segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Em busca da felicidade


Rafaela percorria a Rua Santa Maria com seu New Beetle verde metálico, aproveitando o meio de tarde com trânsito ameno para observar as ruas. “Meu apartamento”, pensou. Sorriu de si mesma, pois, na verdade, estava sendo pretensiosa. Sua tia lhe cedera o apartamento num bairro nobre da cidade, local onde morara antes de se casar com o tio Vincent. Portanto, não era dela.
__ Faz três anos que o imóvel está desocupado, Fá – a tia dissera, na tentativa de encorajá-la a vir para Montes Claros. – Sempre tive um apego a ele, por isso não cedi para locação. Se você aceitar minha proposta, vai estar me fazendo um grande favor, ou seja, cuidando do apartamento pra mim.
Rafaela sabia: era só uma artimanha que a irmã de sua mãe estava utilizando, mais para convencer Elza a deixá-la vir do que propriamente para tentar fazer ela própria tomar coragem de dar esse passo. Pois se havia uma pessoa que sabia o quanto ela desejava mudar de cidade, “criar asas”, era sua tia.
Arrumou os óculos que teimavam em escorregar sobre o nariz suado. Nem a leve brisa que entrava pelas janelas era suficiente para amainar o calor que assolava a cidade naquela tarde de verão. Mas ela, decididamente, não estava reclamando. Amava Montes Claros. Passara grande parte da sua infância ali e sempre cultivou o desejo de morar e fazer carreira no local responsável pela maioria das boas lembranças que carregava da sua curta vida.
“Rua São Paulo”, conferiu mentalmente pela enésima vez e virou suavemente à direita. Estava ansiosa. Só começaria o trabalho dali a dois dias, mas precisava organizar tantas coisas até a manhã daquela segunda-feira. Prometeu-se a si mesma que naquela noite de sábado iria ao shopping renovar seu guarda-roupa, afinal, não poderia começar seu estágio na Pousada Belos Montes vestida com simplicidade. No domingo, bem, no domingo não queria se preocupar com outras atividades. Queria ir à igreja reencontrar os amigos que há tempos não via. E os membros da família que ali moravam ela teria muito tempo para visitar-lhes.
Seu coração bateu mais forte quanto estacionou o pequeno automóvel, mais um dos tantos caprichos que a tia preferida lhe satisfizera, na vaga da garagem. Retirou as poucas bagagens (somente uma mochila e uma nécessaire) e se dirigiu ao elevador. Seus outros pertences já haviam sido enviados há dois dias, uma das amigas lhe fizera a gentileza de organizá-los no espaçoso apartamento.
Uma cobertura! Ai, que saudades que ela sentia daquele lugar. De repente, ao adentrar pela pomposa sala de estar, lembranças das brincadeiras de infância, nas quais a maioria a prima Déborah estava presente, inundaram sua mente. Há quanto tempo estivera naquele lugar? Uns quatro anos, pensou. Da cozinha até parecia vir o aroma apetitoso de bolo de cenoura com calda de chocolate...
Rafaela sacudiu a cabeça, espantando as lembranças. Seus olhos já estavam rasos d’água, precisava aproveitar o pouco tempo antes de começar a nova etapa de sua vida, não podia se ocupar revivendo momentos que lhe eram tão preciosos. Afinal, tinha a vida inteira para rememorá-los.
Com um sorriso no rosto dirigiu-se à estante, onde, juntamente com alguns artigos de decoração, ainda estava um porta-retrato de sua tia. Contornou o semblante sorridente com o indicador. Às vezes era pega de surpresa ao tentar lembrar o nome da tia. Sorriu de si mesma. Ela fora sempre tão presente na sua vida, assim como na da maioria de seus primos, que parecia não ter mais nome. “Tia” passara a ser algo mais que um título de parentesco, era quase como “mãe”.
Dirigiu-se até o sofá de couro cor de marfim, percorreu os olhos por todo o interior e notou que estava tudo limpo e arrumado. A tia era realmente muito zelosa, afirmou-se intimamente. Casara-se tardiamente, tivera a sorte de encontrar seu grande amor no auge dos seus trinta e três anos, três anos atrás, mas não tivera filhos. Era como se os sobrinhos, dos quais sempre cuidara com amor de mãe, lhe fossem destinados como consolação. E tio Vincent parecia partilhar da mesma generosidade. Fora ele quem lhe oferecera o estágio na Pousada Belos Montes, da qual era proprietário, auxiliando grandemente na realização de seu sonho: sair daquela cidadezinha insossa e conquistar o seu próprio espaço.
Para tanto, seria necessário transferir seu curso de Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas, ainda inacabado. Há cerca de seis meses tio Vincent fizera o convite, dando-lhe provas de que não era somente um “ajeito”, uma generosidade, pois a empresa estava realmente precisando de uma nova funcionária no setor. Levara algum tempo para decidir abraçar a proposta sem reservas, o primeiro passo tinha sido a tentativa de transferência para uma faculdade em Montes Claros. E o resultado da prova saíra há exatas duas semanas, tempo que aproveitara para acertar os últimos detalhes. O trabalho na pousada seria no período da tarde e o curso na faculdade seria à noite, o que lhe dava todas as manhãs disponíveis para organizar sua vida. E dormir, pensou sorrindo. Adorava levantar tarde e há tempos não gozava desse privilégio.
Sentiria realmente falta de Candiba, afirmou-se. Mas era tão perto que, quando a saudade batesse mais forte, poderia fazer uma visita de dois dias, abraçar a mãe, o pai e o irmão, rever os amigos e a família e retornar à sua nova casa. Ela nem mesmo sentira dificuldades de vir sozinha pela primeira vez, gabou-se, até mesmo por já feito esse percurso várias outras vezes com a família.
“Vai dar tudo certo” disse em voz alta.

