
Rafaela percorria a Rua Santa Maria com seu New Beetle verde metálico, aproveitando o meio de tarde com trânsito ameno para observar as ruas. “Meu apartamento”, pensou. Sorriu de si mesma, pois, na verdade, estava sendo pretensiosa. Sua tia lhe cedera o apartamento num bairro nobre da cidade, local onde morara antes de se casar com o tio Vincent. Portanto, não era dela.
__ Faz três anos que o imóvel está desocupado, Fá – a tia dissera, na tentativa de encorajá-la a vir para Montes Claros. – Sempre tive um apego a ele, por isso não cedi para locação. Se você aceitar minha proposta, vai estar me fazendo um grande favor, ou seja, cuidando do apartamento pra mim.
Rafaela sabia: era só uma artimanha que a irmã de sua mãe estava utilizando, mais para convencer Elza a deixá-la vir do que propriamente para tentar fazer ela própria tomar coragem de dar esse passo. Pois se havia uma pessoa que sabia o quanto ela desejava mudar de cidade, “criar asas”, era sua tia.
Arrumou os óculos que teimavam em escorregar sobre o nariz suado. Nem a leve brisa que entrava pelas janelas era suficiente para amainar o calor que assolava a cidade naquela tarde de verão. Mas ela, decididamente, não estava reclamando. Amava Montes Claros. Passara grande parte da sua infância ali e sempre cultivou o desejo de morar e fazer carreira no local responsável pela maioria das boas lembranças que carregava da sua curta vida.
“Rua São Paulo”, conferiu mentalmente pela enésima vez e virou suavemente à direita. Estava ansiosa. Só começaria o trabalho dali a dois dias, mas precisava organizar tantas coisas até a manhã daquela segunda-feira. Prometeu-se a si mesma que naquela noite de sábado iria ao shopping renovar seu guarda-roupa, afinal, não poderia começar seu estágio na Pousada Belos Montes vestida com simplicidade. No domingo, bem, no domingo não queria se preocupar com outras atividades. Queria ir à igreja reencontrar os amigos que há tempos não via. E os membros da família que ali moravam ela teria muito tempo para visitar-lhes.
Seu coração bateu mais forte quanto estacionou o pequeno automóvel, mais um dos tantos caprichos que a tia preferida lhe satisfizera, na vaga da garagem. Retirou as poucas bagagens (somente uma mochila e uma nécessaire) e se dirigiu ao elevador. Seus outros pertences já haviam sido enviados há dois dias, uma das amigas lhe fizera a gentileza de organizá-los no espaçoso apartamento.
Uma cobertura! Ai, que saudades que ela sentia daquele lugar. De repente, ao adentrar pela pomposa sala de estar, lembranças das brincadeiras de infância, nas quais a maioria a prima Déborah estava presente, inundaram sua mente. Há quanto tempo estivera naquele lugar? Uns quatro anos, pensou. Da cozinha até parecia vir o aroma apetitoso de bolo de cenoura com calda de chocolate...
Rafaela sacudiu a cabeça, espantando as lembranças. Seus olhos já estavam rasos d’água, precisava aproveitar o pouco tempo antes de começar a nova etapa de sua vida, não podia se ocupar revivendo momentos que lhe eram tão preciosos. Afinal, tinha a vida inteira para rememorá-los.
Com um sorriso no rosto dirigiu-se à estante, onde, juntamente com alguns artigos de decoração, ainda estava um porta-retrato de sua tia. Contornou o semblante sorridente com o indicador. Às vezes era pega de surpresa ao tentar lembrar o nome da tia. Sorriu de si mesma. Ela fora sempre tão presente na sua vida, assim como na da maioria de seus primos, que parecia não ter mais nome. “Tia” passara a ser algo mais que um título de parentesco, era quase como “mãe”.
Dirigiu-se até o sofá de couro cor de marfim, percorreu os olhos por todo o interior e notou que estava tudo limpo e arrumado. A tia era realmente muito zelosa, afirmou-se intimamente. Casara-se tardiamente, tivera a sorte de encontrar seu grande amor no auge dos seus trinta e três anos, três anos atrás, mas não tivera filhos. Era como se os sobrinhos, dos quais sempre cuidara com amor de mãe, lhe fossem destinados como consolação. E tio Vincent parecia partilhar da mesma generosidade. Fora ele quem lhe oferecera o estágio na Pousada Belos Montes, da qual era proprietário, auxiliando grandemente na realização de seu sonho: sair daquela cidadezinha insossa e conquistar o seu próprio espaço.
