quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Forças do acaso


Eu conheci Sara no verão de 1986, quando ela veio passar seis meses em nossa casa para fazer intercâmbio. Nossa família não possuía o costume de receber intercambistas, porém uma amiga de mamãe acabou convencendo-a a aceitar uma jovem que se dispusesse a auxiliá-la, ao menos por um tempo, como baby sister. Meu irmão estava com três anos e mamãe sofrera uma cirurgia na coluna que a impedia de fazer grandes esforços. Logicamente que não faltaria uma baby sister experiente em todo o estado da Flórida, mas Cloe fora convincente ao dizer que as moças latinas eram as melhores indicadas para tal atividade.
E Cloe estava com a razão. Brian se afeiçoara à moça logo no primeiro contato e isso foi o suficiente para que Sara conquistasse imediatamente a aprovação de meus pais e de praticamente toda a nossa família. Confesso que fiquei encantado com o belo par de olhos verdes da garota, e meus conflitos de jovem pouco experimentado na vida às vezes me faziam entrar em atrito com ela, fato que causava situações embaraçosas. Atritos esses que nada mais eram que subterfúgios usados por mim para camuflar o crescente desejo que eu sentia por Sara. Sentimentos diversos e intensos, escondidos no mais profundo do meu coração, e meu maior medo é que descobrissem que aquela brasileirinha dócil era o meu ponto fraco.
A naturalidade com que ela se infiltrou na nossa vida por vezes acabou despertando também o ciúme de minhas primas, pois a verdade é que papai e mamãe acolheram Sara como sendo praticamente uma filha. Eu, para me defender e ao mesmo tempo puni-la pela tortura emocional que me causava, acabava forçando confusões entre as meninas. Era sempre Sara quem saía em desvantagem, o que no fim acabava me cortando o coração, enchendo-me ainda mais de culpa e, como se fosse possível, fazendo-me apreciá-la cada dia mais.
Um dia ouvi sem querer uma das conversas de Sara com mamãe, enquanto preparavam o jantar do Dia de Ação de Graças. Sentei-me num canto escondido ao pé da pequena escada, do lado de fora da cozinha, recostei-me e fiquei prestando atenção no seu relato. Sua voz soava naturalmente dócil e meiga, desprovida de tristeza mesmo quando falava sobre os muitos momentos tristes pelos quais passara. Como podia uma jovem de apenas dezoito anos já ter vivido tantos conflitos? Sara era mais madura que eu, dois anos mais velho que ela, enfrentara problemas dois mais diversos possíveis, e mesmo assim preservava em si o amor pela vida, a confiança em si mesma, a gratidão pelo pouco que lhe ofereciam, o otimismo e a crença no futuro. Envergonhei-me do meu comportamento de até então, prometi a mim mesmo que mudaria minhas atitudes, fazendo-me digno ao menos da sua amizade.
O tempo, porém, não me fora um bom ajudante. No início do mês seguinte Sara voltou para sua terra, com uma volumosa bagagem cultural e experiências que lhe seriam úteis para a vida toda, segundo suas próprias palavras. Na noite anterior ao seu regresso, quando meus pais promoveram uma reunião em família para a sua despedida, dei-me conta de quanto tempo eu perdi. Sara estivera conosco por metade de um ano e eu usei a maioria desse tempo para atacá-la, estratégia que adotei como minha própria defesa. Refugiei-me na varanda de nossa casa, em Miami, enquanto observava as ondas manifestarem seu louvor à noite enluarada. Uma mistura de tristeza e remorso revolvia minha mente, revivendo aqueles últimos meses de minha vida em pequenos flash backs. Sara cuidara do meu irmão caçula com um carinho quase de mãe, auxiliara meu pai no escritório da construtora, colocara-se ao lado de minha mãe durante a maior parte do tempo em todas as tarefas domésticas, servindo-a com humildade e dedicação, além de ainda encontrar tempo para nos dar aulas de português. Em troca eu apenas a provoquei... daria parte de mim para que o tempo pudesse voltar, para que eu ainda pudesse ter a oportunidade de encontrá-la novamente, ou até mesmo poder começar tudo de novo.
Como se minha prece fosse ouvida, Sara aproximou-se de mim, olhando-me com carinho.