Nem bem organizara o que era mais urgente para adaptar-se à nova vida e já chegara a segunda-feira. A manhã passou voando, quase não lhe dando tempo para pensar no que encontraria pela frente. Ao estacionar o New Beetle à sombra dos altos eucaliptos, contemplou a paisagem paradisíaca. De repente seu coração acelerou.
Mesmo depois de muito já ter conversado com tio Vincent acerca do cargo e do período que certamente levaria para se adaptar, sentiu medo. Como se somente agora tivesse noção da responsabilidade que lhe era colocada sobre os ombros. Jamais tivera medo de batalhar, pelo contrário, era criança ainda quando realizava tarefas muitas vezes próprias de adulto, como cuidar de assuntos relativos ao trabalho de sua mãe.
Alisou nervosamente o tecido delicado da saia evasê cor de pistache, que lhe chegava até quase os tornozelos. Escolhera uma camiste branca, de bordados delicados na lapela, para suavizar a austeriade do figurino. Prendera os longos cabelos cor de mel num coque clássico, aumentado uns oito anos a mais na sua verdadeira idade, pois os inseparáveis óculos de aro dourado já lhe auxiliaram bastante nessa tarefa.
Respirou fundo, ajeitou a bolsa de couro de avestruz sobre os ombros elegantes e caminhou com firmeza e autoconfiança até a recepção da pousada. Ana Carolina estaria á sua espera, para orientá-la.
Rafaela sentiu os temores se amainarem após alguns minutos de conversa com a simpática funcionária de quem seria assistente nos próximos meses, até estar apta para assumir o cargo em definitivo. Era uma moça morena, na casa dos seus trinta e poucos anos, elegantemente vestida em um tailler rosa opaco que se movimentava com agilidade por entre as pessoas que iam e vinham no luxuoso saguão da pousada. Foi nesse instante que seus olhos o contemplaram.
A cena pareceu desenvolver-se em câmera lenta sob seus olhar. Ele ultrapassou a ampla porta de vidro, cumprimentando o funcionário que ali estava a postos para receber os clientes com um sorriso magnífico. Dirigia-se à recepção com passos elegantes e firmes. Trajava um terno cinza-claro, de corte perfeito, e tinha nas mãos uma valise. Deveria ser um cliente assíduo, Rafaela concluiu em segundos, a julgar pela familiaridade com que se dirigia às pessoas pelas quais passavam.
Na inocência onírica dos seus mal completos dezenove anos, imaginou-o observando-a de alto a baixo, apreciando seu porte elegante e seu bom gosto na escolha do traje. Mas nem bem completara o delírio romântico, ele passou direto por ela e se dirigiu à colega, cumprimentando-a educadamente com um sorriso simpático. Ainda que Ana Carolina pretendesse apresentá-los um ao outro não tivera oportunidade, pois o estranho dissera em tom jocoso:
__ Ana, querida, faça um grande favor pra mim. Acabei de chegar de viagem e estou meio apressado, procure a dona do carro da Barbie estacionado na minha vaga preferida e convença-a a trocar de lugar, pode ser? Aposto que é a primeira patricinha com vestido rosa-choque que você avistar por aí.
Involuntariamente seus olhos ficaram rasos d’água. Nunca ninguém jamais fizera tão prévio conceito de sua personalidade, julgando-a através do carro que possuía. Tá certo que muitos dos seus amigos brincavam nesse sentido, chamando seu querido New Beetle de “carro da Barbie”, mas era uma forma até carinhosa de elogiar seu presente de aniversário de dezoito anos, que escolhera com demasiada minúcia.
Queria revidar, mas suas pernas não saíam do lugar. E antes que a colega, desconsertada, manifestasse alguma explicação pelo mal entendido, alguém chamou de perto dali:
__ Doutor Dominick!
O rapaz dirigiu a atenção para um senhor de meia idade que acabara de sair do elevador e, em poucos segundos, os dois já se dirigiam à área externa da pousada, conversando com descontração sobre assuntos de negócios, algo sobre uma suposta reunião com os membros da diretoria de uma certa empresa. Quando Ana Carolina dirigiu-lhe um olhar constrangido, ela rebateu como forma de vingança tardia:
__ Apenas diga a ele que você não conseguiu encontrar nenhuma patricinha de rosa-choque num raio de quilômetros. E pra lhe ser franca, independente de ele ser um dos mais fiéis hóspedes da pousada, eu me recuso a tirar meu carro de onde estacionei. Afinal, lá não tinha nenhuma placa de aviso.
A moça apenas deu de ombros e, por um instante, Rafaela imaginou-se sendo despedida no seu primeiro dia de trabalho. Certamente tio Vincent não a protegeria, caso se desentendesse com um dos finos hóspedes da Pousada Belos Montes. Poderia estar causando um transtorno ao seu tio, mas manteve a decisão. Recusava-se terminantemente a ceder aos caprichos daquele doutorzinho de meia tigela. Estremeceu ao lembrar da beleza e da força que emanavam do estranho. Idiota, idiota, idiota! Por que os mais lindos homens eram também os mais prepotentes? Que ódio! O miserável quase conseguira estragar seu dia.

No final da tarde, quase não se lembrava mais do desagradável episódio com o Doutor Estranho. Após a reunião com tio Vincent, que graças a Deus nada mencionara sobre o ocorrido (prova de que nada lhe chegara aos ouvidos), Rafaela dirigiu-se ao estacionamento. Estava louca por um banho, por um filme e por uma pizza, com direito a sorvete de sobremesa. Suas aulas na faculdade só começariam na semana seguinte. Durante toda a tarde cumprira a tarefa de contatar seus familiares, prometendo uma visita para assim que possível. Mas naquele seu primeiro dia de trabalho, apesar de ter adorado tudo, independente do fiasco do começo da tarde, queria privacidade. Para rememorar as responsabilidades que lhe foram delegadas, para descansar da tensão emocional que julgava ser natural diante do novo, para se esvaziar do estresse causado pelo malfadado encontro com o bonitão preconceituoso.
Mas não tivera tempo de regozijar-se. Assim que o local onde estacionara o carro no início da tarde apareceu sob seu campo visual, sentiu um enorme desejo de gritar. Alguém estacionou um Tucson preto atrás do seu delicado New Beetle. Antes que cogitasse a possibilidade de ter havido algum grotesco engano por parte de algum apressadinho, que certamente desejava sair antes que o dono do carro presente na vaga do estacionamento retornasse, viu-o sair de dentro do automóvel, prepotente quando o ouvira pela primeira vez. Contou até dez para não cometer o despautério de gritar, espernear e esmurrá-lo no peito, o que certamente reforçaria a ideia que ele tivera dela, sem ao menos conhecê-la.
__ Estive à sua espera, madame – ele começou, não disfarçando a surpresa de constatar que não se tratava de uma patricinha de vestido rosa-choque.
Mil palavras se passaram pela cabeça de Rafaela, mas ela não conseguiu verbalizar uma sequer. Odiou-se por isso. Após alguns segundos praticamente paralisada à frente do prepotente doutorzinho de meia tigela, decidiu entrar no carro, sentindo-se impotente.
O sol se punha entre os montes, colorindo a paisagem com uma sombra dourada, o que camuflou o leve rubor de suas faces morenas. O gato comera sua língua, droga? Por que se sentia tão muda diante daquele deus grego? Seria hipnose?
A longas penas, consegui entrar decentemente no minúsculo espaço do veículo, acomodando as pernas trêmulas com muita dificuldade, mas finalmente conseguiu dizer, disfarçando o tremor da voz:
__ Da próxima vez que não quiser que uma Barbie se aposse de sua vaga, tome o cuidado de deixar a placa com seu nome bem visível. Meus poucos neurônios podem me impedir de assimilar essa informação.
Em resposta ele gargalhou. E que belos dentes! Céus, ele era perfeito! Mas Rafaela sentiu medo de que ele se recusasse a sair para lhe dar passagem. Não saberia o que fazer, caso isso ocorresse. Seus medos, porém, caíram por terra gradativamente, quando o viu finalmente entrar no pomposo Tucson preto reluzente e dar a partida. Saiu cantando pneus.
__ Prepotente, prepotente, prepotente! – desabafou, esmurrando o volante.
Recompôs-se em alguns minutos e tomou a direção leste da cidade, finalmente indo pra casa.