Para tanto, seria necessário transferir seu curso de Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas, ainda inacabado. Há cerca de seis meses tio Vincent fizera o convite, dando-lhe provas de que não era somente um “ajeito”, uma generosidade, pois a empresa estava realmente precisando de uma nova funcionária no setor. Levara algum tempo para decidir abraçar a proposta sem reservas, o primeiro passo tinha sido a tentativa de transferência para uma faculdade em Montes Claros. E o resultado da prova saíra há exatas duas semanas, tempo que aproveitara para acertar os últimos detalhes. O trabalho na pousada seria no período da tarde e o curso na faculdade seria à noite, o que lhe dava todas as manhãs disponíveis para organizar sua vida. E dormir, pensou sorrindo. Adorava levantar tarde e há tempos não gozava desse privilégio.
Sentiria realmente falta de Candiba, afirmou-se. Mas era tão perto que, quando a saudade batesse mais forte, poderia fazer uma visita de dois dias, abraçar a mãe, o pai e o irmão, rever os amigos e a família e retornar à sua nova casa. Ela nem mesmo sentira dificuldades de vir sozinha pela primeira vez, gabou-se, até mesmo por já feito esse percurso várias outras vezes com a família.
“Vai dar tudo certo” disse em voz alta.
Nem bem organizara o que era mais urgente para adaptar-se à nova vida e já chegara a segunda-feira. A manhã passou voando, quase não lhe dando tempo para pensar no que encontraria pela frente. Ao estacionar o New Beetle à sombra dos altos eucaliptos, contemplou a paisagem paradisíaca. De repente seu coração acelerou.
Mesmo depois de muito já ter conversado com tio Vincent acerca do cargo e do período que certamente levaria para se adaptar, sentiu medo. Como se somente agora tivesse noção da responsabilidade que lhe era colocada sobre os ombros. Jamais tivera medo de batalhar, pelo contrário, era criança ainda quando realizava tarefas muitas vezes próprias de adulto, como cuidar de assuntos relativos ao trabalho de sua mãe.
Alisou nervosamente o tecido delicado da saia evasê cor de pistache, que lhe chegava até quase os tornozelos. Escolhera uma camiste branca, de bordados delicados na lapela, para suavizar a austeriade do figurino. Prendera os longos cabelos cor de mel num coque clássico, aumentado uns oito anos a mais na sua verdadeira idade, pois os inseparáveis óculos de aro dourado já lhe auxiliaram bastante nessa tarefa.
Respirou fundo, ajeitou a bolsa de couro de avestruz sobre os ombros elegantes e caminhou com firmeza e autoconfiança até a recepção da pousada. Ana Carolina estaria á sua espera, para orientá-la.
Rafaela sentiu os temores se amainarem após alguns minutos de conversa com a simpática funcionária de quem seria assistente nos próximos meses, até estar apta para assumir o cargo em definitivo. Era uma moça morena, na casa dos seus trinta e poucos anos, elegantemente vestida em um tailler rosa opaco que se movimentava com agilidade por entre as pessoas que iam e vinham no luxuoso saguão da pousada. Foi nesse instante que seus olhos o contemplaram.
A cena pareceu desenvolver-se em câmera lenta sob seus olhar. Ele ultrapassou a ampla porta de vidro, cumprimentando o funcionário que ali estava a postos para receber os clientes com um sorriso magnífico. Dirigia-se à recepção com passos elegantes e firmes. Trajava um terno cinza-claro, de corte perfeito, e tinha nas mãos uma valise. Deveria ser um cliente assíduo, Rafaela concluiu em segundos, a julgar pela familiaridade com que se dirigia às pessoas pelas quais passavam.
Na inocência onírica dos seus mal completos dezenove anos, imaginou-o observando-a de alto a baixo, apreciando seu porte elegante e seu bom gosto na escolha do traje. Mas nem bem completara o delírio romântico, ele passou direto por ela e se dirigiu à colega, cumprimentando-a educadamente com um sorriso simpático. Ainda que Ana Carolina pretendesse apresentá-los um ao outro não tivera oportunidade, pois o estranho dissera em tom jocoso:
__ Ana, querida, faça um grande favor pra mim. Acabei de chegar de viagem e estou meio apressado, procure a dona do carro da Barbie estacionado na minha vaga preferida e convença-a a trocar de lugar, pode ser? Aposto que é a primeira patricinha com vestido rosa-choque que você avistar por aí.
