quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Surpresas do Destino



Era a quinta vez naquela semana que Maurício repetia a camisa. Ou seja, sendo sexta-feira, isso indicava que ele havia usado a mesma roupa a semana inteira. Desta vez, porém, sua secretária, uma respeitável senhora de 40 anos, não deixara passar em branco:
__ Ficou sem empregada de novo, Doutor Maurício?
Ele olhou-a com um certo constrangimento antes de afirmar:
__ A última se demitiu semana passada e desde então não tive tempo para pedir que a agência me enviasse outra.
__ Eu sugiro que troque de agência, pois certamente o senhor já esgotou todas as moças disponíveis que esta oferece.
Penélope tinha razão, admitiu. Pois a verdade é que não possuía mais coragem de telefonar à agência e solicitar que lhe enviassem outra candidata. No último mês foram oito, uma média de duas por semana.
__ Já disse e vou repetir: você precisa arrumar uma agência de relacionamentos que lhe forneça uma esposa, e não uma serviçal – André, seu sócio, acabava de entrar na sala e já se infiltrava na conversa com seu jeito expansivo.
__ Já inventaram a internet – Penélope disse com ironia, entrando na brincadeira.
__ Vocês dois parem de dar opinião sobre minha vida como se eu fosse um pobre coitado – Maurício ralhou, já enfadado de tanto deboche.
Desde que ficara viúvo, há pouco mais de um ano, não pararam de surgir propostas para que encontrasse uma substituta para a mãe dos seus quatro filhos. Ele bem sabia que, nesse mundo globalizado e dominando pela tecnologia, não seria difícil realizar tal façanha. Desde que encarasse essa escolha como um negócio. Na verdade ele já estava até considerando tal hipótese. Não agüentava mais dividir a vida entre o trabalho na transportadora, a tarefa de cuidar dos filhos e de si mesmo. Aliás, já fazia bastante tempo que não cuidava de si mesmo. Prova disso era o fato de não possuir outra camisa decente para ir trabalhar que não fosse aquela, que ele estava tendo o cuidado de lavar todas as noites e colocar pra secar atrás a geladeira para que estivesse pronta na manhã seguinte.
__ Penélope, você pode, por favor, ir ao shopping no horário do almoço e me comprar algumas camisas? Dou-lhe uma gorjeta bastante generosa pela delicadeza – pediu, assim que o sócio se afastou para atender a um telefonema.
__ Eu conheço uma moça que serviria perfeitamente para o que o senhor procura – a secretária o olhava de um jeito estranho, sem se dar ao trabalho de responder ao que propusera.
__ Uma nova empregada? – ele se animou.
__ Não, uma esposa.
Maurício ia mandá-la plantar batatas, mas diante do caos em que sua vida se transformara, talvez essa hipótese ridícula poderia ser seu único socorro.
__ E como ela é? Foi abandonada pelo noivo, está desiludida da vida e procura desesperadamente por um casamento por conveniência que impeça as cobranças que a família ou a sociedade lhe impõem?
A secretária continuava a olhá-lo com ares de sabedoria, e só depois de alguns instantes respondeu:
__ É a assistente de um conhecido de meu marido. É jovem, discreta, experiente tanto nos negócios quanto nos cuidados de casa e nos tratos com crianças de variadas idades.
__ Essa criatura não existe, você está simplesmente zombando de mim – Maurício irritou-se, inconformado por desperdiçar preciosos minutos do seu tempo para ouvir os devaneios da mulher. – E pode deixar que eu me viro com a compra das camisas!
Naquele instante ele realmente se preocupou com a possibilidade de Penélope estar sofrendo de doença mental, apesar da pouca idade para isso.

Gisele olhava, concentrada, as vitrines da loja de roupas masculinas. Tinha menos de meia hora para escolher o terno do irmão, que necessitava urgentemente do traje para o evento de logo mais à noite. Após a escolha minuciosa tanto do traje como dos acessórios, dirigiu-se ao caixa para efetuar o pagamento. Já estava na porta da loja, equilibrando as pesadas sacolas em ambas as mãos, quando sentiu que esbarrava em alguém. Mal teve tempo de ver quem era, pois todas as suas compras se espalharam escandalosamente pelo chão, interrompendo a passagem dos outros clientes.
__ Perdoe-me, moça, estava distraído e não consegui vê-la a tempo de evitar o desastre – o homem a olhava com visível constrangimento.
__ Não se culpe, acidentes acontecem – disse educadamente, já se abaixando para recolher os pertences. Por sorte os souvenires da sua extravagante cunhada continuavam bem escondidos no fundo da sacola de papel.
Com a ajuda do desastrado o trabalho de recolhimento das sacolas foi facilitado e ela agradeceu elegantemente, como convinha a uma profissional capacitada para quase todas as situações que a vida impunha. Era sob esse ponto de vista que costumava analisar as mais diversas ocorrências em que se via envolvida: não passava de uma profissional altamente capacitada para lidar com, se não todas, quase todas as situações que a vida lhe preparava. No fundo, desde que começara a trabalhar para o seu único irmão e parente próximo que possuía, perdera a identidade e deixara de representar um CPF para se tornar um CNPJ.
__ Posso lhe ofereceu um café como um pedido formal de desculpas? – o clima frio do meio da tarde e os impecáveis modos da moça diante de si fizeram com que Maurício sofresse um breve lapso de razão.
Como se não estivesse surpreendida pela sua ousadia, que nunca lhe fora habitual, a moça respondeu:
__ Sinto-me honrada pelo seu convite, senhor, mas o tempo não me permite. Agradeço profundamente tanto pelo cavalheirismo de não ter-me deixado recolher os pertences sozinha quanto pela gentileza do convite.
Ainda olhava-a afastar-se de forma serena, com andar elegante, como eram os seus gestos e as suas palavras. De onde saíra aquela figura tão bela e rara? De uma página de revista de marketing? Sentindo-se desolado, Maurício dirigiu-se ao balcão da enorme loja. Melhor seria se entreter na difícil tarefa de comprar algumas peças de roupa, caso contrário em menos de uma semana sua filha caçula já teria queimado todas as outras poucas restantes no ferro de passar.