O resto da semana transcorreu tranquilamente, e, caso o Doutor Prepotente fosse realmente hóspede assíduo da Pousada, naquela semana havia faltado. Talvez estivesse viajando, Rafaela pensou, lembrando de tê-lo ouvido mencionar, na segunda-feira, estar chegando de viagem.
“Droga, por que não tiro ele do meu pensamento?”, recriminou-se. Não era honesto da sua parte estar se lembrando dele com tanta frequência, principalmente depois dos dois malfadados encontros.
No que dizia respeito ao trabalho, porém, tudo estava maravilhoso. Rafaela estava amando trabalhar na pousada, tio Vincent sempre lhe encorajava com elogios e reconhecimentos sinceros sobre seu desempenho e os colegas eram uns doces de pessoas.
No domingo seguinte se preparou pra ir à igreja, consciente de que seria o único da semana que poderia participar dos cultos, pois, na semana que se iniciava, começariam suas aulas na faculdade.
O vestido vermelho, de pala bordada com madrepérolas, caiu-lhe perfeitamente no corpo esbelto. Nunca fora convencida, mas naquele instante olhou-se no espelho e sentiu-se uma princesa. Sorriu para a imagem refletida. Naquela noite, após o culto, sairia com os amigos. Samuel propusera uma rodada de pizza, mas o mais agradável seria o encontro em si. Estava precisando de animação.
Chegou adiantada, pois detestava atrasos. O estacionamento ainda estava quase vazio, então procurou um jeito de acomodar seu New Beetle numa das vagas mais privilegiadas do pequeno espaço ao lado da igreja. Involuntariamente lembrou-se do episódio de segunda-feira e sorriu.
Sentou-se na primeira fila, seu lugar preferido. Assim sua atenção não seria desviada facilmente. Adorava aquele lugar.
Quase duas mais tarde saía do templo, já se dirigindo ao terraço para reencontrar os meninos e combinarem com detalhes o programa de logo mais. Foi a primeira a chegar, mas, por um instante sentiu o coração acelerar. Tinha um Tucson preto bem ao lado do seu carro. Seria coincidência ou estava tendo miragens? Não podia ser...
__ Você parece se empenhar muito na tarefa de roubar minha vaga preferida no estacionamento – a voz familiar, só que dessa vez desprovida de qualquer deboche, soou firme a poucos metros de si.
Rafaela virou-se demoradamente, temendo decepcionar-se ao constatar que estava imaginando coisas. Não estava... era ele!
__ E você parece se empenhar na tarefa de me perseguir! Eu já te disse que, antes de reclamar a vaga como sendo sua, coloque a placa – sua voz também soou desprovida de irritação.
Era um recomeço e ela confessou-se estar muito feliz por encontrá-lo em outras circunstâncias.
__ Samuel me contou que estão programando alguma coisa pra esse fim de noite, posso me juntar a vocês?
__ Desde que você não se incomode com o fato de eu estacionar meu carrinho da Barbie no melhor lugar, será bem vindo ao nosso meio.
Dominick sorriu. Um sorriso puro, nada irônico nem prepotente. Rafaela teve a certeza de que aquela era a sua real essência. Olharam-se demoradamente, um olhar que não precisava de palavras, pois, por si só, já era cheio de significados. Algo lhes dizia, aos dois, que a partir daquela noite o carrinho da Barbie e o imponente Tucson estariam quase sempre estacionados lado a lado.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sombras do Passado


Ela tinha o pé esquerdo apoiado na altura do joelho direito e o quadril recostado na pia. Lágrimas ardentes e incontidas escorriam-lhe pelo rosto, causando-lhe um enorme esforço para tentar permanecer com os olhos abertos ao menos por um tempo mais prolongado. Droga, como era mesmo o truque que havia aprendido no programa de culinária, sobre como descascar cebolas sem afetar os olhos?
De onde estava podia ouvir o barulho da TV ligada na espaçosa e iluminada sala, onde Nicholas assistia às aventuras do Pica-Pau sem desviar os olhos do monitor. Ieda sorriu. O filho certamente herdara dela o gosto pelo desenho animado, tão antigo que fizera parte de sua própria infância. Conferiu as horas. O jantar ficaria pronto mais cedo do que imaginara.
O som do interfone interrompeu sua árdua tarefa, então secou os olhos rapidamente com um guardanapo de papel e se dirigiu à porta, após notar que o garoto já havia atendido o aparelho que ficava na copa.
__ Senhora Ieda Santana de Brito?
Um homem de terno escuro estava parado a poucos metros, com uma maleta na mão direita. Fazia tanto tempo que ouvira seu nome mencionado por inteiro que sentiu um leve tremor percorrer-lhe a espinha.
__ Em que posso ajudar? – respondeu com a voz levemente trêmula.
O homem avançou dois passos e estendeu-lhe a mão:
__ Sou advogado do seu marido e gostaria de conversar com a senhora por um instante.
Ieda sentiu as pernas bambearem e as vistas se escurecerem por uma fração de segundos, apoiando-se no batente para não cair. Olhou instintivamente para a sala onde Nicholas continuava em frente à TV, alheio à sua conversa.
__ O senhor não se incomodaria em conversarmos aqui fora? – ela pediu quase num fio de voz.
Estranhamente o homem pareceu compreender seu temor, anuindo com um gesto educado.
__ Eu sinto informá-la, senhora, mas faz seis meses que seu marido sofreu um acidente e veio a falecer, uma semana após a tragédia. Sou o responsável pelos negócios da família e estou aqui a pedido da senhorita Georgina de Pádua.