Involuntariamente seus olhos ficaram rasos d’água. Nunca ninguém jamais fizera tão prévio conceito de sua personalidade, julgando-a através do carro que possuía. Tá certo que muitos dos seus amigos brincavam nesse sentido, chamando seu querido New Beetle de “carro da Barbie”, mas era uma forma até carinhosa de elogiar seu presente de aniversário de dezoito anos, que escolhera com demasiada minúcia.
Queria revidar, mas suas pernas não saíam do lugar. E antes que a colega, desconsertada, manifestasse alguma explicação pelo mal entendido, alguém chamou de perto dali:
__ Doutor Dominick!
O rapaz dirigiu a atenção para um senhor de meia idade que acabara de sair do elevador e, em poucos segundos, os dois já se dirigiam à área externa da pousada, conversando com descontração sobre assuntos de negócios, algo sobre uma suposta reunião com os membros da diretoria de uma certa empresa. Quando Ana Carolina dirigiu-lhe um olhar constrangido, ela rebateu como forma de vingança tardia:
__ Apenas diga a ele que você não conseguiu encontrar nenhuma patricinha de rosa-choque num raio de quilômetros. E pra lhe ser franca, independente de ele ser um dos mais fiéis hóspedes da pousada, eu me recuso a tirar meu carro de onde estacionei. Afinal, lá não tinha nenhuma placa de aviso.
A moça apenas deu de ombros e, por um instante, Rafaela imaginou-se sendo despedida no seu primeiro dia de trabalho. Certamente tio Vincent não a protegeria, caso se desentendesse com um dos finos hóspedes da Pousada Belos Montes. Poderia estar causando um transtorno ao seu tio, mas manteve a decisão. Recusava-se terminantemente a ceder aos caprichos daquele doutorzinho de meia tigela. Estremeceu ao lembrar da beleza e da força que emanavam do estranho. Idiota, idiota, idiota! Por que os mais lindos homens eram também os mais prepotentes? Que ódio! O miserável quase conseguira estragar seu dia.
No final da tarde, quase não se lembrava mais do desagradável episódio com o Doutor Estranho. Após a reunião com tio Vincent, que graças a Deus nada mencionara sobre o ocorrido (prova de que nada lhe chegara aos ouvidos), Rafaela dirigiu-se ao estacionamento. Estava louca por um banho, por um filme e por uma pizza, com direito a sorvete de sobremesa. Suas aulas na faculdade só começariam na semana seguinte. Durante toda a tarde cumprira a tarefa de contatar seus familiares, prometendo uma visita para assim que possível. Mas naquele seu primeiro dia de trabalho, apesar de ter adorado tudo, independente do fiasco do começo da tarde, queria privacidade. Para rememorar as responsabilidades que lhe foram delegadas, para descansar da tensão emocional que julgava ser natural diante do novo, para se esvaziar do estresse causado pelo malfadado encontro com o bonitão preconceituoso.
Mas não tivera tempo de regozijar-se. Assim que o local onde estacionara o carro no início da tarde apareceu sob seu campo visual, sentiu um enorme desejo de gritar. Alguém estacionou um Tucson preto atrás do seu delicado New Beetle. Antes que cogitasse a possibilidade de ter havido algum grotesco engano por parte de algum apressadinho, que certamente desejava sair antes que o dono do carro presente na vaga do estacionamento retornasse, viu-o sair de dentro do automóvel, prepotente quando o ouvira pela primeira vez. Contou até dez para não cometer o despautério de gritar, espernear e esmurrá-lo no peito, o que certamente reforçaria a ideia que ele tivera dela, sem ao menos conhecê-la.
__ Estive à sua espera, madame – ele começou, não disfarçando a surpresa de constatar que não se tratava de uma patricinha de vestido rosa-choque.
Mil palavras se passaram pela cabeça de Rafaela, mas ela não conseguiu verbalizar uma sequer. Odiou-se por isso. Após alguns segundos praticamente paralisada à frente do prepotente doutorzinho de meia tigela, decidiu entrar no carro, sentindo-se impotente.
O sol se punha entre os montes, colorindo a paisagem com uma sombra dourada, o que camuflou o leve rubor de suas faces morenas. O gato comera sua língua, droga? Por que se sentia tão muda diante daquele deus grego? Seria hipnose?