Passava um pouco das cinco da tarde, final do expediente, quando seu chefe e irmão saiu pela porta da sala principal da mega empresa, distribuidora de automóveis importados. Suas feições não eram das mais animadoras. Gisele não se alterou, seus instintos diziam que não lhe restavam opções de escolha para quaisquer que fossem as circunstâncias a seguir.
__ Samantha se atrasou na sua reunião com as amigas e não vai poder buscar as crianças na escola. Eu tenho um encontro de negócios para assim que sair daqui, Gisele.
Não era preciso dizer mais nada, Gisele entendera o recado. Não adiantaria explicar que havia marcado horário no cabeleireiro justamente por causa do evento daquela noite. Apenas terminou de fechar os arquivos do computador e saiu, já planejando o que faria em casa mesmo com seu indisciplinado cabelo ruivo rebelde para mantê-lo decente ao menos por algumas horas. Na volta pra casa compraria um pode de três quilos de gel, pensou.
Já havia estacionado o luxuoso carro na rua do colégio e dirigia-se ao portão principal para apanhar os sobrinhos Sabrina, de nove anos, e Pedro, de doze. Em uma questão de segundos, porém, viu-se atravessando velozmente a rua onde o movimento dos carros era crescente àquele horário, equilibrando-se nos saltos firmes do sapato de grife para evitar que uma pequena menina de cabelos loiros fosse atingida por uma motocicleta. Na tarefa executada com sucesso, ambos os corpos só se desequilibraram quando alcançaram o outro lado da rua, caindo no extenso gramado onde dezenas de crianças e adultos assistiam tensos à cena.
__ Oh, céus! Seu joelho está sangrando – ela amparou carinhosamente a menina, culpando-se pelo machucado.
Mas os olhinhos verdes, ternos e doces a olharam em completo êxtase, com uma alegria inocente que lhe tocou o coração:
__ Se não fosse a senhora eu teria quebrado era as pernas e os braços.
De um momento para outro só se viam curiosos se aproximando para observarem os resultados, cada um falando ao mesmo tempo. Só depois da chegada dos dois sobrinhos ao local é que Gisele conseguiu se desvencilhar um pouco da confusão.
Aos poucos as pessoas se afastavam, cada uma indo para seus destinos, mas juntamente com a menina salva do acidente estavam mais três crianças: dois meninos e uma adolescente, todos com pouca diferença de idade entre si.
__ Seus pais ainda não vieram buscá-los? – Gisele interrogou, talvez precisasse explicar aos pais da criança o que havia acontecido na porta do colégio.
A mais velha, outra loirinha de aproximadamente catorze anos, respondeu:
__ Papai certamente ainda vem...
__ É que às vezes ele nos esquece – explicou um dos meninos com a típica inocência de uma criança com cerca de dez anos.
Seus sobrinhos já esperavam impacientes dentro do veículo, mas Gisele não podia simplesmente sair e deixá-los ali, à mercê de outra catástrofe, dessa vez talvez com sérias conseqüências.
__ Tem algum telefone que eu possa falar com o pai ou a mãe de vocês e perguntar se posso chamar um táxi? – perguntou, mesmo sabendo que poderia ser uma idéia absurda enviar quatro crianças de volta pra casa de táxi.
__ Nós não temos mais mãe – dessa vez foi o menino maiorizinho que o primeiro quem falou, com o olhar carente.
__ E papai trabalha o tempo todo, já estamos acostumados a esperar por ele até mais tarde – a menina maior do grupo explicou, com ares de adulta precoce.
__ E se eu levasse vocês em casa? – Gisele ainda sugeriu, com o coração compadecido em ver quatro crianças sozinhas, sujeitas aos perigos que as ruas das grandes cidades sempre ofereciam.
O grupo entreolhou-se, como que analisando a proposta. Foi o menino maiorzinho que respondeu:
__ Papai disse pra gente nunca aceitar nada de estranhos.
__ Mas ela salvou minha vida – argumentou a garotinha menor do grupo.
__ E ela não tem cara de malvada – foi o garotinho de cabelos castanhos claros e olhos graúdos quem sentenciou.
__ Eu posso telefonar ao pai de vocês e explicar o que houve – Gisele ainda propôs, já ouvindo os gritos dos próprios sobrinhos a chamá-la do carro estacionado do outro lado da rua.
Novamente o grupo se entreolhou e foi a menina maior quem se manifestou, pegando de dentro da mochila um moderno aparelho de celular, discando logo em seguida.
Já no caminho de volta pra casa onde morava com o irmão e a família, após deixar o ruidoso grupo numa graciosa casa em uma rua arborizada, Gisele pôs-se a analisar os acontecimentos. Carregava a leve impressão de já ter ouvido a voz do pai das crianças, com quem conversou ao telefone por alguns minutos, tomando o cuidado de não preocupá-lo com o acidente que quase acontecera com uma das suas filhas. Não parecia ser um pai negligente, como pensara ao ouvir das crianças que era costume esperarem até mais tarde para serem buscadas na porta do colégio. Pôde comprovar isso pela voz carregada de cansaço e preocupação. Por outro lado, mesmo que fosse o contrário, não cabia a si sentenciá-lo, afinal, essa havia sido a primeira vez, e certamente também seria a última, em que encontraria aquela família. Ao que estava muito enganada.

__ E então, Doutor Maurício – Penélope aproveitava o momento de descontração após a breve reunião que tivera com seu sócio para voltar a fazer brincadeira a respeito daquele fatídico assunto, que infelizmente já havia virado rotina nas vezes em que conversavam informalmente. – Tem certeza de que não está mesmo interessado em conhecer a moça da qual lhe falei?
__ Às vezes chego à conclusão de que ele não está precisando tanto assim – André interferiu, jocoso. – Faz quase um mês que ele está usando roupas novas e bem passadas.
__ Obrigado pela discrição com que vocês tratam a minha vida particular – Maurício fingiu-se ofendido. – Mas para o seu governo, André, passei a entregar as roupas numa lavanderia. Dá menos preocupação.
__ E evita que a pequena Joana queime suas camisas ao tentar ajudá-lo a passar – Penélope debochou.
Maurício simplesmente sorriu, lembrando-se ternamente da sua caçulina tão doce e amável.
__ Meus filhos tentam de todas as formas ajudar como podem – explicou.
__ Eles só não conseguem é deixar de assustar as empregadas, caso contrário elas durariam por lá ao menos uma semana – André ainda continuou a debochar.
__ Eu já dei o meu conselho – Penélope deu seqüência ao assunto, com seu costumeiro ar de sabedoria. – conheço a pessoa certa que pode tirá-lo do sufoco. O único problema que terá de enfrentar é conseguir tirá-la de debaixo da asa do irmão, com quem ela mora e de quem é o braço direito.
Cansado do assunto, Maurício arrumou um pretexto e saiu, dando continuidade ao amontoado de tarefas que ainda teria antes de buscar as crianças na escola.
Céus! As crianças na escola! Era a quarta vez desde a semana anterior que se esquecia completamente do horário de ir buscá-las. Olhou apressadamente no relógio e desejou que elas estivessem seguras e aguardando em frente ao colégio, mas assim que alcançou a rua, o telefone começou a chamar insistentemente.
__ Papai – era Maria da Glória, sua filha mais velha – não se preocupe conosco que já estamos em casa. A Gisele, a moça com quem o senhor conversou semana passada, já nos trouxe.
Entre aliviado e constrangido, Maurício conversou mais alguns minutos com a filha e tratou de ir logo para casa. Era também a quarta vez que a moça misteriosa com quem conversara ao telefone, e de cuja voz tinha a sensação de conhecer, fazia o favor de levar seus filhos com segurança. Precisava arranjar uma forma urgente de agradecê-la, e também de conhecê-la para retirar dela qualquer má impressão que porventura tivesse a seu respeito. Afinal, um pai que abandonava quatro filhos pequenos constantemente na porta da escola não poderia ser um bom sujeito.

Dois meses se passaram desde que Gisele oferecera carona às adoráveis crianças na escola. E muita coisa mudou na sua vida desde então. Com o advento da viagem de sua cunhada para um congresso acerca dos assuntos de uma ONG que dirigia, sobrou-lhe a tarefa de ir buscar os sobrinhos todos os dias no colégio. Além de outras tarefas extras, como instruir os vários empregados da enorme casa onde morava com o irmão e a família, cuidar dos assuntos pessoais do irmão e outras situações de emergência. Em resumo, não sobrava mais tempo para si mesma. A única coisa boa de tudo isso era a amizade que nascia entre ela e as quatro crianças.
Foi, porém, com grande surpresa, que recebeu o telefonema misterioso do pai dos meninos naquela tarde.
__ Eu sei o quanto deve estar guardando uma má impressão da minha pessoa – ele dissera. – Mas insisto em que me dê a oportunidade de conversarmos para que eu possa lhe provar que não sou simplesmente um pai negligente que deixa seus filhos aos cuidados de desconhecidos.
Em outra circunstância teria rejeitado educadamente, não lhe interessava manter contato com pessoas que não fossem no âmbito dos negócios e do trabalho. Já há muito tempo que abrira mão de relacionamentos pessoais, seja lá qual fosse a natureza. Mas a voz do homem era estranhamente familiar e resolveu aceitar o convite.