Ieda avançou mais alguns passos trôpegos, já quase sem forças. As mãos inescrupulosas de Edmundo a soergueram violentamente, jogando-a contra a parede. Por que ninguém aparecia? Por que o estacionamento estava vazio, mesmo sendo pouco mais de sete da noite? E onde diabos estaria o porteiro? Lágrimas grossas escorriam pelo seu rosto, lembrando que a maioria das famílias daquele condomínio, a esta hora, estavam reunidas no aconchego de suas salas, rodeadas de calor humano.
Lembrou-se da mãe. Ela certamente não sabia o inferno em que sua vida havia se transformado, desde que Edmundo demonstrara sua verdadeira identidade: um monstro.
__ Aprendeu como deve se comportar de agora pra frente? – a voz gélida e acusadora penetrava nos seus tímpanos causando arrepios na alma.
__ Eddie, eu não...
__ Não se faça de santa, Ieda, eu vi a forma como você olhou pro Gustavo mais cedo, quando estávamos conversando no portão da casa de mamãe! – o marido berrou.
Quando foi mesmo que Edmundo se mostrava violento pela primeira vez? Ieda não se lembrava mais, porém devia fazer um século. Olhou para os dedos trêmulos das mãos, dos quais um deles, o indicador esquerdo, estava fraturado desde a semana passada e ela não tivera coragem de procurar o hospital. Do nariz começava a jorrar um esguicho fino de sangue, mas nem assim Eddie se compadeceu. Ele nunca se compadecia.
Num lapso de selvagerismo, Ieda avançou sobre ele e o derrubou, correndo em direção ao portão em busca de liberdade. Mas sua atitude só servira para deixar a fera ainda mais zangada, pois mal havia atravessado a avenida quando ele a alcançou. Os gritos desesperados de sua luta pela sobrevivência atraíram a atenção de um transeunte, que veio ao seu socorro. Mas ele também não possuía forças suficientes para enfrentar o corpo musculoso e brutal de Eddie, que o jogou ao chão em questão de segundos.
Novamente sob o jugo do marido, Ieda retornava ao condomínio de luxo, sabendo que certamente aqueles seriam seus últimos minutos de vida. Aquele comportamento doentio havia se transformado numa ferida cancerígena, consumindo o pouco de sentimento que ainda lhe restava por ele. Parou de lutar, talvez a morte seria o melhor remédio. Momentaneamente conformado com sua passividade, Edmundo a guiou através do estacionamento ainda deserto, segurando-a violentamente pelos pulsos cruzados sobre as costas, demonstrando sua condição de prisioneira.
Ieda parou de chorar, assim como havia cessado de lutar. Abandonou o desejo de entender por que Eddie agia daquela maneira. Lembrou-se das diversas visitas ao psicólogo e em quanto aquilo prejudicara ainda mais o comportamento doentio do marido.
__ Não sou homem de viver sob conselhos de um doutorzinho metido a sabichão – ele dissera após a primeira e única ida ao Doutor Eduard.
O elevador alcançara o último andar do luxuoso prédio e Ieda se viu diante do momento decisivo de sua vida.
__ Agora você vai entrar e me preparar o jantar, pois hoje eu tive um dia infernal no trabalho e você conseguiu transformá-lo num verdadeiro caos – Eddie bradou, aliviando-lhe a pressão sobre os pulsos enquanto abria a porta. – E se me fizer perder a paciência de novo, não vou responder por meus atos, Ieda. Estou a um passo de acabar com sua vida, sabia?
Aterrorizada, Ieda olhou para dentro do apartamento. Edmundo entrara, esperando que ela fizesse o mesmo, mas algo lhe dizia que, se entrasse por aquela porta, não conseguiria mais sair. Lembrou-se instantaneamente do irmão.
__ Eu não posso arrastá-la de lá à força, mas me coloco ao seu dispor para quando tomar uma decisão. – Victor havia dito no último encontro.
Como em câmera lenta, ela viu o marido entrar em casa, começando a despir-se já na sala, enquanto ela continuava paralisada do lado de fora, diante da porta aberta. Eddie olhou para trás, enquanto se livrava da calça, indagando com desdém:
__ Vai ficar aí parada admirando o porte atlético do seu marido, benzinho? – E, diante do seu silêncio, determinou: – Entre e tranque essa maldita porta!
Monstro!
Confiante de que ela entraria em seguida, sem revidar, submissa feito um cordeiro (e essa foi a sua salvação), ele se dirigiu ao quarto decidido a tomar um banho enquanto Ieda, como sempre, lhe prepararia o jantar. E depois aprontaria a roupa que deveria usar no dia seguinte, no trabalho. E depois do jantar, quando fossem pra cama, Eddie viria cheio de mimos, com uma bolsa de gelo para aplacar-lhe os hematomas que se levantavam vergonhosamente sobre o rosto outrora tão lindo e jovial. E pediria perdão, e choraria até. E prometeria que jamais a machucaria novamente, e diria que a amava mais do que tudo na vida. Mas também a lembraria de que se tornara um homem violento por amá-la demais e por ter medo de perdê-la, e por se ver ameaçado diante de qualquer risco de perder ao menos o seu olhar e sua atenção. E então se irritaria novamente, e a acusaria de infidelidade. E a culparia, e o círculo se recomeçaria...
Sem pensar mais que uma vez, munindo-se de uma coragem que jamais imaginara ter, Ieda puxou a porta com força e trancou por fora, para depois jogar a chave por baixo, fazendo o objeto escorregar ruidosamente sobre o piso de granito. Saiu em disparada, pois com sorte encontraria o elevador ainda vazio.
Mas a porta do elevador mal acabara de se fechar quando ouviu os gritos ensurdecedores do marido, proferindo uma série de palavrões no corredor quando viu que ela o havia contrariado. Seu coração saltava descompassado dentro do peito, mas o medo servia como impulso para prosseguir. Mesmo que Eddie a seguisse, ainda teria tempo de alcançar socorro na rua. Atravessou a avenida ainda movimentada, sem coragem de olhar pra trás pra ver se ele a seguia. Em minutos alcançou um telefone público, onde topou com um homem que lhe ofereceu ajuda.
__ Eu preciso dar um telefonema urgente – ela explicava, tropeçando nas palavras.
Como se entendesse a situação de perigo, o homem postou-se um pouco à frente, camuflando seu pequeno corpo e, dessa forma, protegendo-a de um possível ataque. Talvez fosse um anjo, Ieda pensou.