__ Está feliz com minha partida, David? – ela perguntou com voz mansa, não com acusação, mas como se sentisse vontade de ouvir-me dizer que sentiria sua falta.
Enchi-me de coragem e confessei:
__ Daria parte de mim para poder voltar ao tempo e fazer tudo diferente, Sara. Não quero perder os poucos momentos que ainda nos restam juntos para tentar me desculpar pelas indelicadezas que muitas vezes fiz a você, mas espero realmente que não leve consigo uma má impressão de mim.
Como resposta Sara sorriu, acho que principalmente do tremor da minha voz. Justo eu, que me julgava um exímio Don Juan, não consegui disfarçar a ansiedade diante daquela menina-mulher tão esplêndida.
Entre constrangido e encantado, senti seu esbelto corpo se aproximar do meu, na penumbra causada pelas palmeiras que cercavam a propriedade, para então sussurrar ao meu ouvido:
__ Eu perdôo você.
Nada mais me impediria de manifestar meus sentimentos por ela, por isso não hesitei em envolvê-la pela cintura bem feita e tomá-la nos meus braços. Atrevida, Sara me beijou. O que senti foi indescritível, quase como um sonho. Um sonho que acabou na manhã seguinte, pois, ao acordar, Sara já havia partido.
Por dois anos nosso contato se resumiu a míseras cartas repletas dos relatos sobre sua vida, seu novo trabalho e sua faculdade de Psicologia, que eram endereçadas à família, onde meu nome só era mencionado no final. Ou em telefonemas mensais, dos quais eu só participava se tivesse a sorte de atender ao telefone quando o mesmo tocasse, caso contrário só ouvia minha mãe ou meu pai dizer após ela ter desligado:
__ Sara mandou-lhe um abraço.
Propositalmente ou não, Sara se vingava do meu tripúdio.
Seguindo os passos do meu pai, ingressei-me no mundo dos negócios, tornando-me seu braço direito na direção da nossa construtora. Cinco anos se passaram desde a partida de Sara e, nesse período, cheguei a viajar ao Brasil a negócios por duas vezes. Na primeira delas, esquivei-me de procurá-la, pois soubera através de minha mãe que estava comprometida com um político famoso. Aliás, desde que voltara à sua terra, Sara parecia não se ocupar com outra coisa além de relacionamentos fugazes. Até soube que se tornara garota propaganda de uma famosa marca de xampu (confesso que caí na tentação de assistir à campanha publicitária e me arrependi amargamente, pois seu sorriso e sua vivacidade só fizeram doer meu orgulho e meu coração), ampliando suas experiências, porém sem desistir da carreira profissional. Havia se formado em Psicologia no ano anterior.
Bom, na minha segunda viagem ao Brasil, especificamente ao Rio de Janeiro em uma conferência, cedi à tentação e telefonei à moça. Nesse único telefonema, conversamos mais do que em todos os outros após sua partida. Ela parecia a mesma de sempre, encantando-me com suas histórias engraçadas e enfeitiçando-me com seu sorriso contagiante. Pra a minha tristeza, Sara estava passando uma temporada na Amazônia, participando de um estudo com os índios da região, fato que tornou impossível marcarmos um reencontro.
Nada, porém, mudou após minha volta para casa. Em pouco menos de um mês eu tive notícias de que Sara estava engajada em mais um badalado romance, dessa vez com um famoso esportista inglês.
No início do ano seguinte fui para a Inglaterra em mais uma viagem de negócios. E durante essa minha ausência, aconteceu uma sucessão de fatos trágicos que mudaram para sempre a minha vida. E somente semanas depois é que fui me inteirar da nova realidade.
Eu participava de um simpósio onde apresentava minha tese de doutorado, em Canterbury, porém aconteceu um incidente no hotel onde estava hospedado. Enquanto os hóspedes estavam sendo transferidos para outra localidade, houve uma perda de comunicação, além de um eventual relapso da minha parte, uma vez que não contatei minha família, nem disse a ninguém o havia acontecido. Tal detalhe me custou muito sofrimento, pois, nesse espaço de tempo em que fiquei incomunicável, exatas duas semanas, perdi meus pais em um acidente de automóvel.