Do primeiro encontro entre Maurício e Gisele para a completa mudança de rotina na vida ambos, não demorou muito tempo. O impacto de se verem pela primeira, aliás, pela segunda vez (descobriram que já haviam se topado acidentalmente no shopping meses antes, por ocasião da compra das roupas), foi surpreendente para ambos. E, com o passar do tempo, eles perceberam que existia algo que os interligava. Um sentimento agradável do qual não conseguiam fugir. A mudança para ela foi tão perceptível que o irmão não deixou passar em branco, com seu jeito autoritário com o qual já estava acostumada desde os seus dezesseis anos.
__ Faz dias que você anda estranha – ele começou casualmente, mas sua voz indicava que estava profundamente afetado. – Não pára mais em casa, demora mais do que o normal no horário do almoço e por diversas vezes no meio da tarde fico perdido, demorando horas para conseguir localizá-la. Sem mencionar que já me deixou na mão em dois eventos da empresa. Samantha também já notou, e andou até reclamando das vezes em que teve que cancelar alguns compromissos sociais pelo fato de você não poder ficar tomando conta das crianças.
Ela olhou-o demoradamente. Desde que os pais morreram, há quatorze anos, acostumara-se a morar naquela casa e viver sob os cuidados do irmão. Mas ultimamente vinha analisando em quantas coisas havia sido compassiva, e no quanto abrira mão de si mesma para viver para ele e para a cunhada socialite.
__ Conheci uma pessoa – respondeu simplesmente.
__ Tudo bem, eu conheço pessoas freqüentemente, mas nem por isso mudo de forma tão radical o meu comportamento.
Armando-se da segurança e da coragem com que sempre enfrentou a batalha no campo dos negócios, e para o qual fora arduamente treinada, Gisele ergueu o queixo e anunciou:
__ Foi bom você introduzir o assunto, pois tem algo que preciso lhe comunicar. Eu estive amadurecendo a idéia nos últimos dias, acho que vou arrumar um apartamento e morar sozinha.
Entre surpreso e irritado, Gerson bradou:
__ E você me avisa isso assim, a sangue frio?
__ Não, aviso de uma forma adulta e segura. E não entendo tamanha surpresa da sua parte, afinal, um dia isso iria acontecer, não é mesmo?
__ Tudo bem, um dia. Mas as coisas não podem acontecer assim de uma hora pra outra! Achei que você havia pensado na possibilidade de analisar a proposta de casamento do Marcos. Se as coisas andassem por esse caminho, lucraríamos mais.
__ Sinto informá-lo, mas não sou um dos carros de luxo que você expõe na vitrine esperando por um comprador que esteja disposto a pagar uma quantia exorbitante.
Não era daquela forma que pretendia romper os laços com o irmão e a família, que afinal era a sua única.
__ Achei que você seria mais grata a mim – Gerson continuou, ofendido. – Desde que você ainda era uma criança eu a trouxe para dentro da minha casa. Dei a você a mesma qualidade de vida que dou aos meus filhos: a melhor educação, viagens, oportunidade de crescer na vida...
__ E lhe sou eternamente grata por isso, meu querido – Gisele olhou-o com carinho. Há tempos não tinham mais espaço na vida para agirem como irmãos. Eram sempre patrão e funcionária. – Mas quando você parar um pouco e analisar os fatos friamente, vai perceber que já estou crescidinha o suficiente para levar minha vida pra frente, sem me esconder atrás de você. Eu cresci.

No começo foi difícil desvincular-se dos laços que a seguravam há quatorze anos. Mas cada dia que conviva com Maurício e os filhos descobria que havia dado o passo certo. Uma noite, quando festejariam a mudança para o seu novo apartamento, ele apareceu com os quatro filhos para o jantar que ela havia preparado.
Maria da Glória levara bombons; Murilo, o segundo filho, levara flores; Marcelo, o garotinho de cabelos castanhos, levara um vaso de cristal para sua sala de jantar; e Joana, a caçulinha que havia salvado do acidente, entregara-lhe uma boneca de pano.
__ Pra você não sentir medo de dormir sozinha – explicou com seu jeito angelical.
Era impossível não se emocionar com tamanha manifestação de carinho, por parte de todos. Mas a melhor surpresa ficara para o final da noite, quando Maurício, com que estava acostumada a dividir a maior parte do seu tempo nos últimos meses, apresentou seu agrado no final do jantar.
__ Quero aproveitar a presença dos meus filhos e a oportunidade pra lhe fazer um pedido – ele anunciou, meio inseguro.
__ Papai conversou muito com a gente antes de lhe dizer isso – Maria da Glória encorajou-o com o olhar.
__ E todos nós concordamos com ele – Murilo continuou.
__ Na verdade fomos nós quem pedimos a ele para fazer isso – Marcelo disse com os olhos graúdos brilhando de contentamento.
__ É, nós todos queremos muito... – Joana ia adiantar a surpresa, quando foi delicadamente impedida pelo pai, que tapou-lhe a boquinha rapidamente.
__ ... que você aceite meu pedido de casamento – ele finalmente conseguiu dizer, retirando de dentro do bolso da calça uma caixinha de veludo verde.

A igreja estava lotada para aquele importante evento. No altar, ao lado direito do noivo, estavam André e a esposa, que seriam os seus padrinhos. Penélope e o marido estavam juntos ao casal, esperando a chegada triunfante da noiva, de quem seriam os padrinhos. E quando a banda fez a marcha nupcial estremecer o edifício, uma Gisele mais parecida com uma princesa de contos de fada começava a dar os primeiros passos em direção ao seu amado, acompanhando a doce menininha de cabelos loiros e olhos verdes que segurava uma cestinha, guiada de forma protetora e afetiva pelo irmão.
Não se contendo, Penélope aproximou a cabeça do ombro de André, para cochichar-lhe ao ouvido:
__ Eu disse desde o começo que sabia quem era mulher ideal para o Doutor Maurício, não disse? Se tivesse me dado ouvidos, não teria perdido tanto tempo.
André simplesmente sorriu. Talvez a experiente secretária não tivesse sido tão eficaz na sua tarefa quanto o havia sido uma criança meiga de olhos verdes e cabelinhos loiros. Afinal, quem poderia explicar as surpresas do destino?