__ Eu vou buscá-la, desde que aceite minhas condições – Victor dizia ao telefone. – Ieda, você precisa me prometer que, a partir do momento em que eu a colocar no meu carro e você virar as costas pro seu marido, vai fazer o que eu ordenar. E mesmo que sinta o desejo de retornar, eu não vou permitir. Está me entendendo?
Ieda concordava com tudo. Demorara tempo demais para aceitar o auxílio do irmão.
Em menos de vinte minutos Victor chegou, com suas duas crianças um tanto assustadas no banco traseiro do furgão. Viera diretamente da pequena fábrica que possuía.
Após se jogar nos braços protetores do irmão, Ieda explicou-lhe os últimos acontecimentos, enquanto ele se dirigia ao apartamento ao menos para buscar umas peças de roupas e seus documentos.
__ Vocês possuem arma em casa? – Victor quis saber.
__ Não.
__ Então você me espera aqui enquanto subo e busco as coisas mais necessárias – ele determinou.
__ Victor, cuidado – Ieda ainda pediu, num fio de voz.
O irmão olhou para trás, com o semblante cansado e disse:
__ Ele não é homem suficiente pra tentar fazer comigo o que vem fazendo com você há tempos.
Ieda agradeceu aos céus por ter um irmão tão comedido e calmo, incapaz de querer fazer justiça com as próprias mãos.
Enquanto esperava pelo retorno de Victor e ouvia as conversas animadas das duas crianças, alheias ao seu sofrimento, Ieda observou o prédio. Viu quando Eddie saiu na sacada, apoiando-se na amurada e observando a rua. Todos os sentimentos que um dia nutrira por ele faziam parte do passado. Parecia um estranho.
Victor estava de volta e ela não ousou perguntar o que houve lá dentro. Mas após se afastarem do local, acompanhando o trânsito fluente, ele explicou:
__ Eu simplesmente entrei e peguei suas coisas, e aquele canalha não foi homem de me dizer uma só palavra. Ele é um doente, Ieda!
O amparo que encontrou na casa de seu irmão era o que mais necessitava naquele instante. E quando o ouviu conversar com a irmã mais velha pelo telefone, explicando, entre lágrimas, que já conseguira resgatá-la com vida, Ieda chorou, emocionada por perceber que sua família estivera a postos o tempo todo, esperando somente uma iniciativa de sua parte para salvá-la do inferno em que se metera.
Mais tarde da noite Eddie ligou, como era de se esperar. Mas como havia determinado, Victor não permitiu que ele falasse com a esposa. Ieda pôde ouvi-lo, do quarto das crianças onde estava vendo TV:
__ Ainda que ela quisesse falar com você novamente, seu cafajeste, eu não permitiria. Saiba que de hoje em diante minha irmã está proibida de lhe dirigir a palavra, assim como não vou permitir que você se aproxime dela. Tente alguma coisa que você vai se arrepender amargamente por ter nascido, seu covarde desgraçado!
No dia seguinte, após uma longa noite de conversa com seu irmão e a esposa, e ciente de que estava diante de um recomeço, Ieda acompanhou Amanda, sua cunhada, até a casa dos pais dela. Era sábado e Victor trabalharia até por volta do meio dia, mas prometera retornar ao apartamento para pegar o restante de suas coisas.
__ Não vá se meter em briga – Amanda pedira, preocupada.
__ Eu quero somente a vida da Ieda de volta, e vou deixar bem claro a Edmundo que não vou permitir nenhuma tentativa de reaproximação.
Era início de noite quando decidiram retornar. Victor havia chegado à casa dos sogros já no meio da tarde. Ele e Ieda sentaram-se no portão enquanto conversavam demoradamente sobre os acontecimentos.
__ Você fica comigo por um tempo, depois a gente se ajeita – o irmão falou-lhe, cheio de zelo e proteção.
Explicara-lhe que o encontro com Edmundo, no início daquela tarde, havia sido muito estranho.
__ Ieda, se eu não tivesse visto as marcas da violência no seu corpo, diria que está mentindo – Victor estava totalmente intrigado. – Edmundo é um doente, agiu comigo como se fôssemos velhos amigos e em nenhum momento mencionou o que tem feito a você desde a primeira briga. Tratou-me com uma educação extrema e ainda teve a ousadia de me dizer que pretende vir vê-la amanhã.
Ieda tremeu ante tal possibilidade. Mas, para seu acalento, Victor continuou:
__ Eu propus um acordo a ele. Pedi que não mais se aproximasse de você que eu deixaria de lado o que lhe fez e não abriria um processo contra ele.
Mas toda a sua segurança minara quando voltavam para casa. Em meio à rua movimentada de fim de sábado, Edmundo ultrapassou-os no trânsito, de motocicleta, feito um louco, gritando seu nome e forçando Victor a encostar o carro. As crianças ficaram aterrorizadas, mas, para o alívio de Ieda, Victor se manteve firme, lutando de todas as formas para não perder o controle da direção. Como em uma cena de filme de suspense, ela o observava através do vidro. Até a escolha da camisa, uma azul que ela dizia que lhe ficava ótima todas as vezes que ele usava, era uma estratégia louca de atrair sua atenção. Só então ela se deu conta de como caía, todas as vezes, feito um patinho nas artimanhas diabólicas de Edmundo. E agora que ele sentia que estava perdendo o controle, apelava para seu sentimentalismo. Não funcionaria mais, prometeu-se, nunca mais.
A noite teve desfecho na delegacia, onde Victor a levara para fazer o BO e prestar queixa contra o cunhado. Foi humilhante para Ieda ouvir a policial atendente dizer ao seu irmão:
__ Se quer um conselho, deixe este caso de lado. Em 99% dos casos de queixa de agressão à mulher, os familiares sempre saem perdendo, pois elas voltam atrás e se reconciliam com seus companheiros.
__ Eu não vou deixar que isso aconteça – Victor fora categórico.
No retorno para casa, outro pesadelo. Bilhetes com ameaças foram jogados por debaixo da porta e Victor se viu na obrigação de tirar a irmã da cidade o mais rápido possível.
__ Amanhã bem cedo você irá pra São Paulo, tenho um amigo em quem confio e que pode lhe proporcionar a oportunidade de recomeçar sua vida. E de qualquer forma estarei aqui, pronto pra te socorrer.
Onze anos se passaram e Victor mantivera a promessa. Edmundo jamais tivera acesso ao seu paradeiro e, não sem dificuldades, Ieda se viu restaurando sua vida com o auxílio da família e das pessoas com quem fizera amizade.