Segundo foi-me dito mais tarde, Bennet e Katryn iam de Miami para Palm Beach, em visita a parentes. Meu irmão Brian milagrosamente se salvou, enquanto a meus pais não sobrou tempo sequer para serem levados ao hospital. Por mais que me procurassem não conseguiram saber do meu paradeiro. Sendo assim, meu tio Jack, único irmão de meu pai, contatou Sara, que se prontificou a auxiliar em todos os trâmites necessários. Fora ela quem tomara conta do meu irmão nas horas mais difíceis, além de tentar, em vão, localizar-me.
Sara se deslocara até Londres, após uma informação equivocada da empresa pela qual eu viajava, fazendo tudo que lhe fora possível para me comunicar a terrível perda. Eu, no entanto, só pude ser consolado pelo seu imenso carinho e solidariedade quando parti feito um louco para o Brasil, um dia depois de retornar à Flórida. De acordo com uma decisão em conjunto, Brian seguiu com a moça para o seu país, depois que foram tomadas todas as providências legais para que o menino ficasse sob sua responsabilidade. Decisão mais do que acertada, e que também serviu de impulso para que eu admitisse o incontestável.
Não era somente Brian quem estava perdido e precisava de amparo. Descobri que minha vida sem Sara não tinha sentido, desde o primeiro olhar, desde as primeiras palavras, desde aquele primeiro beijo na varanda da nossa casa, na véspera de sua partida. Sara era meu rumo, meu chão, meu tudo, e o destino agora desastrosamente me jogava em seus braços.
Entre consolado e frustrado, descobri que ela sempre me amou, desde o começo, mas teve medo de dizer-me, o que não a culpo. Das dores sofridas tiramos nossas lições, comprometendo-nos um com o outro de tomarmos conta do Brian e de fazer com que cada dia fosse uma nova oportunidade.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Receita de felicidade


A amizade que nasceu entre mim e Ed era um sentimento superior e ultrapassava qualquer tipo de interesse particular. Tínhamos uma ligação única, complementar e até incomum. Ele era apenas um menino, com vinte anos. Eu tinha seis a mais. Nossas diferenças iam além da idade, pois vivíamos em universos que não possuíam muita ligação. Eu tinha acabado de montar uma pequena galeria de arte e ele se preparava para entrar na Faculdade de Direito.
Tudo começou quando nos conhecemos através de minha irmã caçula. Ambos eram colegas de colégio e também muito amigos, o que facilitou, em parte, nossa aproximação. Digo em parte porque, inicialmente, a impressão que Ed me causou não foi das melhores. Esqueci de dizer que o garoto possuía um dos mais belos sorrisos que eu já havia visto em minha vida, além de ser igualmente lindo e muito cativo. No fundo foram essas características que me impediram de aceitar uma aproximação. Não que ele tivesse tentado, afinal, o que mais me irritava em Ed era o fato de ele parecer não notar minha presença todas as vezes que acabávamos nos encontrando por intermédio de minha irmã, mas admito que tal implicância não passava de um forte ciúme em relação aos dois.
Grace tinha vindo morar comigo por um tempo, enquanto se preparava para a faculdade. Somos filhas de pais separados, e, como conseqüência, tornamo-nos independentes muito cedo e ela, alguns anos depois, acabou seguindo a sonhada carreira de repórter, atualmente viajando pelo mundo inteiro em busca de suas matérias. Não sei por quanto tempo exatamente durou esse antagonismo entre mim e Ed, mas me lembro muito bem quando a barreira foi rompida.
Ed e Grace formaram um grupo de estudos junto com mais dois colegas. De acordo com um cronograma montado entre eles, a reunião acabava acontecendo na minha casa ao menos uma vez por semana. Quando isso acontecia, eu procurava não atrapalhá-los, apesar de quase não haver necessidade de muito esforço, pelo fato de eu permanecer grande parte do meu tempo na galeria. Esqueci de mencionar que passava por um período difícil na minha vida, a saída do meu antigo emprego e a montagem do novo negócio haviam me cansado sobremaneira e, quase sem perceber, fui perdendo a capacidade de me relacionar com as pessoas. Não foram poucas as vezes em que fui apontada como antipática e grosseira, como se essas fossem características da minha personalidade.