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A história de Ana


Glória mal acreditou quando o motor do carro parou de funcionar. Seu primeiro impulso foi gritar, mas a garganta não conseguiu emitir mais que um gemido, mais fraco que o coaxar dos sapos e a cantoria dos grilos no meio da noite escura. Droga, pensou. Não bastassem os problemas que estavam acumulados sobre a sua vida há tempos, agora mais essa!
Que outra solução teria a não ser buscar socorro? Retirou o celular da bolsa e, num ato de fúria, atirou-o no chão... estava simplesmente sem sinal. Afinal, aquilo era um buraco negro? Ou estava próxima ao Triângulo das Bermudas? Certamente o destino resolvera brincar com ela, concluiu.
Saiu do veículo, temerosa de mais uma surpresa desagradável. Nenhum sinal de vida humana, somente a escuridão a rondava. Que burra havia sido em acreditar que conseguiria chegar à chácara da amiga sem auxílio. Havia confiado demais nas explicações rápidas que Ofélia lhe fornecera por telefone, ou pior, certamente estava tão ansiosa para um fim de semana de descanso que sequer prestara atenção no que a moça havia dito. No fim das contas, estava perdida no meio do nada... ou melhor, no meio do mato, cercada de sons animalescos e sem nenhum resquício dessas tecnologias com as quais a humanidade estava tão habituada.
Totalmente sem experiência, abriu o capô do Gol, já com a certeza de que de nada iria adiantar. Melhor não perder a calma, disse a si mesma entre dentes. Olhou para o céu, as estrelas pareciam querer lhe transmitir uma serenidade. Ficou assim por alguns instantes, até que a luz natural da noite dilatou suas pupilas, fazendo com que, por milagre, enxergasse um caminho estreito à direita da estrada de terra. Mesmo sem uma placa para indicar qualquer sinal de propriedade particular, imaginou que talvez fosse o acesso à longínqua casinha que a amiga lhe indicara.
Enquanto seguia pelo carreiro, pensava nos infortúnios, alheia até aos galhos ressequidos a lhe ferir as pernas expostas pelo casual vestido de algodão. As palavras do editor responsável pelas suas publicações ressoavam na sua mente, como acusação: “Se você não me aparecer com uma história que realmente venda, pode dizer adeus à sua carreira de escritora!” Era uma tremenda injustiça, ela disse a si mesma pela milésima vez. Há mais de dez anos escrevia histórias que agradavam a todo tipo de público, desde o mais moço ao mais velho, e agora que passava por uma fase ruim em sua carreira, as portas queriam se fechar. Está certo que seus dois últimos livros pareciam servir de refeição para as traças nas livrarias, mas precisava de apoio e não de pressão. Por conselho da amiga Ofélia resolvera se refugiar em algum lugar tranqüilo, que lhe resgatasse a inspiração que a cidade grande parecia ter tragado.
__ Desse jeito vou acabar escrevendo um romance sobre um casal de porco espinho – disse em voz alta, assustando a si mesma.
O cansaço ia aumentado a casa passo, e vez por outra parava um pouco para aliviar a crescente dor nas pernas. Passava poucos minutos das oito da noite, mas a falta de iluminação artificial e o som pouco familiar da mata davam amostras de que era alta noite.
Após se levantar da última parada, quando já sentia vontade de chorar, avistou um ponto ao longe, iluminado por uma luz muito fraca. Enfim, a bendita cabana!
Um cachorro vira-lata veio recebê-la no terreiro e Glória estranhou. Ofélia dissera que a casa estava desabitada e que servia somente como lugar de descanso em feriados prolongados. E também ela não imaginava que fosse tão refugiada no meio do mato...
As fracas luzes dentro da propriedade só serviam para comprovar que errara de endereço, para o seu desespero. Justo agora que estava ansiosa por um banho e um belo prato de qualquer coisa que lhe forrasse o estômago vazio. Mas o medo do desconhecido a alertou de que era mais prudente dar meia volta e se esconder na maldita lata velha que havia lhe deixado na mão justamente quando mais precisava.
Entre um pensamento e outro, ouviu uma voz vinda de dentro da casinha:
__ Quem está aí?
Era voz de mulher.
Bem, quem sabe poderia pedir uma informação, uma ajuda, um telefone... Glória atravessou a varandinha cercada de plantas e bateu à porta.
__ Quem está aí? – a voz repetiu lá de dentro, parecendo mais assustada que ela. – Se não responder eu atiro!
Deus tenha misericórdia! Glória apavorou-se. Queria sair correndo, mas os pés pareciam ter sido atraídos pela força de um ímã.
__ Eu preciso de ajuda – conseguiu dizer claramente.
Segundos depois a porta se abriu, revelando uma figura dócil e frágil que nada oferecia de perigo.
__ Oh, minha querida, desculpe a minha falta de tato, mas é que uma velha sozinha precisa se defender – a mulher disse sorridente, fazendo sinal para que entrasse.
O ambiente era acolhedor e bem arrumado. Glória sentiu ali um cheiro de aconchego, mas também de solidão.
__ A senhora tem um telefone que possa me emprestar?
A mulher a olhou demoradamente, para depois sorrir e responder:
__ Sinto muito, minha menina, mas essas coisas não possuem mais nenhuma serventia pro tipo de vida que levo aqui.
__ Eu estava a caminho da chácara de uma amiga, de repente meu carro pifou e eu não tenho mais certeza nenhuma se estou no caminho certo – disse debilmente, mais desanimada do que quando chegara. O que uma frágil senhora à beira dos oitenta anos poderia fazer por ela?
__ Primeiro você se senta, depois podemos pensar no que fazer para resolver seu problema.
A maciez do rústico sofá pareceu abraçar seu corpo... estava tão cansada.
__ Eu sinto muito por incomodar, mas...
__ Faz mais de dois anos que não aparece ninguém nesse lugar, até o carteiro não tem mais motivos pra vir até aqui nesse fim de mundo... – a mulher queixou-se e Glória sentiu pena. Parecia uma alma tão bondosa.
A história de João e Maria veio à sua mente e, atordoada por um medo infantil desesperou-se diante da possibilidade de estar correndo perigo. Mas que pensamento mais tolo, recriminou-se. Arnaldo tinha razão quando a acusara de andar com a imaginação pobre para conseguir produzir uma história que realmente atraísse algum tipo de leitor.
__ Mas certamente você não está interessada nos queixumes de uma pobre velha que vive sozinha no meio do mato – a mulher completou com simpatia, sorrindo novamente.
__ Eu realmente sinto por incomodá-la, mas a senhora não saberia me informar se tem alguma outra chácara nessas redondezas? Talvez se eu andasse um pouco mais conseguiria chegar a tempo de tomar um banho...
__ Pobre criatura – a outra a olhou com pena. – Você certamente tomou o rumo contrário, não existe outra propriedade a quilômetros daqui. Até pra ir à cidade é difícil, eu só faço isso umas duas vezes por mês, quando realmente preciso de mantimentos pra casa.
__ Oh... – a voz morreu-lhe na garganta.
__ Mas se as instalações não lhe incomodarem, poderá passar a noite aqui. Isso se a mocinha não anda lendo muitas histórias de contos de fadas e possui a mente fértil a ponto de achar que sou uma bruxa disfarçada e vou prendê-la numa gaiola.
Glória permitiu-se sorrir. Gostara da mulher.
__ A senhora não imagina o bem que me fará se me permitir passar essa noite aqui... prometo que vou pagar pela hospedagem e...
__ Ah, esse povo da cidade grande – a outra brincou, fazendo um gesto de descaso.
__ Desculpe-me mesmo pelo transtorno, pois eu fico realmente preocupada em dar trabalho, sabe?
__ Venha comigo, vou lhe preparar um banho e depois uma sopa de galinha que vai lhe fazer recobrar as forças – a velha senhora ofereceu-se com carinho.
Como uma criatura tão dócil e acolhedora poderia viver assim, esquecida no meio do mato? Glória questionou-se, algum tempo depois, diante de um prato de sopa que exalava um cheio tão agradável que precisou se controlar para manter as boas maneiras.