Ieda estacionou o Outlander preto sob a sombra do pé de acácia. Abaixou o vidro, conferiu o endereço rabiscado num papel com a letra mal feita do advogado. Era ali.
Alisou o vestido de seda com esmero, respirou fundo e se dirigiu à imponente casa. Uma mocinha uniformizada atendeu-a, acompanhando-a até uma espaçosa e bem decorada sala de estar, de onde se podia admirar a paisagem maravilhosa que se descortinava em volta da propriedade.
Alguns minutos se passaram até que ela aparecera. Era jovem, bonita, mas com um semblante melancólico. Ieda se levantou, as dúvidas fervilhando em sua mente.
__ Georgina de Pádua? – indagou, estendendo-lhe a mão.
A pele suave e frágil era fria e Ieda estremeceu só de pensar no que Edmundo poderia ter feito à moça.
__ Você é tão bonita como nas fotografias – ela comentou com a voz firme contrastando com a aparência frágil, analisando-a da cabeça aos pés e fazendo sinal para que se sentasse.
__ Eu sinto muito pelo que aconteceu ao Eddie – respondeu com sinceridade.
Georgina emitiu uma gargalhada irônica, para depois dizer:
__ Realmente estou surpresa por ter se deslocado até aqui pra me transmitir seus pesares.
__ E eu realmente não me desloquei até aqui para lhe transmitir meus pesares – Ieda revidou com firmeza.
__ Posso ver em seus olhos que está se corroendo em piedade pela minha pessoa, Ieda Brito – a outra demonstrava uma maturidade muito além da idade que aparentava ter.
__ Ieda Santana – ela corrigiu, pois há onze anos se negava a usar o sobrenome de Edmundo, mesmo sem ter se divorciado.
Georgina se levantou com elegância e se dirigiu até a ampla vidraça que expunha toda a beleza dos arredores da casa.
__ Muito nobre da sua parte se preocupar comigo, Ieda, vejo isso em seus olhos. Mas se isso te consola, Eddie nunca me causou nenhum dano... físico – disse enquanto permanecia de costas para ela, com o olhar perdido lá fora.
Ieda respirou aliviada, apesar da tristeza de concluir que os “tratos” de Edmundo haviam sido exclusividade sua.
__ Georgina, eu realmente sinto muito pela morre de Eddie, mas fico muito tranquila em constatar que ele conseguiu se restabelecer – Ieda se levantou, determinada a fazer o que realmente tinha planejado, quando decidiu conhecer a mulher com quem Eddie havia passado seus últimos anos de vida.
Georgina permaneceu de costas, o olhar ainda perdido na paisagem.
__ Eu decidi procurar você porque não quero aceitar o dinheiro – disse, por fim.
Georgina então e virou lentamente.
__ Era o que ele queria – respondeu.
__ Nada do que pertenceu ao Eddie me diz respeito. No momento em que o abandonei, abri mão de tudo e não quero na minha vida sequer as sombras do passado.
__ Então por que não abriu mão do Nicholas? – a outra desferiu com firmeza, sem qualquer tom de acusação, porém.
Ieda sentiu as pernas fraquejarem e um aperto do coração. Sentou-se novamente no assento de couro, levando inconscientemente a mão ao peito como que para aplacar as batidas descompassadas do coração.
__ Como soube...?
__ Eu conheci o Eddie seis meses depois da sua partida – ela começou, serena. – Estava um trapo. Apaixonei-me incondicionalmente, e com o tempo ainda mais, mesmo sabendo que ele jamais poderia me oferecer o amor que sentia por você. Nossa casa era um verdadeiro santuário à sua memória, onde quer que eu fosse, sua imagem estava estampada a me observar. E quando Eddie me tocava, era o seu nome que ele murmurava.
__ Eddie era doente, Georgina – Ieda conseguiu dizer, triste por constatar como o marido havia sugado a vida daquela jovem.
__ Não sinta pena, Ieda – a mulher desafiou-a com o olhar, como se lesse seus pensamentos. – Aceitar que Edmundo transferisse todo o amor que sentia pela sua alma para o meu corpo foi escolha minha e eu fui feliz.
Georgina era uma louca, Ieda concluiu. Precisava ir embora dali. Levantou-se, recuperando-se do susto, e entregou o cheque que o advogado havia lhe dado no dia anterior:
__ Eu agradeço o fato de você ter se ocupado esses últimos meses em me encontrar e mais ainda por manter discrição diante da descoberta do meu filho, mas não faz parte dos meus planos aceitar nada que pertenceu ao Eddie.
__ Aceite como forma de agradecimento da minha parte, como um pagamento pelo bem que me proporcionou ao permitir que Eddie a amasse através de mim – ela suplicou, mudando imediatamente o semblante firme por uma expressão quase infantil.
Ieda recolheu o cheque lentamente, incapaz de lidar com o alheamento de Georgina. Em resposta, recebeu um abraço fraternal e um sorriso.
Já na rua, lutou para se livrar dos sentimentos e das lembranças, assim como desistiu de fazer conjeturas sobre o que havia lhe acontecido. Entrou no carro e ficou dando votas pelas redondezas, como que à procura de uma solução. Uma placa de madeira, porém, logo no final de uma ruazinha sem saída, acendeu-lhe uma idéia. Estacionou, desceu do carro e se dirigiu rapidamente à recepção.