Esse foi um dos fatores que me impediram de ver em Ed a pessoa maravilhosa que ele era.
Bem, seguindo o curso da narrativa, quero esclarecer o que realmente me fez abrir os olhos para a realidade e voltar a ser eu mesma. Uma encomenda foi entregue por engano na galeria, isso me causou um aborrecimento extra e acabei causando um vergonhoso escândalo com o entregador. Depois de esclarecido o impasse eu decidi voltar pra casa mais cedo, onde Grace e seus amigos assistiam a um filme. Era uma sexta-feira feira e eles decidiram relaxar um pouco após o horário de estudo. Estranhando minha presença em casa àquele horário, minha irmã me questionou o motivo e acabei relatando o ocorrido. Para minha surpresa a história foi motivo de gargalhadas entre a turma e, a partir de então, comecei a me envolver mais com o grupo devido aos comentários que sempre surgiam em relação ao incidente na galeria.
Foi nessa ocasião que eu e Ed começamos a conversar mais e então pude perceber que havia formado um conceito equivocado a seu respeito. Surgiu uma agradável amizade e, aos poucos, ele foi penetrando no meu mundo. Descobrimos que, ao mesmo tempo em que éramos diferentes, possuíamos muito em comum, a paixão pela arte era nossa principal semelhança. Algo que me surpreendeu bastante foi a maturidade que o garoto possuía, diferentemente da grande maioria dos jovens da sua idade, inclusive da própria Grace. Ed era filho único, mas trazia de berço uma educação invejável, o que, ao me ver, fora essencial pra transformá-lo num “adulto precoce”. Aos quinze anos fizera intercâmbio na Suíça, viagem que lhe rendeu uma louvável bagagem cultural.
Com o tempo minha irmã ingressou na faculdade em outra cidade, e Ed começou o seu sonhado curso de Direito, ali mesmo onde morávamos. Nossa amizade continuava sólida e o fato de ele ser uma pessoa muito popular e extrovertida em nada atrapalhava o nosso relacionamento, pois eu era prioridade no círculo de amigos que ele possuía. Trocávamos confidências, tínhamos nossos segredos e, apesar de vivermos nossos relacionamentos à parte, no fim de tudo sobrávamos sempre nós, pois parecíamos ter o dom de sermos mutuamente fracassados no campo amoroso.
Não sei ao certo quando os sentimentos entre mim e Ed começaram a mudar de estágio, mas a certa altura da minha vida comecei a ter sonhos eróticos com meu melhor amigo. Não sabia muito como lidar com a situação, mas comecei a olhá-lo com outros olhos e tive medo. A intimidade que há tempos compartilhávamos quase que ingenuamente, como tomarmos sorvete na mesma colher ou nos deitarmos na mesma cama enquanto assistíamos TV parecia agora me incomodar. Um terrível complexo de culpa me assolou, como se eu não tivesse o direito de violar o sentimento puro e sólido que havia entre nós. Era-me difícil conviver com essa nova realidade, mas procurava de todas as formas não deixar transparecer meu dilema interior.
O toque das mãos de Ed nas minhas, ou os beijos na face me causavam deliciosos arrepios. O cheiro másculo da sua loção pós-barba, a agradável fragrância da sua colônia, tudo estava impregnado nas minhas narinas durante a maior parte do meu dia. O vislumbre do seu musculoso peito nu quando ele tirava a camisa suada na minha frente, após o jogo de tênis no clube, fazia as minhas noites ainda mais torturantes. Quando saíamos de carro e ele, casualmente, roçava a mão na minha coxa enquanto trocava de marcha, era o suficiente para trazer à tona os sonhos que me faziam rolar na cama por infindáveis noites de insônia. A verdade é que eu não mais via Ed com os olhos de antes. A situação se complicou, porém, quando o simples fato de ouvir a voz do meu amigo já estava me afetando.