__ Ainda não me disse seu nome – a mulher observou, notando o quanto ela estava calada.
Não foi necessário muito tempo para que as duas se entendessem e Glória sentia crescer dentro do peito um amor imenso por aquela criaturinha aparentemente frágil.
__ Faz quanto tempo que a senhora vive aqui sozinha? – perguntou a certa altura da conversa, quando já saboreavam um café fumegante na pequena sala iluminada pela rústica lareira.
__ Ah, minha menina... minha história é longa – a velha, que agora ela sabia se chamar Ana, desabafou em tom melancólico.
Uma história... era tudo que ela precisava!
__ Se a senhora não se incomodar de me contar, eu não estou com sono e já estou me sentindo muito bem após o delicioso banho que a senhora teve o cuidado de me oferecer – Glória ainda sentia os efeitos relaxantes da água aquecida no fogão à lenha, despejada cuidadosamente na velha banheira de louça.
__ Mas quem se interessaria pela vida de uma velha abandonada que tem como destino findar seus dias cercada de bichos?
__ Eu teria o maior prazer em ouvi-la, minha querida – a moça tomou-lhe as mãos alvas e desgastadas pela força do tempo.
Os olhinhos miúdos pareceram adquirir um brilho intenso e ela ajeitou o corpo miúdo e roliço no sofá xadrez.
__ Um dia eu fui assim jovem também, cheia de vida e de esperança... – começou. – Meu pai era um homem muito austero, criou a mim e às minhas irmãs com a força da palmatória. E cada uma de nós, acredite ou não, seguimos o destino que ele escolheu.
Aos poucos, as palavras relatavam um passado distante, e na mente de Glória as imagens adquiriam a complexidade de um romance que se desenrolara em meados do século passado.
__ Quando Ernesto apareceu na nossa casa pela primeira vez, a convite de papai, meu primeiro desejo foi de sair correndo. Eu tinha apenas dezesseis anos e não sabia explicar por que minhas pernas tremiam tanto quando eu o via. Numa noite, após jantar conosco, papai anunciou nosso noivado.
__ Noivado? Assim de repente? – Glória interrompeu, não conseguindo se conter.
A mulher sorriu, mas o olhar parecia perdido no espaço, como se enxergasse claramente o momento dos fatos que relatava.
__ Ele era um moço trabalhador e honesto, havia acabado de chegar à cidade e papai o recebera por indicação de um amigo. Só mais tarde é que fui entender que nosso casamento já havia sido programado quando ainda éramos crianças. Mas você deve estar perguntando: “E o amor, onde fica?”E eu hoje entendo que minhas pernas tremiam porque eu já amava Ernesto desde o primeiro instante...
Glória nada disse, esperando ansiosamente pela continuação da história.
__ Mas maior que os meus sentimentos era o medo, o medo do desconhecido... Ernesto me trouxe para este sítio alguns dias depois, quando o casamento se realizou. Em vão ele tentou fazer com que eu me adaptasse, mas eu só sabia chorar... meu marido, porém, era paciente e depois de alguns meses eu finalmente enxerguei a realidade e descobri que minha nova vida poderia ser boa ou ruim, dependia somente da forma como eu aceitasse os fatos. Veio nosso primeiro filho e, mesmo vivendo quase isolados aqui, éramos muito felizes. Depois de um tempo, ele começou a ficar estranho, calado. Nossos sentimentos pareciam ter esmorecido, eu me sentia doente, desanimada, sem vontade até de viver.
O que uma crise conjugal seguida de um quando de depressão sem acompanhamento poderia causar a uma vida, Glória conjeturava. Ana continuou:
__ Em poucos anos eu percebi que meu casamento não era mais nem a sombra do que um dia havia sido e me lembrei do que minha mãe dizia: “Casamento é como um jogo, você arrisca e não tem certeza se vai dar certo”. Outros filhos vieram e, quando alcançavam a maioridade, criavam asas e iam embora. No fim restamos nós e nossos conflitos.
__ Mas a senhora nunca procurou conversar, tentar entender o motivo da mudança de comportamento do seu marido? – a jovem escritora mais uma vez interrompeu, interessada nos detalhes.
__ Sim, claro... mas me arrependi amargamente. Se eu não tivesse insistido, talvez hoje eu ainda o teria comigo.
Glória a olhou interrogativamente e, só depois de alguns minutos, ela continuou:
__ Ernesto simplesmente disse que nosso casamento havia sido um erro e que não tinha mais necessidade de continuarmos vivendo juntos. Só hoje entendo que ele por vezes deve ter se queixado com terceiros e recebido conselhos errados, chegando a conclusões equivocadas. Até que finalmente deixou o sítio no meio da noite, montado em seu cavalo, e nunca mais voltou. Certamente não sentiu a necessidade de explicações, já não necessitávamos mais de dar justificativas às pessoas, meus pais já haviam partido e minhas irmãs seguiram o curso de suas vidas. Meus filhos tomaram também seus rumos, hoje as visitas são ainda mais escassas.
O coração de Glória se enterneceu. Pobre criatura!
Mais tarde, após se recolher num dos pequenos quartos da casa, acabou vencida pelo cansaço e teve um sonho muito estranho.
Passava das oito da manhã seguinte quando ouviu sons típicos do campo. O vira-lata latia embaixo da sua janela, as vacas mugiam num local próximo, o galo cantarolava com toda força e um agradável cheiro de café chegou até o quarto.
À luz do dia a força de Ana parecia mais vivaz, principalmente diante do velho fogão à lenha no preparo de algo que cheirava a milho verde e erva-doce.
__ Já tomei a liberdade de ir ao vizinho mais próximo e pedir que olhasse seu carro, que já está funcionando direitinho – ela anunciou alegre.
__ Céus, acabei dando um trabalhão à senhora, não é mesmo?
__ Foi muito bom ter você como hóspede, espero que acerte o caminho e volte mais vezes, se esta velha solitária ainda merece ser guardada na sua lembrança.
Meses depois, após sair do escritório de Arnaldo, Glória sorriu. A história de Ana lhe trouxera um novo rumo, um novo estímulo. As páginas do livro de capa branca com letras douradas estavam recheadas de emoção, de uma magia que somente ela fora capaz de enxergar nos olhos daquela bondosa mulher.
Guiada pelo coração, percorreu o mesmo caminho que havia feito às cegas naquela noite de inverno. À luz do dia notou que realmente fora o destino que a levara até ali, pois o local ficava em uma localização totalmente contrária à que a amiga havia lhe instruído. Estacionou o carro novo à beira do caminho estreito que lhe levaria à casa da mulher a quem desejava tanto rever e seguiu em frente, o coração acelerando a cada passo. Apertava o livro na mão suada, rememorando as poucas palavras da carinhosa dedicatória que fizera à amiga. Queria muito revê-la.
Para sua tristeza, porém, nada encontrara ao chegar na humilde cabana. As samambaias pareciam clamar por água e nada mais se ouvia além dos sons do vento nas árvores e o cantarolar dos pássaros. Nem mesmo o vira-lata estava por perto. Lágrimas rolaram-lhe pelas faces...
__ Por que demorei tanto? – perguntava-se. – Por que me deixei envolver assim tão profundamente com o trabalho e não a levei para perto de mim?
Cegada pelas lágrimas mornas e com o coração dolorido, Glória voltou ao seu luxuoso apartamento. Muita coisa de agora pra frente não possuía mais sentido. Na ânsia de terminar a história de Ana, deixara a realidade de lado. De que valera todo o seu empenho?
Ao entrar pelo saguão do prédio, porém, o porteiro se dirigiu a ela:
__ Dona Glória, tenho uma encomenda que chegou hoje de manhã. O mensageiro exigiu que lhe fosse entregue em mãos.
Já dentro do apartamento ela abriu o minúsculo pacote sem remetente e, a cada palavra que lia, as lágrimas rolavam com mais insistência que antes:

Querida Glória:

Naquela noite, quando bateu em minha porta a pedir ajuda, não imaginei que a ajudada seria eu mesma. Não soube explicar por que, mas assim que a vi algo me disse que você era um ser especial. A esta hora certamente você já deve ter ido à minha procura, e confesso que esperei pela sua volta por dias seguidos. Até senti tristeza, imaginando que certamente a existência de uma velha solitária não persistiria por muito tempo na sua lembrança. Decepcionada, voltei à minha rotina, esperando somente pelo fim.
Numa tarde, porém, minha vida já entregue à conformidade e ao sofrimento tomou um novo rumo. No mesmo cavalo em que partira, meu Ernesto voltou. Quase não acreditei nas minhas vistas cansadas. De bagagem ele só trazia um livro de capa branca escrito em letras douradas e graúdas: “A história de Ana”. Naquele momento eu soube que um anjo havia passado em minha vida.
Somente seus olhos foram capazes de enxergar o fundo da minha alma, dizendo ao meu marido através de uma linda história, o que eu não consegui dizer todos os anos em que vivemos juntos: que eu sempre o amei. Eu sempre o amei, mas nunca havia dito em palavras.
Hoje estamos juntos, em breve voltaremos pro nosso rancho, onde sei que ainda poderemos ter um novo começo, e nossos filhos finalmente sentirão o desejo de também retornarem para visitas mais constantes. Ou seja, seremos novamente uma família, graças a você, minha menina.

PS: Ernesto está ansioso para conhecê-la.

Abraços de sua amiga
Ana.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Forças do acaso


Eu conheci Sara no verão de 1986, quando ela veio passar seis meses em nossa casa para fazer intercâmbio. Nossa família não possuía o costume de receber intercambistas, porém uma amiga de mamãe acabou convencendo-a a aceitar uma jovem que se dispusesse a auxiliá-la, ao menos por um tempo, como baby sister. Meu irmão estava com três anos e mamãe sofrera uma cirurgia na coluna que a impedia de fazer grandes esforços. Logicamente que não faltaria uma baby sister experiente em todo o estado da Flórida, mas Cloe fora convincente ao dizer que as moças latinas eram as melhores indicadas para tal atividade.
E Cloe estava com a razão. Brian se afeiçoara à moça logo no primeiro contato e isso foi o suficiente para que Sara conquistasse imediatamente a aprovação de meus pais e de praticamente toda a nossa família. Confesso que fiquei encantado com o belo par de olhos verdes da garota, e meus conflitos de jovem pouco experimentado na vida às vezes me faziam entrar em atrito com ela, fato que causava situações embaraçosas. Atritos esses que nada mais eram que subterfúgios usados por mim para camuflar o crescente desejo que eu sentia por Sara. Sentimentos diversos e intensos, escondidos no mais profundo do meu coração, e meu maior medo é que descobrissem que aquela brasileirinha dócil era o meu ponto fraco.
A naturalidade com que ela se infiltrou na nossa vida por vezes acabou despertando também o ciúme de minhas primas, pois a verdade é que papai e mamãe acolheram Sara como sendo praticamente uma filha. Eu, para me defender e ao mesmo tempo puni-la pela tortura emocional que me causava, acabava forçando confusões entre as meninas. Era sempre Sara quem saía em desvantagem, o que no fim acabava me cortando o coração, enchendo-me ainda mais de culpa e, como se fosse possível, fazendo-me apreciá-la cada dia mais.
Um dia ouvi sem querer uma das conversas de Sara com mamãe, enquanto preparavam o jantar do Dia de Ação de Graças. Sentei-me num canto escondido ao pé da pequena escada, do lado de fora da cozinha, recostei-me e fiquei prestando atenção no seu relato. Sua voz soava naturalmente dócil e meiga, desprovida de tristeza mesmo quando falava sobre os muitos momentos tristes pelos quais passara. Como podia uma jovem de apenas dezoito anos já ter vivido tantos conflitos? Sara era mais madura que eu, dois anos mais velho que ela, enfrentara problemas dois mais diversos possíveis, e mesmo assim preservava em si o amor pela vida, a confiança em si mesma, a gratidão pelo pouco que lhe ofereciam, o otimismo e a crença no futuro. Envergonhei-me do meu comportamento de até então, prometi a mim mesmo que mudaria minhas atitudes, fazendo-me digno ao menos da sua amizade.
O tempo, porém, não me fora um bom ajudante. No início do mês seguinte Sara voltou para sua terra, com uma volumosa bagagem cultural e experiências que lhe seriam úteis para a vida toda, segundo suas próprias palavras. Na noite anterior ao seu regresso, quando meus pais promoveram uma reunião em família para a sua despedida, dei-me conta de quanto tempo eu perdi. Sara estivera conosco por metade de um ano e eu usei a maioria desse tempo para atacá-la, estratégia que adotei como minha própria defesa. Refugiei-me na varanda de nossa casa, em Miami, enquanto observava as ondas manifestarem seu louvor à noite enluarada. Uma mistura de tristeza e remorso revolvia minha mente, revivendo aqueles últimos meses de minha vida em pequenos flash backs. Sara cuidara do meu irmão caçula com um carinho quase de mãe, auxiliara meu pai no escritório da construtora, colocara-se ao lado de minha mãe durante a maior parte do tempo em todas as tarefas domésticas, servindo-a com humildade e dedicação, além de ainda encontrar tempo para nos dar aulas de português. Em troca eu apenas a provoquei... daria parte de mim para que o tempo pudesse voltar, para que eu ainda pudesse ter a oportunidade de encontrá-la novamente, ou até mesmo poder começar tudo de novo.
Como se minha prece fosse ouvida, Sara aproximou-se de mim, olhando-me com carinho.
__ Está feliz com minha partida, David? – ela perguntou com voz mansa, não com acusação, mas como se sentisse vontade de ouvir-me dizer que sentiria sua falta.
Enchi-me de coragem e confessei:
__ Daria parte de mim para poder voltar ao tempo e fazer tudo diferente, Sara. Não quero perder os poucos momentos que ainda nos restam juntos para tentar me desculpar pelas indelicadezas que muitas vezes fiz a você, mas espero realmente que não leve consigo uma má impressão de mim.
Como resposta Sara sorriu, acho que principalmente do tremor da minha voz. Justo eu, que me julgava um exímio Don Juan, não consegui disfarçar a ansiedade diante daquela menina-mulher tão esplêndida.
Entre constrangido e encantado, senti seu esbelto corpo se aproximar do meu, na penumbra causada pelas palmeiras que cercavam a propriedade, para então sussurrar ao meu ouvido:
__ Eu perdôo você.
Nada mais me impediria de manifestar meus sentimentos por ela, por isso não hesitei em envolvê-la pela cintura bem feita e tomá-la nos meus braços. Atrevida, Sara me beijou. O que senti foi indescritível, quase como um sonho. Um sonho que acabou na manhã seguinte, pois, ao acordar, Sara já havia partido.
Por dois anos nosso contato se resumiu a míseras cartas repletas dos relatos sobre sua vida, seu novo trabalho e sua faculdade de Psicologia, que eram endereçadas à família, onde meu nome só era mencionado no final. Ou em telefonemas mensais, dos quais eu só participava se tivesse a sorte de atender ao telefone quando o mesmo tocasse, caso contrário só ouvia minha mãe ou meu pai dizer após ela ter desligado:
__ Sara mandou-lhe um abraço.
Propositalmente ou não, Sara se vingava do meu tripúdio.
Seguindo os passos do meu pai, ingressei-me no mundo dos negócios, tornando-me seu braço direito na direção da nossa construtora. Cinco anos se passaram desde a partida de Sara e, nesse período, cheguei a viajar ao Brasil a negócios por duas vezes. Na primeira delas, esquivei-me de procurá-la, pois soubera através de minha mãe que estava comprometida com um político famoso. Aliás, desde que voltara à sua terra, Sara parecia não se ocupar com outra coisa além de relacionamentos fugazes. Até soube que se tornara garota propaganda de uma famosa marca de xampu (confesso que caí na tentação de assistir à campanha publicitária e me arrependi amargamente, pois seu sorriso e sua vivacidade só fizeram doer meu orgulho e meu coração), ampliando suas experiências, porém sem desistir da carreira profissional. Havia se formado em Psicologia no ano anterior.
Bom, na minha segunda viagem ao Brasil, especificamente ao Rio de Janeiro em uma conferência, cedi à tentação e telefonei à moça. Nesse único telefonema, conversamos mais do que em todos os outros após sua partida. Ela parecia a mesma de sempre, encantando-me com suas histórias engraçadas e enfeitiçando-me com seu sorriso contagiante. Pra a minha tristeza, Sara estava passando uma temporada na Amazônia, participando de um estudo com os índios da região, fato que tornou impossível marcarmos um reencontro.
Nada, porém, mudou após minha volta para casa. Em pouco menos de um mês eu tive notícias de que Sara estava engajada em mais um badalado romance, dessa vez com um famoso esportista inglês.
No início do ano seguinte fui para a Inglaterra em mais uma viagem de negócios. E durante essa minha ausência, aconteceu uma sucessão de fatos trágicos que mudaram para sempre a minha vida. E somente semanas depois é que fui me inteirar da nova realidade.
Eu participava de um simpósio onde apresentava minha tese de doutorado, em Canterbury, porém aconteceu um incidente no hotel onde estava hospedado. Enquanto os hóspedes estavam sendo transferidos para outra localidade, houve uma perda de comunicação, além de um eventual relapso da minha parte, uma vez que não contatei minha família, nem disse a ninguém o havia acontecido. Tal detalhe me custou muito sofrimento, pois, nesse espaço de tempo em que fiquei incomunicável, exatas duas semanas, perdi meus pais em um acidente de automóvel.
Segundo foi-me dito mais tarde, Bennet e Katryn iam de Miami para Palm Beach, em visita a parentes. Meu irmão Brian milagrosamente se salvou, enquanto a meus pais não sobrou tempo sequer para serem levados ao hospital. Por mais que me procurassem não conseguiram saber do meu paradeiro. Sendo assim, meu tio Jack, único irmão de meu pai, contatou Sara, que se prontificou a auxiliar em todos os trâmites necessários. Fora ela quem tomara conta do meu irmão nas horas mais difíceis, além de tentar, em vão, localizar-me.
Sara se deslocara até Londres, após uma informação equivocada da empresa pela qual eu viajava, fazendo tudo que lhe fora possível para me comunicar a terrível perda. Eu, no entanto, só pude ser consolado pelo seu imenso carinho e solidariedade quando parti feito um louco para o Brasil, um dia depois de retornar à Flórida. De acordo com uma decisão em conjunto, Brian seguiu com a moça para o seu país, depois que foram tomadas todas as providências legais para que o menino ficasse sob sua responsabilidade. Decisão mais do que acertada, e que também serviu de impulso para que eu admitisse o incontestável.
Não era somente Brian quem estava perdido e precisava de amparo. Descobri que minha vida sem Sara não tinha sentido, desde o primeiro olhar, desde as primeiras palavras, desde aquele primeiro beijo na varanda da nossa casa, na véspera de sua partida. Sara era meu rumo, meu chão, meu tudo, e o destino agora desastrosamente me jogava em seus braços.
Entre consolado e frustrado, descobri que ela sempre me amou, desde o começo, mas teve medo de dizer-me, o que não a culpo. Das dores sofridas tiramos nossas lições, comprometendo-nos um com o outro de tomarmos conta do Brian e de fazer com que cada dia fosse uma nova oportunidade.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Receita de felicidade