Mais tarde, após acompanhar Nicholas até a cama e conversarem sobre o seu dia na escola, como sempre faziam, Ieda se dirigiu à varanda. Observava o céu e uma paz invadiu-lhe o coração. Pela primeira vez sentiu que podia finalmente descansar.

Odete olhou para o cheque em suas mãos trêmulas pela milésima vez, quase sem acreditar. Ainda mantinha na lembrança a imagem elegante e forte da mulher que o entregara, sem nenhuma explicação, naquela tarde. Subiu a escadaria de madeira que rangia sob seus pés. Em breve poderia fazer a reforma, pensou, graças à doação daquela estranha.
Visitou todos os quartos do velho casarão, conversando carinhosamente com todas as suas hóspedes, uma rotina de todo fim de noite. Por último entreabriu lentamente a porta do quarto de Sofia, encontrando-a recostada na cabeceira da velha cama, enquanto amamentava a pequena Charlote. A tala no braço direito certamente ainda lhe era um grande incômodo, assim como as marcas de queimadura nos ombros e nas costas. Uma lágrima rolou pela face desgastada pelo tempo. Podia dormir em paz, pois estava garantido às meninas refugiadas um longo período de amparo, graças à boa alma que lhe visitara naquela tarde.


Este conto é dedicado a todas as mulheres que de uma forma ou de outra, por amor ou por ódio, foram submetidas à crueldade e à covardia de seus companheiros.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Brenda e Eu



A paisagem se descortinava à minha frente. Seis anos. Seis longos anos haviam se passado desde que estive aqui pela última vez. Mas nada havia mudado afinal.
A Vila Paraíso é um recanto agradável, o lugar ideal para quem gosta de vida pacata, sossego, paz... como Brenda.
Um sorriso brotou no meu rosto cansado ante a imagem doce e terna da minha amiga, que há tempos não encontrava. Haveria ela mudado? Ou continuava com aquele mesmo semblante de menina e o humor descontraído de outrora?
__ Não tem medo de perder esses belos dentes? – ela costumava ameaçar quando eu, só pelo prazer de provocá-la, inventava algum motivo para conseguir ao menos fazê-la irritar-se comigo.
Minhas tentativas eram sempre frustradas. Nunca consegui fazer com que Brenda brigasse comigo, ou ficasse magoada. Talvez agora...
O sorriso, aos poucos, foi morrendo no meu rosto. Ainda me lembro do último encontro, do último telefonema, do último cartão postal, do último e-mail. Todos continham a promessa de um futuro.
__ Seremos assim sempre ligados um ao outro, não é, Tom? – Brenda questionava vez ou outra, em especial quando vivíamos momentos de grande intensidade.
__ Só vamos nos separar se você ficar brava comigo, com raiva, e nunca mais querer me ver – eu rebatia, provocando-lhe risos.
Aos olhos de Brenda, seria impossível tal acontecimento, por isso ela tinha tanta segurança em relação à nossa amizade. Mas eu falhei.
Falhei com Brenda, falhei com Katie, falhei com minha família e falhei comigo mesmo.
Tentei me concentrar na estrada sinuosa margeada de palmeiras que levava à Vila. Talvez dessa maneira conseguisse fugir, ao menos por um tempo, das lembranças dolorosas. O livro grosso, de capa preta e com a estampa de uma tulipa, estava sobre o banco do passageiro.
__ Prometa que, mesmo estando tão longe, vai ler meu livro – Brenda pediu-me com uma voz infantil, como se a resposta positiva da minha parte fosse de vital importância para sua carreira, que naquela época iniciava os primeiros passos.
Fiz mais que isso. Guardo até hoje os seis Best Sellers de Brenda Polosh, a célebre autora de histórias de ficção que viraram febre não somente no país, mas em grande parte do mundo. Mas guardo ainda com mais zelo na minha mente as tramas inteligentes e de uma sensibilidade incrível, contidas em cada uma de suas histórias.
Brenda e eu nos conhecemos ainda muito jovens, quando eu tentava abraçar a faculdade de medicina com todas as minhas forças e ela, morando sozinha e distante da família, dividia o tempo entre o trabalho de recepcionista em uma clínica pediátrica e os estudos. Ela também almejava a faculdade.
Minha amiga de colégio se infiltrou em meu mundo, conquistou meus pais e, em pouco tempo, formamos praticamente uma família: Brenda e eu, mamãe e papai.
Ela era minha conselheira, minha irmã, minha melhor amiga. Brenda só não conseguiu ser minha parceira de aventuras. Dizia que não tinha tempo, mas no fundo eu e ela sempre soubemos que era por medo mesmo.
__ Não pretendo morrer jovem – ela se defendia quando eu insistia para que me acompanhasse nos saltos de bungee jump ou nas regatas que os outros amigos promoviam ali nas redondezas da bela Vila Paraíso.
Meus namoros eram um caso à parte. Digo meus namoros porque, até onde me lembro, nunca tive conhecimento acerca de quaisquer espécies de relacionamentos mantidos por ela. Todos os casos a que fazia menção eram parte do passado. Muitas vezes me questionei se Brenda houvera sido profundamente magoada por alguém, levando-a a se fechar para um novo amor. Mas todas as minhas suspeitas caíam por terra quando a via assim tão de bem com a vida, com a autoestima tão contagiante.
Pois bem, Brenda sempre foi minha conselheira no campo amoroso. Eu a achava a mulher mais sensata e experiente que já havia conhecido. E mesmo quando sabia que eu estava me embrenhando num “caso perdido”, não tentava me impedir, apesar de toda a sinceridade contida em seus conselhos. E quando eventualmente eu fracassava, não ousava dizer: “Eu avisei”, pois se compadecia dos meus infortúnios e sempre, sempre me oferecia seu ombro amigo e perfumado.
Talvez tivesse sido tudo diferente com meu casamento com Katie...
Meneei a cabeça, recusando-me a reviver os momentos ruins pelos quais passei.
__ Sabe o que me faz falta quando me lembro do meu namoro com Carla? – eu disse-lhe uma tarde, quando passei no seu trabalho para vê-la.
__ A implicância da mãe dela com você? – Brenda debochou, jocosa.
__ Das massagens que ela costumava fazer em meus ombros. Nossa! Como aquilo me fazia relaxar depois de um dia tenso e cansativo!
Brenda riu.
__ Acho que você devia abrir um harém, Tom – continuou. – Você tinha me dito que Lana lhe fazia um cafuné mais gostoso que o da sua mãe. Uma faz cafuné, outra faz massagem... no harém você terá tratamento completo.
__ Eu abro um harém e levo você pra cozinhar gostoso pra mim, o que acha?
Por um instante eu achei que finalmente havia conseguido irritá-la. Mas a forma graciosa com que me sorriu só serviu para confirmar que não percebera no comentário nada mais que uma brincadeira.
Uma placa de madeira anunciava que, 20 km após a próxima curva à direita era o que faltava para chegar à Vila Paraíso. 20 km era o percurso que restava entre Brenda e eu. À medida que a distância se encurtava, eu ia ficando tenso. Obtive informações suficientes sobre ela, sabia que não se casou e que continuava morando sozinha. A única mudança aparente na sua vidinha pacata fora a nova casa. Casa essa que, segundo as páginas da revista à qual dera entrevista há cerca de um mês, era um palacete. Brenda sempre gostara de conforto e, mesmo quando morava em um minúsculo apartamento, conseguira transformá-lo em um dos lugares mais agradáveis do mundo. Oh! E como eu adorava seus jantares! E suas sobremesas, seus petiscos, e tudo que ela levava ao forno, ao fogão ou à geladeira.
__ Quando decidir abrir um restaurante, quero ser seu sócio. Tenho certeza de que se tornará uma chef reconhecida mundialmente – eu lhe disse uma vez, após devorar quase toda a sua travessa de musse de chocolate.
Esta minha fala eu tive a doce surpresa de reconhecê-la em uma de suas histórias, quando o protagonista incentivava a mocinha a comercializar as receitas obtidas através de um livro muito antigo, deixado de herança por uma ancestral. E a trama se desenrolava com suas personagens surreais e uma generosa dose de suspense.
Um medo estranho me assolou quando passei pela ponte sobre o rio tortuoso onde costumávamos passar nossos momentos de lazer. E se Brenda não quisesse mais me ver? Nada mais justo do que virar-me as costas quando eu aparecesse inesperadamente em sua porta. Afinal, durante seis anos eu me ausentei da vida de Brenda, sem nenhuma explicação.
__ Casei-me semana passada – eu havia dito por telefone, na nossa última conversa.
Após segundos de silêncio, ela se manifestou, com a voz inalterada:
__ Posso saber por que isso ocorreu assim de repente? Eu nem sabia que estava envolvido com alguém. Achei que o trabalho no hospital e os cursos de aperfeiçoamento lhe tomassem todo o tempo.
__ Katie está grávida.
Novo silêncio, um pouco mais prolongado.
Despedimo-nos minutos depois, sem muitos esclarecimentos da minha parte.
Num e-mail Brenda dizia:

Questionei-me por longas horas sobre o possível motivo por que se casou tão de repente. No final, cheguei à conclusão de que Katie é a mulher mais sortuda do mundo, pois conseguiu conquistar seu coração e, consequentemente, fazê-lo se tornar pai. Espero que sejam muito felizes.

O último cartão postal eu enviei uma semana depois, como lembrança da minha viagem a Veneza, em uma conferência. O meu último e-mail foi bastante sucinto:

Talvez, por consequência da minha nova rotina, eu acabe me tornando um pouco ausente. Mas jamais me esquecerei de você.

Os meses e os anos foram-se passando e a vergonha do fracasso me impediu de voltar a procurá-la. E Brenda, em respeito ao meu silêncio, permaneceu esperando uma manifestação da minha parte. Agora me pergunto se foi por respeito ou por mágoa que minha amiga não mais falou comigo.
Na verdade eu tive vergonha de contar a ela que o filho que Katie esperava não era meu e que, na minha incapacidade de protegê-la, ela acabou sofrendo um grave acidente quando cedeu ao impulso de reencontrar o antigo namorado. Morreram juntos, deixando-me cheio de fantasmas e remorsos.
Brequei o automóvel subitamente. Seria impressão minha ou um animal atravessou a estrada? Na verdade eu só vi um vulto, mas não pude decifrar se era uma gazela enfurecida ou simplesmente a sombra do meu passado.
Respirei fundo e enchi-me de coragem. Não havia atravessado o Pacífico para simplesmente me acovardar às portas da Vila Paraíso.
A lembrança dos bons momentos com Brenda me reanimou a continuar. Ela ainda haveria de gostar de mim. E caso me tratasse como um estranho, eu simplesmente diria:
__ Sou um assíduo leitor de suas obras, desde a primeira publicação de sete anos atrás. Atravessei o Pacífico para pedir que as autografe.
Ri de mim mesmo. Não poderia dizer coisa mais tola!
De repente me lembrei de uma vez (não sei realmente por que motivo tive que me lembrar desse episódio) quando mostrava a Brenda as fotos de minha última viagem de férias. Em uma delas eu estava de sunga e minha amiga, descontraidamente, comentou:
__ Nossa, que fartura de corpo!
Fiquei vermelho e ela nem notou. A partir daquele dia comecei a olhá-la com olhos de homem. Talvez não fôssemos totalmente imunes a uma atração física.
Com o coração saltando no peito estacionei o carro em frente à enorme casa com vista para o rio. Um instinto inexplicável me guiou à entrada e não aguardei mais para tocar a campainha.
A mesma menina de seis anos antes abrira a porta e, no instante em que nossos olhares se cruzaram, todos os meus temores caíram por terra. Era a mesma Brenda de sempre.
Como se tivéssemos nos afastado por apenas alguns dias, ela pulou sobre o meu pescoço e me abraçou. Senti-me em casa.
Horas mais tarde, após matarmos um pouco a saudade e após nos atualizarmos sobre tudo o que ocorrera nas nossas vidas enquanto estivemos separados, Brenda me perguntou, enroscando os dedos delicados nos botões de minha camisa:
__ Lembra de quando me perguntava por que nunca me envolvia com ninguém?
__ Lembro. E você sempre inventava uma desculpa, jamais conseguiu me oferecer um motivo justo.
__ Hoje eu tenho a resposta.
Endireitei-me no sofá.
__ Continue – pedi.
__ Tom, eu nunca quis me envolver com nenhum homem, porque esperei por você. Esperei por você desde que nos encontramos pela primeira vez.
Comovido, beijei-a. Acabava de descobrir que, assim como ela havia me esperado, eu estive me preparando o tempo todo para pertencer a ela.