Brenda de sempre.
Como se tivéssemos nos afastado por apenas alguns dias, ela pulou sobre o meu pescoço e me abraçou. Senti-me em casa.
Horas mais tarde, após matarmos um pouco a saudade e após nos atualizarmos sobre tudo o que ocorrera nas nossas vidas enquanto estivemos separados, Brenda me perguntou, enroscando os dedos delicados nos botões de minha camisa:
__ Lembra de quando me perguntava por que nunca me envolvia com ninguém?
__ Lembro. E você sempre inventava uma desculpa, jamais conseguiu me oferecer um motivo justo.
__ Hoje eu tenho a resposta.
Endireitei-me no sofá.
__ Continue – pedi.
__ Tom, eu nunca quis me envolver com nenhum homem, porque esperei por você. Esperei por você desde que nos encontramos pela primeira vez.
Comovido, beijei-a. Acabava de descobrir que, assim como ela havia me esperado, eu estive me preparando o tempo todo para pertencer a ela.