A amizade que nasceu entre mim e Ed era um sentimento superior e ultrapassava qualquer tipo de interesse particular. Tínhamos uma ligação única, complementar e até incomum. Ele era apenas um menino, com vinte anos. Eu tinha seis a mais. Nossas diferenças iam além da idade, pois vivíamos em universos que não possuíam muita ligação. Eu tinha acabado de montar uma pequena galeria de arte e ele se preparava para entrar na Faculdade de Direito.
Tudo começou quando nos conhecemos através de minha irmã caçula. Ambos eram colegas de colégio e também muito amigos, o que facilitou, em parte, nossa aproximação. Digo em parte porque, inicialmente, a impressão que Ed me causou não foi das melhores. Esqueci de dizer que o garoto possuía um dos mais belos sorrisos que eu já havia visto em minha vida, além de ser igualmente lindo e muito cativo. No fundo foram essas características que me impediram de aceitar uma aproximação. Não que ele tivesse tentado, afinal, o que mais me irritava em Ed era o fato de ele parecer não notar minha presença todas as vezes que acabávamos nos encontrando por intermédio de minha irmã, mas admito que tal implicância não passava de um forte ciúme em relação aos dois.
Grace tinha vindo morar comigo por um tempo, enquanto se preparava para a faculdade. Somos filhas de pais separados, e, como conseqüência, tornamo-nos independentes muito cedo e ela, alguns anos depois, acabou seguindo a sonhada carreira de repórter, atualmente viajando pelo mundo inteiro em busca de suas matérias. Não sei por quanto tempo exatamente durou esse antagonismo entre mim e Ed, mas me lembro muito bem quando a barreira foi rompida.
Ed e Grace formaram um grupo de estudos junto com mais dois colegas. De acordo com um cronograma montado entre eles, a reunião acabava acontecendo na minha casa ao menos uma vez por semana. Quando isso acontecia, eu procurava não atrapalhá-los, apesar de quase não haver necessidade de muito esforço, pelo fato de eu permanecer grande parte do meu tempo na galeria. Esqueci de mencionar que passava por um período difícil na minha vida, a saída do meu antigo emprego e a montagem do novo negócio haviam me cansado sobremaneira e, quase sem perceber, fui perdendo a capacidade de me relacionar com as pessoas. Não foram poucas as vezes em que fui apontada como antipática e grosseira, como se essas fossem características da minha personalidade.
Esse foi um dos fatores que me impediram de ver em Ed a pessoa maravilhosa que ele era.
Bem, seguindo o curso da narrativa, quero esclarecer o que realmente me fez abrir os olhos para a realidade e voltar a ser eu mesma. Uma encomenda foi entregue por engano na galeria, isso me causou um aborrecimento extra e acabei causando um vergonhoso escândalo com o entregador. Depois de esclarecido o impasse eu decidi voltar pra casa mais cedo, onde Grace e seus amigos assistiam a um filme. Era uma sexta-feira feira e eles decidiram relaxar um pouco após o horário de estudo. Estranhando minha presença em casa àquele horário, minha irmã me questionou o motivo e acabei relatando o ocorrido. Para minha surpresa a história foi motivo de gargalhadas entre a turma e, a partir de então, comecei a me envolver mais com o grupo devido aos comentários que sempre surgiam em relação ao incidente na galeria.
Foi nessa ocasião que eu e Ed começamos a conversar mais e então pude perceber que havia formado um conceito equivocado a seu respeito. Surgiu uma agradável amizade e, aos poucos, ele foi penetrando no meu mundo. Descobrimos que, ao mesmo tempo em que éramos diferentes, possuíamos muito em comum, a paixão pela arte era nossa principal semelhança. Algo que me surpreendeu bastante foi a maturidade que o garoto possuía, diferentemente da grande maioria dos jovens da sua idade, inclusive da própria Grace. Ed era filho único, mas trazia de berço uma educação invejável, o que, ao me ver, fora essencial pra transformá-lo num “adulto precoce”. Aos quinze anos fizera intercâmbio na Suíça, viagem que lhe rendeu uma louvável bagagem cultural.
Com o tempo minha irmã ingressou na faculdade em outra cidade, e Ed começou o seu sonhado curso de Direito, ali mesmo onde morávamos. Nossa amizade continuava sólida e o fato de ele ser uma pessoa muito popular e extrovertida em nada atrapalhava o nosso relacionamento, pois eu era prioridade no círculo de amigos que ele possuía. Trocávamos confidências, tínhamos nossos segredos e, apesar de vivermos nossos relacionamentos à parte, no fim de tudo sobrávamos sempre nós, pois parecíamos ter o dom de sermos mutuamente fracassados no campo amoroso.
Não sei ao certo quando os sentimentos entre mim e Ed começaram a mudar de estágio, mas a certa altura da minha vida comecei a ter sonhos eróticos com meu melhor amigo. Não sabia muito como lidar com a situação, mas comecei a olhá-lo com outros olhos e tive medo. A intimidade que há tempos compartilhávamos quase que ingenuamente, como tomarmos sorvete na mesma colher ou nos deitarmos na mesma cama enquanto assistíamos TV parecia agora me incomodar. Um terrível complexo de culpa me assolou, como se eu não tivesse o direito de violar o sentimento puro e sólido que havia entre nós. Era-me difícil conviver com essa nova realidade, mas procurava de todas as formas não deixar transparecer meu dilema interior.
O toque das mãos de Ed nas minhas, ou os beijos na face me causavam deliciosos arrepios. O cheiro másculo da sua loção pós-barba, a agradável fragrância da sua colônia, tudo estava impregnado nas minhas narinas durante a maior parte do meu dia. O vislumbre do seu musculoso peito nu quando ele tirava a camisa suada na minha frente, após o jogo de tênis no clube, fazia as minhas noites ainda mais torturantes. Quando saíamos de carro e ele, casualmente, roçava a mão na minha coxa enquanto trocava de marcha, era o suficiente para trazer à tona os sonhos que me faziam rolar na cama por infindáveis noites de insônia. A verdade é que eu não mais via Ed com os olhos de antes. A situação se complicou, porém, quando o simples fato de ouvir a voz do meu amigo já estava me afetando.
Fazia já um tempo que os meus sentimentos por Ed haviam mudado e, apesar do meu temor e desconcerto, continuávamos próximos como sempre e ele não demonstrava ter notado nenhuma alteração no meu comportamento. Numa sexta-feira chegaram alguns quadros novos na galeria, obras de um pintor italiano que se lançara recentemente no mercado da arte, e eu decidi retirar uma das pinturas para a decoração do meu apartamento. O quadro era muito grande e, só depois de um dos funcionários da galeria tê-lo deixado na minha sala, pude perceber que não conseguiria pendurá-lo na parede sem a ajuda de alguém que fosse mais forte do que eu.
Comentei com Ed pelo telefone e ele prontamente se dispôs a executar o trabalho para mim. No início da noite, após saborearmos uma pizza no chão da minha sala de estar, ele iniciou a tarefa. Perfurou o primeiro orifício na parede sem dificuldade, mas, para marcar o ponto exato da segunda perfuração sem causar dano, era necessária a minha ajuda. Como possuía um pouco menos de estatura que ele, arrastei a mesinha de centro até o local a fim de sustentar o enorme quadro enquanto ele empunhava a ferramenta no ponto certo. A proximidade de Ed há tempos já me causava sensações múltiplas, mas, naquele instante, eu temi perder o controle. O calor do seu peito nas minhas costas, sua respiração morna na minha nuca, o perfume familiar da colônia envolvendo os meus sentidos, tudo isso fez com que minhas pernas tremessem. Meus braços foram incapazes de sustentar o peso do objeto e eu o deixei escorregar lentamente até o chão. Como em transe, também lentamente eu desci da minúscula mesinha e me virei para ele, que continuava no mesmo lugar, sem manifestar surpresa. Só quando nossos olhos se encontraram é que descobri que Ed não era indiferente à minha atração e, sem trocarmos uma única palavra, ele me abraçou. Foi um abraço diferente de todos os inúmeros que já havíamos trocado antes e pela primeira vez eu me permiti abandonar no seu corpo. Nossas mãos se entrelaçaram como se fossem peças que haviam sido separadas, encaixando-se com perfeição, assim como o restante do corpo. O beijo que se seguiu foi mera conseqüência do amontoado de carícias sutis que havíamos iniciado. Juntos nos deixamos abandonar sobre o denso carpete, sem fazer segredo do que sentíamos um pelo outro. Quando ele gemeu meu nome sucessivas vezes, enquanto deslizava a língua ofegante pelo meu pescoço, eu descobri um novo homem, um novo Ed.
__ Elisa, Elisa... – ele repetia com a voz fraca e rouca de paixão.
Era como a colocação da última peça de um quebra-cabeça, e entendi que eu e Ed havíamos nascido um para o outro. Os fracassos amorosos pelos quais passamos nada mais eram do que a prova de que percorremos caminhos diferentes para finalmente nos descobrirmos. A amizade que nascera entre nós havia sido a base de um relacionamento que seria para toda a vida, eu acreditava nisso.
Desde aquele momento, não se houve necessidade de palavras para traduzir nossa descoberta: completávamos um ao outro. O que passamos a viver depois daquele início foi apenas a conclusão do que abarrotava nossos corações. O amor que nos unia nascera de forma singela, mas adquiriu seu ápice após nos descobrirmos como homem e mulher, como almas gêmeas.
Hoje eu e Ed comemoramos vinte e cinco anos de união, vinte e cinco anos de um casamento de sucesso. O amor que nos une é superior a todos os obstáculos pelos quais passamos no decorrer de nossa vida a dois. Vejo nossos filhos reunidos em torno da grande mesa do jantar de comemoração e lágrimas vêm aos meus olhos. Enquanto o mundo se dilui em relacionamentos mal sucedidos e a instituição casamento parece estar fadada ao fracasso, eu e Ed nos fortalecemos a cada dia. Fazendo um balanço da nossa vida posso concluir que passamos a nos amar justamente por termos tido a oportunidade de nos conhecermos a fundo. Ainda que uma união não passe pelas mesmas etapas que passamos, considero a amizade fundamental para o sucesso do casamento, independente da paixão que une duas almas.
A magia do amor que liga duas pessoas transcende os limites do compreensível, e ainda que se esteja no meio de uma multidão, os corações batem no mesmo compasso. A mensagem traduzida pelo olhar dos apaixonados diz mais do que uma infinidade de palavras. Eis, afinal, a nossa receita de felicidade.