A longas penas, consegui entrar decentemente no minúsculo espaço do veículo, acomodando as pernas trêmulas com muita dificuldade, mas finalmente conseguiu dizer, disfarçando o tremor da voz:
__ Da próxima vez que não quiser que uma Barbie se aposse de sua vaga, tome o cuidado de deixar a placa com seu nome bem visível. Meus poucos neurônios podem me impedir de assimilar essa informação.
Em resposta ele gargalhou. E que belos dentes! Céus, ele era perfeito! Mas Rafaela sentiu medo de que ele se recusasse a sair para lhe dar passagem. Não saberia o que fazer, caso isso ocorresse. Seus medos, porém, caíram por terra gradativamente, quando o viu finalmente entrar no pomposo Tucson preto reluzente e dar a partida. Saiu cantando pneus.
__ Prepotente, prepotente, prepotente! – desabafou, esmurrando o volante.
Recompôs-se em alguns minutos e tomou a direção leste da cidade, finalmente indo pra casa.
O resto da semana transcorreu tranquilamente, e, caso o Doutor Prepotente fosse realmente hóspede assíduo da Pousada, naquela semana havia faltado. Talvez estivesse viajando, Rafaela pensou, lembrando de tê-lo ouvido mencionar, na segunda-feira, estar chegando de viagem.
“Droga, por que não tiro ele do meu pensamento?”, recriminou-se. Não era honesto da sua parte estar se lembrando dele com tanta frequência, principalmente depois dos dois malfadados encontros.
No que dizia respeito ao trabalho, porém, tudo estava maravilhoso. Rafaela estava amando trabalhar na pousada, tio Vincent sempre lhe encorajava com elogios e reconhecimentos sinceros sobre seu desempenho e os colegas eram uns doces de pessoas.
No domingo seguinte se preparou pra ir à igreja, consciente de que seria o único da semana que poderia participar dos cultos, pois, na semana que se iniciava, começariam suas aulas na faculdade.
O vestido vermelho, de pala bordada com madrepérolas, caiu-lhe perfeitamente no corpo esbelto. Nunca fora convencida, mas naquele instante olhou-se no espelho e sentiu-se uma princesa. Sorriu para a imagem refletida. Naquela noite, após o culto, sairia com os amigos. Samuel propusera uma rodada de pizza, mas o mais agradável seria o encontro em si. Estava precisando de animação.
Chegou adiantada, pois detestava atrasos. O estacionamento ainda estava quase vazio, então procurou um jeito de acomodar seu New Beetle numa das vagas mais privilegiadas do pequeno espaço ao lado da igreja. Involuntariamente lembrou-se do episódio de segunda-feira e sorriu.
Sentou-se na primeira fila, seu lugar preferido. Assim sua atenção não seria desviada facilmente. Adorava aquele lugar.
Quase duas mais tarde saía do templo, já se dirigindo ao terraço para reencontrar os meninos e combinarem com detalhes o programa de logo mais. Foi a primeira a chegar, mas, por um instante sentiu o coração acelerar. Tinha um Tucson preto bem ao lado do seu carro. Seria coincidência ou estava tendo miragens? Não podia ser...
__ Você parece se empenhar muito na tarefa de roubar minha vaga preferida no estacionamento – a voz familiar, só que dessa vez desprovida de qualquer deboche, soou firme a poucos metros de si.
Rafaela virou-se demoradamente, temendo decepcionar-se ao constatar que estava imaginando coisas. Não estava... era ele!
__ E você parece se empenhar na tarefa de me perseguir! Eu já te disse que, antes de reclamar a vaga como sendo sua, coloque a placa – sua voz também soou desprovida de irritação.
Era um recomeço e ela confessou-se estar muito feliz por encontrá-lo em outras circunstâncias.
__ Samuel me contou que estão programando alguma coisa pra esse fim de noite, posso me juntar a vocês?
__ Desde que você não se incomode com o fato de eu estacionar meu carrinho da Barbie no melhor lugar, será bem vindo ao nosso meio.
Dominick sorriu. Um sorriso puro, nada irônico nem prepotente. Rafaela teve a certeza de que aquela era a sua real essência. Olharam-se demoradamente, um olhar que não precisava de palavras, pois, por si só, já era cheio de significados. Algo lhes dizia, aos dois, que a partir daquela noite o carrinho da Barbie e o imponente Tucson estariam quase sempre estacionados lado a lado.
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