Fazia já um tempo que os meus sentimentos por Ed haviam mudado e, apesar do meu temor e desconcerto, continuávamos próximos como sempre e ele não demonstrava ter notado nenhuma alteração no meu comportamento. Numa sexta-feira chegaram alguns quadros novos na galeria, obras de um pintor italiano que se lançara recentemente no mercado da arte, e eu decidi retirar uma das pinturas para a decoração do meu apartamento. O quadro era muito grande e, só depois de um dos funcionários da galeria tê-lo deixado na minha sala, pude perceber que não conseguiria pendurá-lo na parede sem a ajuda de alguém que fosse mais forte do que eu.
Comentei com Ed pelo telefone e ele prontamente se dispôs a executar o trabalho para mim. No início da noite, após saborearmos uma pizza no chão da minha sala de estar, ele iniciou a tarefa. Perfurou o primeiro orifício na parede sem dificuldade, mas, para marcar o ponto exato da segunda perfuração sem causar dano, era necessária a minha ajuda. Como possuía um pouco menos de estatura que ele, arrastei a mesinha de centro até o local a fim de sustentar o enorme quadro enquanto ele empunhava a ferramenta no ponto certo. A proximidade de Ed há tempos já me causava sensações múltiplas, mas, naquele instante, eu temi perder o controle. O calor do seu peito nas minhas costas, sua respiração morna na minha nuca, o perfume familiar da colônia envolvendo os meus sentidos, tudo isso fez com que minhas pernas tremessem. Meus braços foram incapazes de sustentar o peso do objeto e eu o deixei escorregar lentamente até o chão. Como em transe, também lentamente eu desci da minúscula mesinha e me virei para ele, que continuava no mesmo lugar, sem manifestar surpresa. Só quando nossos olhos se encontraram é que descobri que Ed não era indiferente à minha atração e, sem trocarmos uma única palavra, ele me abraçou. Foi um abraço diferente de todos os inúmeros que já havíamos trocado antes e pela primeira vez eu me permiti abandonar no seu corpo. Nossas mãos se entrelaçaram como se fossem peças que haviam sido separadas, encaixando-se com perfeição, assim como o restante do corpo. O beijo que se seguiu foi mera conseqüência do amontoado de carícias sutis que havíamos iniciado. Juntos nos deixamos abandonar sobre o denso carpete, sem fazer segredo do que sentíamos um pelo outro. Quando ele gemeu meu nome sucessivas vezes, enquanto deslizava a língua ofegante pelo meu pescoço, eu descobri um novo homem, um novo Ed.
__ Elisa, Elisa... – ele repetia com a voz fraca e rouca de paixão.
Era como a colocação da última peça de um quebra-cabeça, e entendi que eu e Ed havíamos nascido um para o outro. Os fracassos amorosos pelos quais passamos nada mais eram do que a prova de que percorremos caminhos diferentes para finalmente nos descobrirmos. A amizade que nascera entre nós havia sido a base de um relacionamento que seria para toda a vida, eu acreditava nisso.
Desde aquele momento, não se houve necessidade de palavras para traduzir nossa descoberta: completávamos um ao outro. O que passamos a viver depois daquele início foi apenas a conclusão do que abarrotava nossos corações. O amor que nos unia nascera de forma singela, mas adquiriu seu ápice após nos descobrirmos como homem e mulher, como almas gêmeas.
Hoje eu e Ed comemoramos vinte e cinco anos de união, vinte e cinco anos de um casamento de sucesso. O amor que nos une é superior a todos os obstáculos pelos quais passamos no decorrer de nossa vida a dois. Vejo nossos filhos reunidos em torno da grande mesa do jantar de comemoração e lágrimas vêm aos meus olhos. Enquanto o mundo se dilui em relacionamentos mal sucedidos e a instituição casamento parece estar fadada ao fracasso, eu e Ed nos fortalecemos a cada dia. Fazendo um balanço da nossa vida posso concluir que passamos a nos amar justamente por termos tido a oportunidade de nos conhecermos a fundo. Ainda que uma união não passe pelas mesmas etapas que passamos, considero a amizade fundamental para o sucesso do casamento, independente da paixão que une duas almas.
A magia do amor que liga duas pessoas transcende os limites do compreensível, e ainda que se esteja no meio de uma multidão, os corações batem no mesmo compasso. A mensagem traduzida pelo olhar dos apaixonados diz mais do que uma infinidade de palavras. Eis, afinal, a nossa receita de felicidade.